Cachorro grande

Artigo por Paulo Henrique
8 de outubro de 2003

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Cave canem

Stanislaw Ponte Preta certa vez disse algo que era mais ou menos assim: "o Deadline é um cachorro grande, que quando você passa a cerca dele, ele te morde".

Está certo que o folclórico jornalista carioca escolheu palavras bem mais engraçadas que estas, mas a idéia que ele passou eu não esqueci. O tal Deadline é fogo.

"Deadline" é uma expressão cruel nos meios profissionais. Representa a hora-limite de se entregar uma determinada tarefa. Se o seu chefe diz que o deadline é amanhã as 17 horas, apresse-se, meu caro. A hora está chegando.

O termo surgiu nas redações de jornalismo antes de se alastrar para outras áreas. Nestas redações, um pobre e oprimido repórter é obrigado a escrever com um olho na tela do computador e o outro no ponteiro do relógio. E tem que sair a matéria, pois o jornal já está no prelo, esperando por ele. É por isso que são publicadas grandes porcarias na imprensa. Mas isto é outra história.

Na internet, então, o troço piorou. Já vi professora de jornalismo, toda prosa, falando que o jornal na web vive "em constante deadline". Um segundo a mais pode representar "furo" do portal concorrente (que no fundo, dão as mesmas notícias, com os mesmo erros). É o tal do fetiche do tempo real. Uma baboseira que faz alguns jornalistas se transformarem em seres histéricos e, geralmente, com muito pouco conteúdo, pois nunca se aprofundam mais que dois parágrafos em um assunto. Uma busca do nada para lugar nenhum.

Mas saindo do jornalismo, profissionais de outras áreas também vivem correndo deste cachorrão. Ou vocês acham que os computeiros só ficam hackeando e/ou comendo sucrilhos em garagens milionárias? Que nada, esta época já passou… Agora eles atravessam noites adentro para entregar o projeto no prazo. E, tal qual os colegas das redações, os resultados também não são dos melhores.

São loucuras desta vida. O engenheiro civil, o advogado, o técnico, o médico, em suma, quase todos os profissionais vivem correndo deste pit-bull assassino, treinado para ser um devorador de paz de espírito (e de empregos). E o pior que - cada vez mais - o bicho é treinado pelos mesmos que um dia já foram vítimas destas mordidas.

Isto me lembra a história de um camarada de um amigo meu. O cara estava jogando bola e alguém a chutou do outro lado de uma cerca. O bonitão foi lá - todo valente - pegar a pelota, quando viu um mostro latindo e correndo em sua direção. Foi um tal de pular a cerca de uma vez só, se rasgando todo no arame farpado. Para citar novamente Ponte Preta, o cara ficou "mais remendado que paletó de mendigo".

É a mesma coisa nas profissões. Para o cachorro não morder, todos pulam o muro na correria e caem estrupiados do outro lado. E acham que escaparam do pior. Mas não imaginam que amanhã o cachorro estará mais faminto ainda, pronto para mordê-lo, sempre que for necessário.

Bom, mas chega de prosa, vou ficar por aqui. Já que ninguém tem coragem de matar este cachorrão, o melhor é publicar logo este texto. Antes que o Deadline me morda.


Titulo: Cachorro grande

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Artigo

Data de publicação: 8 de outubro de 2003

Resumo:

O nome dele é Deadline.

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7 Comentários

  1. J. P. Mello disse:

    Sabe o que eu descobri? Que tem muito cachorro deadline do tipo que muito ladra mas nao morde. E. Eu decidi que nao ia me estressar tanto e disse, ” quietinho au-au . Um osso de cada vez”. Sabe o que ele fez? Colocou o rabo entre as pernas!

  2. Herbie disse:

    Heheheheh!!Boa, PH!Mas continuarei me arriscando a ser mordido por ter usado meu precioso tempo para ler APatada…:)

  3. martim vasques disse:

    P.H.: Este texto é o seu segundo melhor, atrás daquele sobre Woody Allen. Quanto sobre o assunto do Deadline, é coisa de jornalista toupeira e, por isso, o jornalismo brasileiro é digno de ficar sete palmos embaixo desta terra

  4. Alexandre Piccolo disse:

    Hehe, em cima da hora mas sem perder a postura e a boa prosa. Nota dez, Pee!

  5. André Penha disse:

    Deadline, death line.

  6. Mário disse:

    Hehe. Ótimo. Não sei quem foi o mentiroso que disse que a tecnologia iria nos fazer trabalhar menos e com mais calma. Ela não está do nosso lado, mas do lado daqueles que comandam (uma visão pessimista e catastrófica?). Enfim, texto delicioso para descansarmos nossas consciências. Pois sim, nos fazem acreditar que sem o deadline, estamos perdidos. Gostei, PH!

  7. Juliana disse:

    Legal o texto, PH. Conseguiu descrever nosso sofrimento com muito bom humor! E ainda ressuscitou o impagável Stanislaw Ponte Preta, gostei.

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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