Artigo por Alexandre Piccolo
10 de agosto de 2004
No Caderno Mais! da Folha de São Paulo de 8 de agosto de 2004, domingo último, Jean-Pierre Vernant - “um dos principais helenistas vivos”, nas palavras do jornal - ao falar sobre cultura (ou o modo como os significados relacionados à palavra cultura chegaram até nós; todos os grifos são meus), resumiu que
“ainda pensamos um pouco como os gregos. O que alguém faz para tornar-se filósofo? Lê os gregos, depois lê Descartes [1596-1650] e Espinosa [1632-77], mas existe uma continuidade. Lemos os gregos, mas não lemos os filósofos chineses nem os da Índia. Nos campos estéticos, isso ainda é verdade. A pintura do Renascimento teve origem nos modelos gregos. O teatro e a tragédia são a mesma coisa. Excetuando esse legado, porém, nos distanciamos dos gregos. Eu diria que a Grécia foi redescoberta. Quando eu era jovem, todos os que não eram burros demais estudavam grego na escola. Hoje em dia acontece o contrário. Aqueles aos quais designamos como a elite (os magistrados, advogados, médicos…) tinham os dois pés plantados na cultura grega. Hoje, as elites zombam dela. No entanto não é por acaso que, quando Freud [1856-1939] criou uma nova disciplina, foi buscar Édipo e Antígona. Quando os astrônomos descobrem uma constelação, é a mesma coisa: dão a ela um nome grego. Quando alguém acaba de criar um novo perfume, me pergunta se posso lhe redigir uma lista de personagens gregos que ficariam bem sobre o rótulo. Quer dizer então que, se dão aos frascos de perfume os nomes de “Héracles”, “Hércules” ou “Perseu”, isso mexe com o quê? Com nada de preciso, mas com um sentimento ambíguo, de algo ao mesmo tempo familiar e distante. É verdade que, para alguém que não é “religioso” -ou seja, alguém que pensa que o mundo é o que é e que, se existe algo além do mundo, esse algo está dentro deste mundo aqui, que é neste mundo mesmo que existe essa experiência que ultrapassa o cotidiano (é o meu caso)- a Grécia é importante. É muito útil. Pois a Grécia é uma civilização essencialmente construída sobre a base do mundo como ele é, sobre a aceitação e a transmutação desse mundo em valores de beleza, inteligibilidade, de afeto, de amor, de riso… E, por conseguinte -já que é preciso que as coisas tenham sentido, algo de que não é fácil lhes dotar-, existe a arte. Não é uma sociedade para a qual a vida só faz sentido em relação com outra vida, com o além. De maneira nenhuma. É a vida, com seu lado trágico. Façamos o que fizermos, a morte é radicalmente ininteligível. Foi o que compreenderam os gregos quando criaram a cabeça de Medusa, que transforma quem a olha em pedra -ou seja, o contrário do que é humano. Eles explicam que essa Górgona, que não pode ser descrita, pintada ou expressa por palavras, é o incompreensível, o absurdo total. Isso dito, eles a expõem por toda parte e não param de falar dela. É o paradoxo da Górgona: fazer ver aquilo que não pode ser visto, dizer o que não pode ser dito, figurar o que não é figurável. É uma das partes de nossa condição humana.”
Cito o trecho acima por dois motivos. Um, menos nobre: poupa-nos (a você, leitor, e a mim) os costumeiros deslizes destes rabiscos semanais - eu de produzi-los e você de aturá-los. O segundo motivo, e que talvez encubra o primeiro: resgata (e divulga) uma reflexão tão breve, elegante e acessível sobre esta tão falada grécia antiga. Não é por menos: as Olimpíadas começam nesta sexta-feira.
Há dois anos, gastei um semestre lendo quatro tragédias gregas e alguns estudos relacionados: deleite máximo. Pavio e estopim foram as primorosas aulas do professor Berriel, fica desde já conferido o crédito. E, ainda que tenha sido parco ou pequeno este adentrar no antigo universo grego, a fascinação e o deslumbramento foram tão grandes que ainda hoje me maravilho ao retomar tais textos e lembranças - sempre com o intuito de paulatina e lentamente aprimorá-los e aprofundá-los. Dentre estes, havia um livro memorável de Jean-Pierre Vernant (e foi assim que pude ligar as pontas ao deparar-me com seu texto traduzido no jornal dominical), em parceria com outro helenista, Pierre Vidal-Naquet: Mito e Tragédia na Grécia Antiga ? com o devido destaque para o formidável ensaio “Édipo sem complexo”.
Um dos grifos que fiz no excerto acima diz respeito ao desprezo, desafeição, descaso, desconsideração, desdém, desinteresse, desrespeito e desvalorização contemporâneos em relação às culturas antigas, não apenas à grega. Mas em especial à grega: o próprio alfabeto parece ter perdido as raízes ante ao turbilhão da informação. Na era da internet comercial, apenas os burros estudam grego na escola - segundo uma possível leitura daquele “ao contrário” do texto de Vernant. Afinal, onde tempo é dinheiro, para que perdê-los com velharias há tempos desprezadas? Não faz muitos dias, uma reportagem na tv misturava às estatísticas e a outras cifras comerciais, indiferente à natureza da informação que veiculava, a pronúncia errada do nome niké, a deusa (grega) da vitória, cuja imagem está gravada nas medalhas olímpicas de Atenas 2004. A badalada marca de tênis, camisetas e outros artigos esportivos, não por acaso, tem o nome que tem, ainda que alguns publicitários ignorem este desprezível detalhe, cada dia menos importante.
Bem, melhor do que destilar melancolia e indignação é passar a palavra ao estudioso que iniciou esta prosa, a qual certamente é das melhores - e cujo assunto não merece ser esquecido ou desprezado. Enfim, sobre a resistência, ele diz:
“Para os gregos, não existe questão que não possa ser submetida ao exame intelectual. Essa é nossa herança.
Existe um livro do poeta Yves Bonnefoy [poeta francês, nascido em 1923] intitulado “L’Arrière-Monde” [O Mundo de Trás] que mostra que, em uma paisagem, existe algo atrás dela que faz parte dela, mas não está ali. A mesma coisa acontece na vida. Os gregos o diziam. Aquiles disse isso a Agamênon: “Você é um covarde porque não está disposto a entregar sua alma em cada momento”. Retomo o ideal de Aquiles. Existem coisas e valores que contam no mundo, mas que são valores mundanos. Isso significa que os temos, que podemos perdê-los, negociá-los, reconquistá-los. São os valores que circulam. A única coisa que não podemos nem trocar nem recuperar é nossa própria vida. É isso que Aquiles diz a Agamênon. E, como ela é o que existe de mais precioso, existe nela algo que transcende. Não podemos aviltá-la pela conciliação. Existem momentos em que não existe escolha, em que não existe conciliação possível, não existem meias medidas.”
Titulo: Hélade: o quê?
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Artigo
Data de publicação: 10 de agosto de 2004
Resumo: Para a “velha” Grécia não cair no esquecimento.
Bom mesmo, Alexandre. Primeiro pelo resgate de trechos elegantes e acessíveis, como vc mesmo observou, de um assunto que hoje está distante. Bom também por suas observações, seja sobre este distanciamento indevido do pensamento antigo (no caso, o Grego) e da perda de referências com o advento dos valores (ou não valores?) de deuses pós-modernos, como uma tal de nike, deusa do consumismo (e não da vitória, como a grega niké, que hoje quase ninguém mais lembra)… Ótimo conteúdo, ótimas idéias!
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Boa Lixandre! Em tempos de Olimpíadas, nad amais próprio.Abraço