Love*

Artigo por Márcio Sampa
10 de maio de 2003

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Pôster com imagem de Ian Astbury
em meio a uma miragem meio
fantástica, meio psicodélica.

O business da Cultura de Massa e da Indústria Cultural cria, agiganta e engole ídolos do dia para a noite. Alguns sobrevivem por uma década ou duas. Outros, como a banda britânica The Rolling Stones, teimam por quarenta anos. Raríssimos transformam-se em ícones da civilização da Mídia.

O que sobra de tudo isso? Simples. Quem viu, viu. Rei morto, rei posto, diz o ditado. A igualmente banda britânica The Cult é um destes casos. Depois de acabar três vezes e contar com diversas formações ao longo das últimas duas décadas, o Cult ainda toca, lança discos e faz turnês, mas a força da banda não está no seu pálido presente e sim naquilo que foi e poderia ter sido.

Formada originalmente em 1983, o Cult surgiu no rastro do pós-punk britânico e seu primeiro disco, Dreamtime, tem um forte componente gótico nas letras e sonoridades. Mas o grande diferencial era juntar aquela atitude sonora com um visual e postura no melhor estilo ‘Love and Peace’ da década anterior. Isto se explica pelas diversas influências sofridas pelos integrantes. O cantor Ian Astbury, então com 21 anos, havia morado no Canadá e absorvido muito da cultura indígena, bem mais preservada naquele país do que no vizinho ao sul.

Astbury incorporara toda a mística xamânica e temas como a lua, os lobos, o vento e a chuva seriam recorrentes em seu trabalho. Além disso, era fã confesso de Jim Morrison, outro adorador da cultura indígena da América do Norte. Já Billy Dufy, o guitarrista, havia nascido na industrial Manchester e sofrera pela adolescência toda a influência do pulsante rock britânico dos 60 (principalmente Stones), 70 e início dos 80 (Dufy chegou a tocar com Morrisey, dos Smiths, ainda na adolescência).

O grande momento do Cult viria em 84, com o lançamento mundial do álbum ‘Love’. Sem medo de errar, ‘Love’ está entre os 20 melhores discos de rock de todos os tempos. Tornou-se verdadeiramente um culto pela inovação que trouxe ao cenário musical da época, muito influenciado pelo mundo Dark.

Talvez um dos maiores erros da banda tenha sido se deixar enfeitiçar pelos milhões de dólares prometidos por produtores norte-americanos. Em 87, os integrantes se mudam para os Estados Unidos e começam a se transfigurar. Aquele ar meio indefinido, inrotulável, dá lugar a uma atitude heavy-metal, que se perceberá também na qualidade das músicas. O Cult realmente ganhará muito dinheiro nos States, mas o pensamento que unia o melhor dos dois lados do Atlântico cederá lugar à cobiça dos produtores. Será o início da decadência.

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Capa do álbum ‘Love’

No melhor estilo rock and roll, a história da vida privada da banda está recheada de drogas, bebedeiras, brigas, tentativas de suicídio e tristezas. Billy Dufy e Ian Astbury chegaram a trocar sopapos aos pés do Cristo Redentor, durante uma das três turnês brasileiras. Coisas do convívio.

Hoje, os quarentões contam seus dólares, fazem suas turnês (estiveram há dois anos por aqui) e tocam seus projetos pessoais. Astbury foi convidado pelos integrantes do Doors para gravar um disco e apresentar shows, cantando as músicas de seu ídolo.

A mesma indústria que colocou o Cult nos quatro cantos do planeta tratou de destrui-lo parcialmente. Mas o símbolo maior de sua obra está por aí e se você ainda não ouviu ‘Love’, faça-o! As bases maravilhosas de baixo e guitarra são emolduradas por um vocal docemente agudo e uma batera nervosa, mas muito afinada. É satisfação garantida.

* Este artigo foi escrito ao som da música que dá nome ao álbum.


Titulo: Love*

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Artigo

Data de publicação: 10 de maio de 2003

Resumo:

Uma pequena história, misturada com resenha, sobre a banda The Cult e seu
principal disco.

5 Comentários

  1. Reinaldo Nunes disse:

    Muito boa a história. Tenho dois cds, e este é o que eu mais gosto de ouvir!

  2. Heltir disse:

    Album fundamental.

  3. leãdro wojak disse:

    certamente o melhor play do cult, que roubou uma série de riffs dos sexagenários rolling stones

  4. Alexandre Piccolo disse:

    Curti o texto, fiquei na pilha de ouvir o som!

  5. PH disse:

    Que beleza de artigo. Nao conheço a banda The Cult e nem a música-tema do texto. Mas faço uma previsão: esta semana aPatada vai estar beeeem Rock’n Roll.

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Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

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