Artigo por Eduardo Socha
20 de março de 2004
Não é exagero dizer que a ruptura da racionalidade evidencia a fachada mais hedionda do terrorismo. Qualquer possibilidade de negociação política fica descartada quando o absurdo ou o vazio ideológico responde pelo lado oculto do terror.
Tais ações partiriam a princípio de uma suposta ideologia do fundamentalismo religioso, que se dissolve contudo ao desrespeitar seu próprio povo ? entre as vítimas do atentado, havia muçulmanos que viviam os subúrbios de Madri. Não existe ideologia em “vosotros queréis la vida y nosotros queremos la muerte”, ouvida na fita da Al Qaeda, traduzida pela polícia. A frase revela sem dúvida o abandono imediato do racional, sobrando apenas um absurdo inflexível da destruição pela destruição.
O apoio espanhol à Guerra do Iraque talvez serviria como pretexto, mas a cronologia dos fatos lembra que o 11 de setembro ocorreu antes mesmo das investidas ao Afeganistão e ao Iraque. Mesmo a França, que repudiou a guerra, já teme atentados em breve, por ter proibido os véus muçulmanos em escolas públicas. Ou seja, não importa a querela, qualquer motivo converte-se potencialmente em perigo de “retaliação” dos fundamentalistas.
Nessa busca por razões inexistentes, são vítimas também os muçulmanos, atacados pelo preconceito. Sob a Lei de Prevenção do Terrorismo, invadem-se casas de famílias muçulmanas, tratadas com brutalidade, todas suspeitas de colaborar com o terrorismo simplesmente por sua orientação religiosa (ação parecida com aquela que parte da polícia destes trópicos anda fazendo em relação a moradores de favelas). A estatística indica que 99,5% das batidas resultaram em nada além de aumento da intolerância. O meio por cento vem de detenções, sem evidências concretas.
Curiosamente, durante o período da Grande Terreur, da Revolução Francesa, adotava-se procedimento semelhante. A Lei dos Suspeitos, aprovada pelo Comité de Robespierre, invadia e mandava prender sem motivo nem provas. O Terror de Robespierre ficou assim conhecido justamente pela ausência de parâmetros racionais em seus processos judiciais (embora, ao contrário do fanatismo, estivesse ancorado em uma forte ideologia, a de democracia burguesa). Hoje, convive-se com a iminência de um Terror que nem mesmo reconhece a política.
Daí se vê que a irracionalidade estúpida da Al Qaeda é respondida com a irracionalidade de uma Lei de Prevenção do Terrorismo e com a política externa inconseqüente (e desesperada), da “guerra do mundo livre contra o terror”, de Bush e Rumsfeld. No Iraque, nenhum envolvimento com as barbas de Bin Laden foi detectado (primeiro motivo até então justificado para a guerra), restando somente a hipótese de interesse econômico pela região. A falta de lógica que caracteriza o terrorismo infiltra-se no jogo político mundial e contamina suas decisões.
O fato é que o Ocidente ainda não sabe lidar com tamanha aberração. É de se perguntar se nossa atual racionalidade econômica, marcada por um individualismo cada vez mais excludente, não está também na gênese da insanidade fundamentalista. Talvez a justificativa para os escombros injustificáveis de Madri esteja na própria escolha ocidental, que tantas desgraças e conquistas rendeu à humanidade.
Titulo: Descaminhos da racionalidade
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Artigo
Data de publicação: 20 de março de 2004
Resumo: A supressão política nos trens de Madri
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Desenvolvimento contundente, Socha, destes absurdos globais inenarráveis. Como até pelo “jogo político mundial” passam estes “descaminhos”, lembrei dum célebre sermão do Pe. Vieira, que diz que “tempos houve em que os Demônios falavam, e o mundo os ouvia; mas depois que ouviu os Políticos ainda é pior mundo”. E depois dos políticos - sabe-se lá quem tem poder entre os homens -, além de pior, passou a ilógico e incompreensível.