Artigo por Paulo Henrique
15 de julho de 2003

“Como são imaturas essas mulheres. Um dia desses, eu estava na banheira, aí a minha mulher chegou e afundou todos os meus barquinhos”.
“Quando eu era criança, meu pai descobriu que eu era masoquista. Aí ele passou a me bater todos os dias para ver se eu parava com aquilo”.
Woody Allen
Nas duas semanas anteriores, postei aqui na aPatada estas duas frases acima, do Woody Allen. Aí, comecei a pesquisar um pouco mais sobre esta faceta frasista do diretor-escritor-paranóico mais famoso de Nova Iorque e me deparei com um tesouro imenso.
Sobre filmes e livros do Woody Allen, eu já conhecia uma boa parte, desde “Take the money and run” - sua estréia como diretor -, até os mais recente como “Escopião de Jade” e “Celebridades”, passando por “Manhattan”, “Hanna e sua irmãs”, ”Zelig”, enfim, filmes que todos nós conhecemos. Na literatura, Allen também dá seus pitacos, com livros como “Que loucura” e “Sem plumas”, só para citar alguns.
Agora, sobre frases, eu pensei que estas fossem tiradas de entrevistas ou trechos de seus filmes. Mas não. Allen também é profissional neste segmento. Aos 17 anos ele ficou conhecido por enviar frases engraçadas para as redações de jornais. Quando o colunista Earl Wilson, do New York Post, começou a publicá-las, o nosso frasista chegou a escrever 50 frases por dia, com um salário de U$ 20 por semana.
Na época, uma fortuna para os seus padrões modestos, exageradamente caricaturizado em uma célebre frase sobre seus pais: “Como não tinham dinheiro para comprar um cão, me levaram a uma loja de animais e compraram uma pulga”.
De família judaica, Allen sempre os acusava de maus tratos, seja em frases sobre masoquismo ou frases sobre sua infância. “Certo dia, me atrasei ao voltar da escola e os meus pais julgaram que eu tinha sido seqüestrado. Entraram imediatamente em ação: alugaram o meu quarto”.
É claro que muitas afirmações eram piadas, mas estas frases transpareciam uma certa aspereza em seu ambiente familiar: “Estão vendo este relógio? Foi o meu avô que me vendeu no seu leito de morte”. Talvez este tipo de tratamento - visto também nos relacionamentos entre pais e filhos em seus filmes - tenha sido determinante para seu afastamento das tradições judaicas, mote para mais piadas ainda.
Estas experiências em sua infância também colaboraram para um Woddy Allen inseguro e paranóico que se revela em sua obra. Segundo ele, seus problemas psicológicos vêm desde a juventude, quando fazia “terapia de grupo porque não podia pagar uma análise individual. Cheguei a ser capitão da equipe de volei dos Paranóicos Latentes. Todos nós, os neuróticos, tirávamos o domingo para a prática de algum esporte. Era sempre os Roedores de Unha contra os Mijões na Cama”.
Ainda na juventude, Allen dá dicas sobre sua popularidade com as garotas, conforme ele cita na frase “eu era muito jovem para ter um carro, então transava com as moças no banco de trás de minha bicicleta”
A propósito, Allen sempre publicou sua insegurança em quase todos os aspectos da vida. A questão sexual é uma das áreas mais bem exploradas: “A noite passada descobri um novo anticoncepcional oral. Pedi a uma garota que fosse para cama e ela disse não”.
Também é dele a célebre frase “não despreze a masturbação - é fazer sexo com a pessoa que você mais ama”. E, tirando as declarações de Mia Farrow e seus escandâlos sexuais, suas próprias afirmações sutilmente denunciam esquisitices: “A diferença entre sexo e morte é que com a morte você pode fazê-lo sozinho e ninguém irá rir de você”. Com relações profundas como estas não é atoa que ele afirmou: “Meu cérebro é meu segundo orgão favorito”.
O racionalismo de Woddy Allen dá a pitada exata de rabugice, que o torna mais engraçado ainda. Resmungos como “não apenas não existe Deus, mas tente só encontrar um encanador num domingo” ou “só há um tipo de amor que dura: o não correspondido” mostram seu ceticismo em relação às grandes e as pequenas coisas da vida, tornando-o não pessimista, mas um ranzinza que enxerga mediocridade em todas as coisas, até nele mesmo: “sou menos medíocre no clarinete do que como artista. Eu não sou sequer um ator”.
No entanto, até este ceticismo tem seus lapsos, oriundo de sua tradição religiosa, da qual ele sempre tenta escapar. Em vão: “Detestaria concluir que sem Deus a vida não faz sentido, dar um tiro nos miolos e ler no jornal do dia seguinte que Ele foi encontrado”.
Este seu perfil ansioso que o leva a produzir quase um filme por ano de forma quase habitual, como se fossem apenas mais uma dia de trabalho, mandando às favas Hollywood, prêmios e homenagens.
Entre suas desfeitas, ele já deixou de comparecer na cerimônia do Oscar para ficar tocando clarinete, com argumentos surpreendentes: “A Academia ligou para a minha casa umas quatro semanas atrás e, ao se identificarem, a primeira coisa que me veio à cabeça foi ‘eles querem que eu devolva os Oscars que já ganhei’”.
Mas não adianta. Tudo isto só aumenta o mito em torno do diretor, mesmo ele insistindo que os “dois maiores mitos sobre mim são: que sou um intelectual apenas porque uso óculos, e que sou um artista porque meus filmes rendem dinheiro”.
Na verdade, todas estas brilhantes afìrmações dão respaldo à sua extensa obra, que refletem os altos e baixos de sua vida, tanto em profundidade e qualidade, apesar do artista não acreditar na imortalidade através de seu legado: “Não quero atingir a imortalidade através de meu trabalho. Quero atingi-la não morrendo”.
A morte, aliás, é um momento que o Allen não deixa escapar: “não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer.”
De qualquer forma, ele ainda tem muito para viver, mesmo que para ele, o mais importante seja o fazer: “Você pode chegar a viver 100 anos, basta desistir de todas as coisas que fazem você querer viver 100 anos”.
Titulo: Frases de Nova Iorque
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Artigo
Data de publicação: 15 de julho de 2003
Resumo: Senhoras e senhores, com a palavra: Woody Allen!
Sou apaixonada por Woody Allen e seu texto me fez conhecer e rir ainda mais do “artista”. Valeu! Tem ainda um livro lançada pela crítica de cinema Neusa Barbosa - sobre a vida e obra dele - que vale a pena conhecer. Recomendo!
PH, muito bem montado! O artigo ficou tão bem amarrado com as frases que ao final dá margem a duas interpretações: (1) é um artigo bem escrito sobre Woody Allen onde as frases ilustram a sua personalidade ou (2) é um artigo sobre as “frases de Allen” onde a descrição de sua personalidade contextualiza a genialidade das frases… Ou será eu estou viajando??
Parabéns!
Que belo documentário sobre Allen! Uma leitura de descobertas. Parabéns.
Bem, PH, sou suspeito de falar algo sobre Allen pois o adoro realmente, mas quanto ao texto, achei excelente e muito agradável de ler. As frases dele, misturadas aos seus comentários, me renderam umas boas gargalhadas!
Maravilha de artigo. Excelente.
Delícia de artigo sobre o Woody Allen, PH. Ele é de fato uma figura… Deu vontade de assistir os filmes deles que eu ainda não assisti. Parabéns.
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Muito interessante para quem conhce pouco do artista.