Artigo por Eduardo Socha
21 de junho de 2004
Na semana passada, falava sobre o atual infortúnio da Filosofia e das humanidades em geral. “Ladainha velha e grudenta”, já que ninguém deseja ouvir mais os lamentos da escassez de recursos (e de paciência) em relação às humanidades. Mas a abordagem superficial da crônica passada, limitada talvez pela falta de criatividade do autor, andou incomodando a semana e exige a retomada de um ou dois aspectos. Bem queria comentar o final da novela das oito, mas como não assisti a nenhum capítulo (tá bom, só vi um), realmente não teria muito que dizer. Só me resta então prosseguir o assunto anterior - mesmo que não consiga aliviar a consciência.
A grande questão era “raios, mas para que serve um filósofo?!” Como muita gente discute a existência de filósofos hoje em dia, preserva-se a imagem e muda-se o termo para refazer a pergunta: “raios, mas para que serve um intelectual?!” A palavra “intelectual” soa (ou pelo menos deveria soar) datada. O historiador Peter Burke lembra que a divisão do trabalho intelectual, sobretudo a partir do século 19, trouxe para o dicionário palavras como “especialista”, “profissional”, “cientista”, “perito”. A fragmentação do conhecimento descaracterizou a função tradicional do filósofo, do “homem multifacetado”, que se propunha a sistemas totalizantes (indo da física à metafísica) e supostamente próximos da verdade. Ou seja, com o processo de especialização, o lugar para pretensões globais diminuiu, pois o próprio conceito de verdade se encontrava disperso nas diversas competências e especializações; passa a existir a verdade do médico, a do engenheiro, a do advogado, a do economista.
Na esteira dessa divisão, entra a figura do intelectual, herdeiro dos philosophes iluministas e dos scholars britânicos, responsável por balizar condutas éticas e estéticas. Rousseau, Zola e Sartre constituem modelos clássicos, em três épocas distintas, de engajamento ético-intelectual.
Hoje, no entanto, esse papel parece ultrapassado. Ninguém espera mais conselhos ou preceitos de comportamento dos filósofos (se é que existem) ou dos intelectuais, palavras consideradas até mesmo arrogantes pelo senso comum.
O professor Hans Gumbrecht entende que na redefinição contemporânea desse papel estão incluídos os cientistas, ou melhor, todo o pensamento acadêmico. A nova função seria uma busca “contra-intuitiva” por modelos contrários aos institucionalizados, por visões de mundo alternativas, nem que seja “para estocar”, isto é, “pensar e imaginar o que ninguém mais pensa nem imagina”, mesmo que não tenha aplicação prática imediata.
Além disso, a construção de uma sociedade do conhecimento necessita de permanente reflexão a respeito de seus rumos, sob risco de se transformar em tecnocrática sociedade da informação, sem autonomia crítica. Dizer isso é chover no molhado: a ênfase em ciências humanas deveria ser a mesma dada às exatas e biológicas.
Tudo isso parece abstrato, longe do real, pois é difícil sustentar esta validade no imediatismo do cotidiano. Aquilo que não tem compromisso utilitarista com o agora parece relegado à perda de tempo e de recurso. Talvez por este motivo também, qualquer resposta à pergunta “para que servem as humanidades?” parecerá sempre superficial, incompleta, embora sua discussão seja sempre necessária. Às vezes, é preciso chover no molhado.
Titulo: Chover no molhado
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Artigo
Data de publicação: 21 de junho de 2004
Resumo: (continuação da última segunda-feira)
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