filmes para pensar

Artigo por Alexandre Piccolo
20 de abril de 2003

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Cartaz do filme
About Schmidt

Os últimos dois filmes a que assisti me surpreenderam. Normalmente a surpresa e a quebra da expectativa são a chave do xiste, mas desta vez não me vieram à cara o riso e o gargalhar, mas sim um simples refletir (e eu novamente com cara de bobo…). Enfim, vê-los me fez vagar a esmo fora do cinema num longo divagar…

About Schmidt é mais uma grande atuação de Jack Nicholson, mas não é só isso. Kathie Bates também não fica atrás - está mais do que a vontade em seu papel. Atores e atuações à parte, o filme não se mostrou a comédia aparentemente banal do trailer ou das resenhas de jornal. Sequer se mostrou uma comédia, no stricto sensu do gênero. O roteiro surpreende, talvez pela furtividade e banalidade com que trata o dia-a-dia, por nos chocar dentro de um ambiente familiar cotidiano que revela a incapacidade deste protagonista aposentado fazer algo de válido e feliz em sua vida. A angústia desta vida sem significado, metodicamente calculada entre casa e trabalho, cresce de modo tão assustador que Schmidt encontra, no auxílio a um garoto da Tanzânia (Ndugu), a válvula de escape de seu vazio existencial. E uma simples demonstração de amor alheio - uma carta - detona um choro emocionante de Jack Nicholson. Há falas e pensamentos surpreendentes soltos ao acaso durante todo o filme, bem como instantes de pura auto-análise, ambientados numa aparentemente leve reflexão pessoal, como a subida ao “céu” de uma exposição numa escada rolante. E ainda há cenas engraçadas, para não execrar os bons momentos de riso: o urinar por todo o banheiro, o desconforto do colchão d’água, o esperar entorpecido do pai da noiva durante o ensaio das núpcias na igreja, simplesmente chapado (e ilário), dentre outras. Mas não é esta a tônica do filme que permance quando saímos do cinema, um questionamento maior nos acompanha. E vai muito além dos risos.

The Pianist é uma obra-prima na filmografia de Roman Polanski, ademais prêmios e condecorações. Mais um relato verídico sobre o massacre judeu na II Guerra? Sim, mas (e novamente) não apenas isso. A autobiografia de Wladyslaw Szpilman (interpretado por Adrien Brody) é um retrato único de audaciosa sobrevivência de um jovem músico preso com seus familiares e outros milhares de judeus-poloneses na Varsóvia invadida pelos nazistas - ainda que já conheçamos esta História.

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Cartaz do filme
The Pianist

Enquanto existir amor ao próximo, sempre será chocante a visão do homicício a sangue frio, cena costumeiramente explorada nesta espécie de filme-documentário. E este não é o primeiro, nem será o último do gênro a revelar torpezas bélicas, a mostrar (ou não) a crueza da própria polícia judia aliciada à Gestapo. Diversas histórias da Grande Guerra já foram às telas, sobre narrativas e personalidades também diversas. No entanto Polanki não faz mais do mesmo. Trouxe à sétima arte um relato individual e silencioso de um músico - um artista polonês frágil e forte o suficiente para sobreviver ao holocausto com surpreendente viço, humanismo e sensibilidade - dos primeiros dias das invasões ouvidas em família pelo rádio ao fim do conflito anunciado pelos megafones russos. Isolamento, fome e sede, claustro, loucura e silêncio são o acompanhamento de uma longa trilha de sobrevivência, admirável no sentido estético da grande arte - repugnante no âmbito minimamente humano. Esta divisão tênue mas sensível é ponto alto na obra, grandiosa em seus 145 minutos, com o acompanhamento certo e preciso de Chopin. Impossível a indiferença no caminhar de cabeça baixa após o filme.

Enfim, no mínimo dois bons motivos para um longo pensar…


Titulo: filmes para pensar

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Artigo

Data de publicação: 20 de abril de 2003

Resumo:

Filmes destes dias que me fizeram refletir…

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3 Comentários

  1. PH disse:

    Oi Alex. Comentário tardio: sua análise sobre o About Schimidt é precisa e clara. Coloca a devida dimensão do filme, com seu tom melancólico e suas conclusões realistas…

  2. Marilda Piccolo disse:

    Oi Alê, me deu vontade de assistir aos 2. Vc é um bom crítico, criterioso, expõe detalhes sem nos aborrecer. Tente um free lancer de resenhista, quem sabe…Bjs,Tia Marilda

  3. Mário de Souza Neto disse:

    Assisti O Pianista e estou contigo. Uma angústia forte me acompanhou pela fuga do pianista. Um silêncio, um desespero. E quando ele toca no final, quebrando o silêncio, o escuro, é impossível conter a emoção. Sobre Schimidt, não assisti mas está anotadíssimo depois dos comentários! Valeu!

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