Ideologia não traz comida pra casa

Artigo por Márcio Sampa
3 de março de 2003

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“Os Inocentes”. Primeira
punk band brasileira.

Quando Rodolfo dos "Raimundos" resolveu pular fora da banda, muita gente apareceu nas rádios de rock paulistanas pra falar com um certo ar de ironia indisfarçável: "será que é por que ele virou crente, gente?". Ninguém prestou atenção às respostas do cara. Ele mesmo disse várias vezes que estava cansado de fazer esquema de gravadora, cansado de gravar o que não estava a fim de cantar.

Pra quem não sabe, o primeiro disco dos Raimundos, de meados dos 90, é um manifesto punk calango. Totalmente descolado e independente, ao melhor estilo do movimento. Nada de jabá, nada da influência maligna dos mesmos críticos irônicos.

Dá tristeza e nervoso ver essa molecada mauricinha dizer que vai pra balada, dançar bate estaca, ou forró, ou pagode. O problema nem são os ritmos, mas a alienação.

Nos meus dezoito, por mais comportado que a gente fosse, o negócio era protestar contra o sistema. É claro, o mundo era outro, o Brasil era outro, mas era comum trombar com o pessoal de atitude. Até numa inocente viagem a Paranapiacaba cruzávamos os punks dormindo nas estações de trem do ABC, após uma noitada de brigas, bebedeiras e, claro, muita sonzeira.

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“Garotos Podres”. Banda
marcou época no movimento punk.

O movimento Punk era autêntico, tanto lá como cá. Meu amigo PH, que leu "Mate-me, por favor - a história do Punk", sabe do que falo. Quem viu "Sid and Nancy" ou "O Lixo e a Fúria", sabe do que falo.

Segundo matéria publicada na revista Trip de outubro de 2002, Chico Buarque teria dito: "se punk é lixo, miséria e violência, então não precisamos importá-lo, pois já somos a vanguarda do punk no mundo inteiro".

O movimento punk ainda existe, punk's not dead, thank God. Ainda resiste lá no Bom Retiro paulistano e em algumas outras paragens, lutando contra esta indústria cultural que joga todo mundo na vala dos indigentes.

Mas a luta é inglória. A preocupação hoje não é mais resistir ao sitema, mas sim, o que tenho que fazer pra ser absorvido por ele. Ideologia não traz comida pra casa…


Titulo: Ideologia não traz comida pra casa

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Artigo

Data de publicação: 3 de março de 2003

Resumo:

O movimento punk e sua luta contra a morte.

1 Comentário

  1. leãdro wojak disse:

    viver no brasil sempre foi panque. além disso, boa parte dos punx brasileiros vieram mesmo da classe operária, ao contrário de seus colegas britânicos. belo texto, rapaz.

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Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

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