Artigo por Paulo Henrique
19 de outubro de 2003

Talvez seja estranho um protestante escrever sobre o papa João Paulo II. Mas antes de qualquer denominação religiosa, este texto vai abordar a história - sobretudo a juventude - de um dos principais homens do século XX. Não vamos discutir aqui as diferenças dogmáticas ou doutrinárias entre as denominações. Vamos falar de um homem.
Karol Wojtyla nasceu em um contexto turbulento, em uma Polônia entre guerras, no dia 18 de Maio de 1920, em Wadowice. O país estava, como toda a região, vivendo uma situação instável, sob ameaças de invasões e crescente temor de guerras. Grosseiramente comparando, o clima era um pouco pior como hoje em dia. As amaeças de guerras, instabilidade político-financeira, as transições de séculos e de costumes eram mais incisivas ainda.
Sem saber do que viria pela frente, Wojtyla foi criado em um lar com fundamentos religiosos católico. Seu pai era um militar do exército austro-húngaro e sua mãe, uma jovem de origem lituana. Ele também tinha um irmão adolescente, chamado Edmund. Logo no início de sua vida, já enfrentou dificuldades épicas: com 9 anos, Wojtyla perde sua mãe.
O órfão, já na juventude, revela-se um cara sensível e começa a interessar pelas artes, sobretudo pela literatura polonesa, pendendo inclusive para a Lingüística e Filologia (parênteses: estamos no início da década de 30. Nesta época já despontava um movimento mundial de estudo das línguas, iniciado por Ferdinand Saussure e explorado na literatura por nomes como James Joyce e, depois, Guimarães Rosa). Um pouco mais tarde - já na segunda guerra - os alemães invadiram a Polônia e tentaram destruir sua cultura, fechando todas universidades do país. Junto com outros estudantes, Wojtyla organiza uma universidade clandestina, onde se estudava filosofia, idiomas e literatura. O rapaz também se interessava por teatro - chegou a estudar em uma escola de teatro, antes da invasão nazista - pelo esporte (gostava de futebol, era goleiro) e até pelo exército.
Mas para Karol Wojtyla os tempos eram conturbados, tanto no âmbito global, quanto na sua trajetória pessoal. Para evitar sua deportação da Polônia, o jovem teve que trabalhar em uma pedreira e em uma fábrica química. Como se não bastasse, aos 20 anos de idade ele já tinha perdido, seu irmão mais velho - morto por uma epidemia no ano de 1932 - e seu pai, que faleceu em 41, vítima de um ataque cardíaco, em um dos mais forte inverno da Polônia. Seu núcleo familiar havia sido totalmente destituído e Wojtyla, sem meias palavras, estava só. Amigo das letras, Wojtyla expressou sua dor através uma poesia, que nos dá uma idéia do seu sofrimento - e de suas dúvidas:
Sei que sou pequeno
Mas há outros ainda menores que eu
Ele me escolheu, Ele me lança nas cinzas
Ele pode fazer isso - mas por quê?
Por que fazer isso comigo?
Ele é o provedor
Sobre este sofrimento, ele também declarou mais tarde para um escritor: "Com 20 anos, eu já havia perdido todas as pessoas que amava e, mesmo aquelas que eu poderia ter amado, como minha irmã Olga, que, dizem, morreu 6 anos antes de eu nascer". Conforme escreveu o filósofo cristão C.S. Lewis, "a dor é o megafone de Deus". E o megafone funcionou: em 1942 ele ingressa em um seminário clandestino para, mais tarde, estudar na Faculdade de Teologia da Universidade Jaguelloniana.

Daí para frente, sua trajetória na igreja católica foi ascendente: aos 26 anos ele foi ordenado sacerdote e pouco tempo depois obteve licenciatura em Teologia, na Universidade Pontifícia de Roma Angelicum. Mais adiante se doutorou em filosofia. Foi professor em universidades da Polônia e entrou do episcopado polonês como membro mais jovem de sua história, aos 38 anos.
Uma de suas linhas de trabalho foi a tentativa de formação de preceitos religiosos entre os operários poloneses e a construção de novos templos - iniciativas combativas por foices e martelos durante o regime comunista. Sua formação acadêmica também o levava a publicação de artigos católicos e a produção de conhecimento por parte da população polonesa, sobretudo os jovens. Em tempo: ele próprio públicou alguns livros, sob o pseudônimo de Stanislaw Andrzej Gruda. A sua estréia na literatura foi o livro Amor e Responsabilidade, publicado em 1960, junto com o drama A Loja do Ourives, sobre o casamento.
A partir de projetos como estes, adentrou-se nos meandros do Vaticano, se tornou Arcebispo e logo Cardeal. Aos 58 anos, Karol Wojtyla participou da eleição do Papa João Paulo I, que faleceu 33 dias após sua nomeação. Após outro conclave, o cardeal polonês foi eleito o primeiro papa não-italiano em 400 anos (desde o holandês Adrien VI, que morreu em 1523). Foi ungido como Sumo Pontífice no dia 22 de Outubro de 1978, assumindo o nome de João Paulo II, como homenagem ao seu antecessor.
Depois disto, a história é recente. Sobreviveu a um atentado em 1981 (veja depoimento sobre o episódio aqui) e consegui se firmar como um papa carismático, por ser relativamente jovem, de porte atlético, com gestos e passos largos. Mesmo com diretrizes conservadoras - em tempo de AIDS, a igreja não libera o uso da camisinha nem para os casados - João Paulo II conseguiu promover alguns avanços de costumes, aceitando, várias vezes com muito bom humor, mudanças nas artes e na tecnologia.
Um dos pontos "rock´n roll" no Vaticano é o show que o cristão Bob Dylan fez para o Papa e este respondeu que o Vento, citado no clássico "Blowing in the Wind", é o sopro do Espírito Santo. Outro marco - agora sobre os avanço teçnológicos - foi o primeiro e-mail que o Papa mandou para centenas dioceses na Oceania enviando, pela primeira vez, um documento oficial da igreja católica via internet. Santo spam.

Este Papa também teve forte influência na queda do comunismo - talvez sua experiência pessoal tenha sido fundamental para esta missão, minando o regime a partir de abordagens antropológicas e de cunho social. É interessante também lembrar a própria atitude da igreja católica de pedir perdão - atrasadíssima - por causa da inquisição e do holocausto na segunda guerra mundial. Antes tarde do que nunca.
João Paulo II também será lembrado por tentar conciliar diferentes povos, raças e religiões, inclusive aproximando a igreja católica de outras dotrinas: católicos ortodoxos, judeus (foi o primeiro papa a visitar uma sinagoga, em 1986), anglicanos, protestantes e até a mulçumanos (foi também primeiro papa a visitar a pisar em uma mesquista, em 2001, em Damasco). Ah, sem contar os socialistas… quem não se recorda da visita do papa à Cuba e seu encontro com Fidel Castro, em 1998?
Hoje João Paulo II agoniza em público, sofrendo do mal de Parkinson e dos sintomas que a velhice reserva para um homem extremamente vivido. Com mais de 100 viagens internacionais, ele não arreda o pé de seu posto. Deve dar andamento aos seus trabalhos até o final da vida. Este tipo de obstinação é coerente com a postura de um homem que teve uma história de vida forte, assumindo quase 2000 anos de história da igreja católica, com todos seus defeitos e virtudes. O papa traduz para o mundo a força e a fraqueza da humanidade, diante da Graça de Deus que redige a história através de fatos imprecisos, porém belos e muitas vezes corajosos, que convergem - sem julgamentos - todo os erros e acertos dos homens, em um Único e Salvador Caminho.
"E disse Jesus: eu sou o caminho a verdade e a vida.
Ninguém chega ao Pai senão por mim".
João 14.6
Titulo: Karol Wojtyla
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Artigo
Data de publicação: 19 de outubro de 2003
Resumo: Reflexões sobre um jovem cristão
Meus sinceros agradecimentos, PH.Acho que estava faltando um texto leve e ao mesmo tempo detalhado sobre esse homem que soh é visto por nós “agonizando em público”.Obrigado, e parabéns!
“E disse Jesus: eu sou o caminho a verdade e a vida. Ninguém chega ao Pai senão por mim”. João 14.6 O artigo envolvendo a história do Papa, com certeza já rendeu muitos livros e renderá muito mais ainda depois de sua morte como é de costume acontecer quando alguém famoso morre. Mas o versiculo acima diz realmente o que Deus quer dos seus filhos… Ele quer que seguimos o caminho que é Jesus, para se chegar ao pai não é preciso corda, pontes, avião, ou seja não é preciso alguém interferir… não é preciso conversar com imagens, não é preciso confessar a um padre nossos pecados, é só necessário recolhecer e nos arrepender de nossos pecados e confessar ao único que interessa, Jesus Cristo. A história de Karol Wojtyla é uma história sofrida e ao mesmo tempo cheia de vitórias, mas isto não o poupará do Juízo Final e se não brotar de seu coração o genuino arrependimento, o verdadeiro conhecimento que Deus tudo domina. Ele irá para o inferno. Parece que sou louco, ou fanatico… mas é apenas ler a biblia, “Não terás outros Deus além de mim diz o Senhor”. Ser bom não leva ninguém ao céu.
Belo texto, Pee. Um parêntese: só não vejo o porquê do estranhamento entre doutrinas ressaltado ao princípio, pois o caminho é um só - como você mesmo destaca na citação final. Detalhe à parte, permance, pois, uma bela e importante lição, valor maior do texto.
Ótimo texto, PH. Como bem frisou desde o início, independente de posições religiosas ou crenças em esse ou aquele deus (ou Deus), a história do homem Karol, seus sofrimentos de pequeno, os caminhos pela igreja e suas participações importantes pelo mundo contemporâneo deixam sua marca. Fica também tua posição ao final, tua confissão de fé, que não serve como pretexto para execrá-lo ou santificá-lo. Parabéns.
WE HAVE SEEN REAL GREATNESS
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Paulo Henrique,Este texto me tocou profundamente. Você conseguiu retratar o homem, desvinculado, na medida do possível, da doutrina reliogiosa, mas coerente com o seu (imagino) ideal de vida. E acho que seu texto prima principalmente pelo último parágrafo: você conseguiu colocar em palavras o que todos nós vemos - o homem, misto de força e fraqueza da humanidade, que continua sua já trôpega caminhada, porque crê na graça de Deus.