A História que não se conta

Artigo por Márcio Sampa
14 de novembro de 2003

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Luis Gama é um importante
e desconhecido símbolo da
cidade de São Paulo.
Filho de mãe escravizada,
teve sua liberdade comprada
e tornou-se advogado, conseguindo
libertar mais de 500 negros
escravizados. Para isso,
utilizava-se de argumentos
jurídicos imbatíveis nos
tribunais.

A cidade de São Paulo se aproxima de seus 450 anos e como todas as datas simbólicas, coletivas ou pessoais, esperamos que possa ser um momento de comemoração, mas também de reflexão.

O caminho das comemorações aponta para os mesmos clichês de sempre: a São Paulo dos imigrantes, das colônias italiana, portuguesa, espanhola, japonesa e até alemã. Há quem diga que fora da Alemanha e da Áustria, São Paulo é o lugar onde mais se fala alemão no mundo. Pode ser.

Ainda há a contribuição dos migrantes, principalmente os nordestinos, que apesar de muito discriminados têm sua presença reconhecida, não só pela seu grande número, mas por ser a onda migratória mais recente e, portanto, mais fresca em nossas memórias. Nos próximos dois meses vamos cansar de ver nas TV’s, jornais e revistas as mesmas abordagens de sempre sobre as pessoas que construíram a cidade. Claro, não se pode negar que todas essas contribuições são importantes e fazem da cidade uma das mais interessantes do planeta.

Mas o grande problema dos clichês é a sua capacidade de evitar as reflexões. No caso de São Paulo, questões relacionadas a temas como o meio ambiente (baixíssima relação entre áreas verdes e número de habitantes, a questão dos mananciais e a ocupação irregular do solo, para ficarmos com alguns exemplos); infra-estrutura de transporte com um modelo pouco inteligente, baseado no favorecimento da indústria de automóveis; o déficit habitacional; o caos urbano e tantos outros temas ficarão provavelmente relegados a um segundo plano.

Como não se pode dominar todos os assuntos e muito menos abordá-los em um único artigo, resolvemos aproveitar este espaço para propor uma das muitas reflexões que estes quatro séculos e meio de Paulicéia ensejam, ainda mais quando eles são precedidos pelo mês da Consciência Negra. Em números absolutos, São Paulo é a cidade com a maior população de negros do Brasil, segundo dados do último censo. Confrontados com os clichês anteriormente citados, tais números surpreendem. Afinal, de onde surgiram tantos negros? Por onde andam? Quem são?

Se fizermos um exame de memória e buscarmos as informações dos bancos escolares vamos descobrir que a história das populações negras brasileiras termina no dia 13 de maio de 1888. Após a abolição, estes grupos simplesmente somem dos livros didáticos, aparecendo apenas como brasileiros, povo ou termos similares. Mas a trajetória destes grupos na paisagem urbana das grandes cidades é tão distinta e importante quanto a dos imigrantes italianos e japoneses, por exemplo.

No caso da cidade de São Paulo, é interessante observar que mesmo antes da abolição, muitos negros fugiam do cativeiro nas fazendas do interior para se misturar com os alforriados na paisagem urbana. Após este período, uma característica muito marcante e predominante até os nossos dias (conforme também demonstra o último censo do IBGE) será a ocupação por parte deste grupo das periferias da cidade. Se pensarmos na São Paulo da virada do século XIX para o XX precisamos vislumbrar a periferia como os bairros da Barra-Funda, a Baixada do Glicério e o Bexiga. Ao contrário da dinâmica de cidades como o Rio de Janeiro, onde os negros ocupam historicamente os morros, em São Paulo originalmente a ocupação e formação dos territórios negros se dará nas regiões insalubres das várzeas.

Em nossa pesquisa, desenvolvida junto à Universidade de São Paulo, temos dado uma particular atenção ao bairro do Bexiga. Tradicionalmente conhecido como um bairro italiano, a atual Bela Vista teve como primeiros ocupantes, ainda no início do século XIX, os habitantes do quilombo do Saracura. Este é o nome do riacho que corre sob a atual avenida Nove de Julho. Há fortes indícios de que o quilombo estivesse localizado na mesma região ocupada atualmente pela Escola de Samba Vai-Vai. E a partir daí surge outra confrontação com os clichês normalmente aceitos. Se o Bexiga é um bairro italiano, como pode ter uma escola de samba fundada em 1930 e que até os anos 60 não aceitava brancos em suas fileiras? A explicação para o aparente anacronismo é exatamente a forte presença de afro-descendentes na região durante muitos anos. É um fato que, a partir da década de 20 do século passado, o bairro começou a receber um expressivo contingente de imigrantes italianos, que realmente mudaram e marcaram sua paisagem até nossos dias, mas a presença e herança negra aparecem na história, na prática cotidiana e nos nomes que fazem parte do bairro.

Os cortiços, por exemplo, fazem parte da história do Bexiga e até os anos 80 foram amplamente ocupados por populações negras. O mais famoso de todos, não por acaso, recebe o nome de “Navio Negreiro”. A rua Treze de Maio, a principal do bairro, tem este nome porque ali se reuniam os libertos para comemorar a abolição da escravatura. Ainda há a rua da Abolição e nos dias atuais a Pastoral Afro, com sede na italianíssima igreja da Achiropita, e que atua de maneira marcante, provando a condição afro-italiana do Bexiga. Na verdade, são muitos os fatos e histórias que ligam o negro à trajetória do bairro. Alguns clichês e outros fatos intencionais acabaram por ocultar esta forte ligação. O resultado disso é a aparente falta de relação entre os afro-descendentes e a história da cidade de São Paulo. Um lapso que nossas pesquisas, aliadas às de outros estudiosos da dinâmica histórica e cultural da cidade, procuram apagar, contribuindo para mostrar que após o 13 de maio muita coisa aconteceu, e que esta população, genericamente chamada de comunidade, tem uma história tão peculiar e importante, como a de qualquer outro grupo étnico que contribuiu para a construção deste País. É mister que, não só nesse 20 de novembro, mas com freqüência cada vez maior, possa se reconhecer as particularidades e importância das populações negras no período pós-abolição, pois o resgate deste importante pedaço da nossa história e das práticas culturais do nosso presente são um dos poucos caminhos que temos para diminuir o fosso econômico, social e cultural, que tanto divide os brasileiros. Ainda que gostemos de nos ver como uma terra de tolerância, carnaval e futebol.


Titulo: A História que não se conta

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Artigo

Data de publicação: 14 de novembro de 2003

Resumo:

Um resgate da História das populações negras da cidade de São Paulo, no Dia Nacional da Consciência Negra.

4 Comentários

  1. Alexandre Piccolo disse:

    Muito bacana, Sampa. Só bacana não, muito importante o resgate desta História que se costuma evitar e não se conta. Parabéns.

  2. PH disse:

    Sampa… artigo preciso, consciente e sem os cliches que vc tanto combate. Seu trabalho tem equilibrio e uma linha que nao discrimina nenhuma etnia e, ao mesmo tempo, resgata aquilo que importa ser resgatado, de forma inteligente e relevante para nossa historia. Parabens!

  3. Samira disse:

    Parabéns pelo trabalho! Fundamental para reescrever esta história… Espero ter a oportunidade de ver o livro completo. Abraços, Samira.

  4. Mário disse:

    Sampa, sensacional! Publique mais textos que desmontem essa visão embranquecedora da nossa sociedade. Existe ainda a universidade, o mercado de trabalho, a “igualdade” - sim, entre aspas, sabemos bem - racial e etc. Precisamos de mais textos seus por aqui! Parabéns!

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Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

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