Jornalistas ou Ovelhas?

Artigo por Márcio Sampa
21 de janeiro de 2003

Há alguns dias, uma juíza do Tribunal Federal Regional de São Paulo* cassou a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. A meretíssima justificou em sua senteça que estava garantindo o direito à liberdade de expressão, previsto na Constituição. Sofisma, puro sofisma.

Todos sabemos que nos jornais, grandes e pequenos, pululam notas, artigos e colunas inteiras assinadas por não jornalistas, que, desde que possuam os canais adequados, sempre terão um espaço na mídia. Mas e o profissional do "chão de fábrica", aquele que vai atrás da notícia, que vive da notícia e não tem nela um hobby, mas uma profissão?

Os donos dos grandes veículos argumentam que podem treinar seus profissionais em seus "cursos especiais de jornalismo" e, de quebra, moldá-los à sua visão de mundo e é aí que reside o problema.

A faculdade de jornalismo, por pior que seja, é um espaço democrático de trocas. Ali o estudante conhece colegas e professores mais à direita ou à esquerda. Convive com os filhos da "boa" classe média e com colegas que não sabem se vão ter dinheiro para pagar a próxima mensalidade ou para tomar o ônibus de amanhã (caso seja uma universidade pública). Some-se a isso boas leituras e após quatro anos, observando e aprendendo, se ele ou ela forem safos sairão dali com uma visão de mundo muito mais ampla do que quando entraram.

Para me socorrer neste argumento darei um exemplo próprio. No primeiro ano de faculdade li "A Ilha" de Fernando Morais e lembro-me muito bem de um diálogo travado entre o jornalista brasileiro e um colega cubano: "E a liberdade de imprensa aqui em Cuba?", perguntou Fernando, ao que contestou o cubano, "liberdade de imprensa é um eufemismo burguês, os jornalistas escrevem o que os patrões dos jornais querem". Este trecho do livro marcaria profundamente minha visão sobre a profissão.

É por esta e outras razões que os jornalistas precisam se constituir em uma categoria profissional minimamente articulada, como são os médicos, advogados e tantos outros. Infelizmente, nós jornalistas e estudantes ficamos olhando, esperando para ver o que os "doutores" do Supremo resolverão sobre o nosso diploma, se vamos jogá-lo no lixo ou não. Gostamos de invejar as experiências do primeiro mundo e citar o Liberatión (jornal feito e administrado por jornalistas) como um lindo exemplo, mas e daí? Onde está a nossa consciência de classe? Quando vamos entender que estes movimentos suspeitos não são a favor da liberdade de expressão, mas pelo contrário são a favor do interesse dos poderosos. "Informação é poder", disse Francis Bacon, e quem a controla o detém.

A imprensa só será o quarto poder qundo os jornalistas deixarem de se comportar como ovelhas sedentas pelas migalhas jogadas ao vento (salários miseráveis) e se comportarem como pessoas com um senso minimamente crítico, desenvolvido pelas experiências da profissão, da faculdade e do sangue de jornalista, que nem todos os mortais trazem nas veias.

Para encerrar este artigo/manifesto reproduzo Alberto Dines, um dos papas de nossa profissão:

**Célebre é a defesa do diploma em jornalismo na obra "O papel do jornal", feita por Alberto Dines, cuja sistematização, expomos a seguir:

"1-) O licenciamento de jornalistas não é obstáculo à liberdade de informação.

2-) Talento sem compromisso gera aberrações.

3-) O jornalismo não é uma ciência mas uma técnica de comunicação combinada com uma filosofia e um comportamento social.

4-) O jornalista diplomado luta pela profissão, o não-diplomado pelo emprego.

5-) A atividade jornalística é necessariamente multidisciplinar.

6-) O não-diplomado aceitará qualquer salário e qualquer contrato de trabalho. Já o diplomado tem compromissos com a categoria.

7-) O diploma não é corporativo.

8-) A escola de jornalismo é lamentável onde a imprensa é lamentável.

9-) A exigência do diploma não impede nem limita a contratação de não-jornalistas.

10-) Assim como é ingênuo pretender reinventar o jornalismo a cada geração, assim também é um despropósito reinventar o liberalismo do Século XVIII às vésperas do Século XXI."

A dispensa do diploma em jornalismo também é um passo para o enfraquecimento das outras profissões, o que favorece o patronato, por causa do desmantelamento dos direitos e garantias dos trabalhadores. Esta decisão judicial implica em prejuízos à ética profissional e dá poderes quase absolutos aos empresários de comunicação, cuja imposição se fará valer na contratação de apadrinhados políticos ou ideológicos, provocando o rebaixamento profissional e salarial. Contratar-se-ão, desta forma, pessoas que nada ou pouco têm a ver com a formação específica em Jornalismo.

* Não mencionarei o nome em sinal de protesto.

**Extraído do site www.sjsp.org.br


Titulo: Jornalistas ou Ovelhas?

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Artigo

Data de publicação: 21 de janeiro de 2003

Resumo:

Comentário crítico a respeito da cassação da obrigatoriedade de diploma para jornalistas.

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Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

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