Artigo por Alexandre Piccolo
27 de julho de 2004

Ao desavisado ou desavisada: não é gracinha minha, em modesta encenação, pretender me incorporar como a tal “literatura” ? e anunciar logo meu funeral ?, como era costume se ouvir há alguns anos: “Deus morreu, Marx morreu, eu já não ando muito bem das pernas…”. Longe da minha alçada, modéstia ou audácia. O papo, ainda que se pretenda sério, é sem compromisso.
Quantas coisas concorrem com a leitura de um livro de literatura? Um livro de contos, de poesia, uma peça teatral, uma novela curta ou mesmo um romance? Acho que é possível criar uma razoável, se não extensa, lista de diversas atividades de lazer concorrentes ? para não entrarmos no mérito do mais aprazível ou saudável. Em boa parte (quase) todas atividades mais rápidas e de prazer mais "imediato”. Ler um livro toma tempo, leva, não raro, alguns dias para sua fruição e contentamento ? se limitarmos apenas ao tempo ? e tempo, hoje, virou artigo raro (logo, caro) na prateleira de nossa modernidade.
O assunto apareceu no final de semana, numa chamada da Folha de São Paulo para a seguinte constatação (perdão, não decorei o título): lê-se cada vez menos literatura. A conclusão e os dados vêem reportados pela National Endowment for the Arts, num relatório chamado Reading At Risk: A Survey of Literary Reading in America ? publicado na internet neste mês de julho. E aquilo que já se percebia não só com os próprios olhos chegou agora numerado, tabelado e estatisticamente comprovado, para os mesmos olhos comprovarem: a literatura sumiu dos olhos das pessoas. Corrijo-me: as pessoas não põem mais seus olhos em literatura.
Os olhos, acima, têm mais de um sentido. Um concreto, do reconhecimento dos limites da própria leitura frente o passar dos últimos anos: imagino que a geração dos pais dos meus pais leu mais (literatura) que a geração dos meus pais; sinto que minha geração lê menos (literatura) que a dos meus pais; e percebo, com o passar dos dias, que a geração mais nova que a minha lê ainda menos, cada vez menos, literatura ? ou seja, quase nada. Outro sentido surge para os olhos com a leitura cabal da prova irrefutável deste antigo pressentimento, um atestado prescrito de óbito. E ainda que os olhos (que a terra há de comer!) não vejam, pelo andar da carruagem essa tal “literatura” parece que vai mesmo desaparecer do mapa. E com data e local de morte anunciados, segundo os analistas.
Na pesquisa, o veículo não é bem uma carruagem mas sim um trem ? desgovernado, e não parece haver luz no fim do túnel. Das estatísticas por idade, sexo, escolaridade etc. aos questionamento do papel dos concorrentes nesta disputa (em especial, as mídias eletrônicas), o documento engloba dados de modo organizado, resume pontualmente os fatos pesquisados e evita resposta fáceis, ainda que seja fácil culpar a tv e a Internet. Entre navegar pela web, jogar videogame, assistir a um filme, ouvir música, ver tv e ler um livro ? para elencar apenas algumas atividades “solitárias” ?, o livro costuma ficar por último na lista. Isso quando é o último. Infelizmente, não é difícil encontrar defensores do “ler é chato, é difícil, toma muito tempo?”.
Lembro que folheando o final de um livro de Harold Bloom na livraria, não esqueci a passada d?olhos por seu breve último capítulo, curto e grosso sobre o futuro da literatura: negro como à morte. Se não fadada à morte, completamente derrotada pela tela, sobrevivendo (ou melhor, vegetando) nas mãos, olhos e lentes de especialistas, alguns poucos "leitores humanistas", dedicados amantes de uma atividade intelectual a ser banida do conjunto comum de nossa sociedade de consumo. Até sua completa derrocada, seja por morte natural, suicídio, eutanásia.
E ainda que isto seja improvável ou impossível, o descaso da humanidade com sua própria comédia e tragédia, seu próprio patrimônio intelectual e cultural, causa não só uma tristeza sem fim mas esbofeteia qualquer lampejo de esperança em humanistas ufanistas. Parece até que nem a estupidez humana surpreende mais.
Titulo: A morte da literatura
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Artigo
Data de publicação: 27 de julho de 2004
Resumo: Nota de falecimento.
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Pode ser que sua intuição esteja correta. No entanto, sempre vão existir manifestações literárias - mesmo em constante mutação. Um exemplo é a nossa aPatada. Mas para não ficar só neste exemplo, vejo o fenômeno dos blogs (quando bem escritos) como um novo tipo de literatura, espécie de folhetim. Os suportes mudam. As letras, permanecem.