Artigo por Bruno Ribeiro
5 de julho de 2004

Algumas pessoas ficam abismadas quando eu digo que não dirijo e nem mesmo gosto de carros. Embora eu tenha carta de motorista (por pressão da família), nunca dirigi um carro depois da prova da auto-escola. Minha decisão é irreversível. Acreditem: é plenamente possível viver e ser feliz sem carros. E não pensem que sou o único. Na redação do jornal em que trabalho, quase metade dos repórteres homens não tem carro ou não dirige. Cogitou-se até ser esta característica um mal da profissão - mas deve ser pura coincidência.
Um dos maiores problemas da nossa sociedade de consumo é a propaganda. Como somos facilmente influenciáveis pela publicidade, compramos a ideologia contida nas propagandas de carro, que associam o veículo à aventura, ao poder e à potência sexual. As mulheres, geralmente tratadas como objetos nestas propagandas, parecem também aceitar como natural esta condição submissa que lhes é imposta e buscam relacionar-se com homens cujo carro denote um alto poder aquisitivo. Conheço pessoas que moram de aluguel em pensões baratas para poderem trocar de carro todo ano. Para mim isto é doença mental.
Sabe aquelas imagens de natureza paradisíaca? O carro reluzente riscando o deserto do Texas ou estacionado no alto do Monte Everest? Esqueça, você nunca vai poder fazer estas coisas com seu carro. Pelo contrário, o dinheiro que você vai gastar para manter o carro em dia não vai mais permitir que você faça uma poupança para viajar com a família. E, se você é rico o bastante para não ter de se preocupar com dinheiro, então não vai querer viajar de carro, não é mesmo?
Sobre o carro criou-se uma série de mitos. Um deles é o de que, tendo um carro, você pode sair com qualquer garota e chegar em qualquer lugar em fração de segundos. Quando se pensa em carro, a idéia de liberdade é imediatamente associada à máquina, esquecendo que sobre ela recairão impostos, taxas de seguro, gasolina, manutenção, pedágios, limpeza e outros imprevistos como roubo de toca-fitas e acidentes de trânsito.
As propagandas vendem a idéia de que basta ter um carro para ter o mundo sob os pés. Errado. Para ter a sensação de liberdade, você tem de ter tempo livre para curtir a vida e ganhar dinheiro fazendo o que gosta. Esta é a chave da felicidade. De que adianta ter um carro se você só irá usá-lo para ir e voltar do seu emprego burocrático, para levar a namorada ao motel e, vez ou outra, visitar um amigo?
É ILUSÃO achar que tendo um carro você chega em qualquer lugar, como num passe de mágica. Acontece justamente o contrário. Vejamos:
Um carro precisa de gasolina. A gasolina é cara.
Quando eu quero ir para algum lugar, pago um táxi. No fim do mês, gastei menos do que você. E sem pagar pedágios.
Um carro precisa de manutenção. Isto custa muito dinheiro.
Ao invés de gastar meu salário com IPVA, oficina e taxa de seguro, eu invisto esse dinheiro em outras coisas, como lazer, cultura e viagens, por exemplo. Sem gastar grana com um carro, em pouco tempo, você poderá viajar de avião para qualquer lugar do mundo.
Dependendo de onde você vai, tem de se preocupar com lugares seguros onde possa guardar o carro.
Já eu posso ir para qualquer lugar sem me preocupar com roubos ou assaltos, nem se a rua onde deixei meu carro é perigosa ou não. Aproveito a noite do começo ao fim e ainda descolo uma carona de volta.
Tendo um carro, você não pode se descuidar e beber demais numa festa ou num barzinho.
Já eu posso beber todas e mais um pouco. Sempre haverá uma alma caridosa para me levar são e salvo para casa. Em último caso, chamo um táxi de confiança e vou dormindo no banco de trás.
Tendo um carro, as caronas acabam sempre sobrando pra você, no final da noite.
Já eu não preciso levar ninguém embora. Quando a festa chega ao fim eu sou, no máximo, o carona. Se eu não arrumar carona, tudo bem. Mas se você não me levar para casa fica com fama de egoísta ou antipático.

Tendo um carro, você é obrigado a fazer serviços chatos para a família.
Se eu tivesse um carro, provavelmente seria o primeiro a ser chamado para ajudar na mudança de casa da minha tia, em pleno domingo depois do almoço. Teria que sair debaixo de chuva, numa terça-feira à noite, para levar embora uma visita inesperada. Enfim, estas coisas nunca sobram para mim, mas para quem sabe dirigir.
Tendo um carro, você entra, automaticamente, na estatística das pessoas potencialmente "assaltáveis".
Já eu nunca fui assaltado na vida. Pelo contrário, como ando muito a pé, acabo conhecendo a malandragem de nome ou de vista. Muitos me conhecem de balcão. Sei exatamente onde pisar e onde não pisar. Já você, que só anda de carro, vê a cidade como um grande monstro ameaçador.
Você sempre fica em dúvida se aqueles amigos ou aquelas garotas estão andando com você por causa do que você é ou por causa do carro que você tem.
Eu não tenho esse problema. Se alguém é meu amigo, certamente não é por causa do meu carro ou do meu dinheiro.
E se alguém acha que é praticamente impossível sobreviver sem carro nos dias atuais, dou minhas dicas:
1. More no Centro.
Morar no centro da cidade - no centro de qualquer cidade - é muito importante. No centro você pode fazer tudo a pé: vai à farmácia, à padaria, ao supermercado, ao bar, ao restaurante, ao barbeiro, ao dentista, ao açougue, à banca de revista. Tudo o que você precisa para sobreviver está no centro. Além disso, quase todas as linhas de ônibus da sua cidade passam pelo centro e as chances de você descolar uma carona são enormes, porque todo mundo passa pelo centro quando volta para casa. Lembre-se: todos os caminhos conduzem ao centro.
2. More sozinho.
Como você não tem carro, deve ter uma casa sempre pronta para se transformar em outro ambiente numa fração de segundos: em restaurante, em cinema e, claro, em motel.
2. Não se sinta inferior.
Muitos homens acreditam que, sem carro, não conseguirão sair com mulheres. Influenciados pela propaganda, fazem a infantil associação entre carro e sexo. Você não deve se sentir inferior por não ter carro, até porque as pessoas são melhores ou piores por suas atitudes, não por aquilo que o dinheiro lhes permite comprar. Ao invés de esconder o fato da sociedade dando desculpas evasivas como "ainda não terminei de pagar o consórcio" ou "depois que roubaram meu carro não consegui comprar outro", diga a verdade. Assuma, usando o fato a seu favor e não se culpe. Deixe claro, sobretudo para você, que não ter carro é uma opção ideológica. Dessa maneira, você terá resolvido o dilema interior e se livrado do complexo. Não se esqueça: ninguém se sente atraído por uma pessoa que não gosta de si mesma.
3. Não saia com mulheres obsessivas por carros.
É fato: as marias-gasolinas existem e quando souberem que você não tem carro, não irão querer sair com você. Mas, quem disse que você tem que sair com toda e qualquer mulher que cruze o seu caminho? Uma mulher que mede o talento de um homem pelo carro que ele tem, não merece a vossa atenção. Tenha certeza que existem muitas mulheres inteligentes, sensíveis e divertidas por aí. Mulheres que se interessam mais pela conversa e pelo olhar sedutor de um cara do que pelo modelo do carro dele. E são estas mulheres que você tem de buscar. Não atire para qualquer lado, mas centralize sua mira no alvo certo. A guerra se vence pela estratégia, não pela demonstração de força.
4. Saiba que você tem um traço de personalidade privilegiado.
Saiba que você não é o único e nem uma aberração da natureza. Muitos foram os escritores, poetas, pintores, cineastas, jornalistas, líderes políticos e personalidades que não dirigiam por opção. E isto não as tornou menos brilhantes. Talvez as tenha tornado ainda mais especiais, visto que, ao invés de desperdiçarem energia com o carro, canalizavam para coisas mais importantes, como a criação. Ninguém morre sozinho e esquecido só porque não teve um carro na vida, coloque isto na cabeça.
5. Conscientize as pessoas sobre a importância da diminuição da frota de carros.
Você deve fazer da não-direção uma bandeira política. Sua missão é convencer as pessoas que elas não devem mais ter carros. Carros poluem a cidade, atropelam, matam seres humanos que não têm nada a ver com a sua pressa ou a sua distração. A quantidade de carros nas ruas cresce num ritmo alucinado. A cada veículo que sai de circulação, por ano, outros quatro são colocados em seu lugar. Ou seja, em pouco tempo não haverá mais espaço para ninguém, nem para carros, nem para pedestres. E não é preciso que a Mãe Diná faça esta previsão, trata-se de uma pura questão de lógica matemática. E se, assim como eu, você mora em Campinas, deixar de andar de carro é quase uma obrigação: temos, reconhecidamente, o pior trânsito do Brasil. Como o Brasil tem o pior trânsito do mundo, logo, Campinas é o pior lugar do planeta para dirigir. Não queira você atrapalhar ainda mais o nosso tráfego.
6. Habitue-se a andar a pé.
Andar a pé é uma das melhores experiências da vida. Eu, por exemplo, ando quilômetros todos os dias e não me canso. Pelo contrário, tenho uma boa saúde e boa resistência física, mesmo bebendo e fumando diariamente. Andar a pé ajuda a manter o peso e tonifica os músculos. Andando a pé você está prestando um grande serviço à atmosfera e contribuindo para a preservação da camada de ozônio. Você jamais irá atropelar e matar outro ser humano. Além disso, você se surpreenderá com a quantidade de pessoas interessantes que cruzarão seu caminho; pessoas que, antes, você não cumprimentaria, visto que estaria trancado em seu carrinho, com medo de ser assaltado no semáforo. Também irá descobrir a sua própria cidade e ficará íntimo de ruas, avenidas, becos, bares, cafés, praças. Será uma pessoa mais humana, acessível e bem humorada. Com um mínimo de talento, poderá até tirar um troco como guia-turístico.

E se você tem um carro e quer começar a livrar-se dele aos poucos, seguem minhas recomendações:
1. Dê carona.
Quando for sair de carro, preste atenção à sua volta. Sempre haverá alguém precisando chegar em algum lugar. Ofereça carona. Não tenha medo. Ao contrário do que a mídia coloca na sua cabeça, o povo brasileiro é bom. Se cada motorista que sai sozinho de carro levar mais duas pessoas, o tráfego irá fluir melhor e todo mundo vai se estressar menos.
2. Não trate seu carro como um animal de estimação.
Carros foram feitos para levar e trazer as pessoas, não para freqüentar salões de beleza. Não seja neurótico. Mantenha seu carro apenas apresentável. Não desperdice água lavando-o a cada dia. Aproveite para lavar os vidros com os flanelinhas, nos semáforos. E pague pelo trabalho deles, é claro. Não trate seu carro por apelidos carinhosos e evite se sentir poderoso quando estiver no comando. Você é um homem ou um rato? A Psicologia diz que homens inseguros usam o carro como uma espécie de proteção para sua incapacidade de se relacionar com o mundo. O medo de ser você mesmo acaba gerando essa relação demasiadamente afetiva com cães, gatos ou carros. Coloque-se no seu lugar. Um carro jamais será mais importante que um ser humano.
3. Não gaste o que não tem para se exibir para a sociedade.
Não venha com essa história de que você se endividou até o pescoço para ter um carro do ano por causa da "potência do motor". Você quer um carro para passear com a namorada ou para disputar corridas? Também não cola esse papo de que você está trocando de carro para "não desvalorizar". Ora, tenha paciência. Do jeito que a tecnologia tem avançado, dentro de 20 anos o teu carro vai ser peça de colecionador e, se ainda estiver circulando, custará uma pequena fortuna. Então seja honesto: você não precisa de um carro "melhor" só porque os seus amigos dizem. Um carro é somente um carro. O importante é que esteja em perfeitas condições para circular pelas ruas sem colocar em risco a vida de ninguém. Não importa a cor, o modelo, a procedência. Quando você começar a se desapegar desses detalhes supérfluos e deixar de acreditar nas propagandas de televisão, então você começará a ver o carro como ele deve ser visto: como um utilitário qualquer. Guarde seu dinheiro para coisas mais úteis e proveitosas.
4. Não veja o pedestre como um inimigo.
Coloque uma coisa na cabeça: o pedestre está sempre certo, mesmo que esteja errado. Ele não tem culpa se você está com pressa. Afinal, antes de inventarem os carros, as ruas já eram dos pedestres há milhares de anos. O mesmo motivo que vocês usam para justificar a "invasão" de nossas ruas é usado por Israel para ocupar a Palestina. A história está do nosso lado. Por quê razão vocês acham que devem ter mais direito sobre o espaço urbano do que nós?
5. Não se envolva em acidentes.
Nem sempre a culpa é do motorista. Acontece, por exemplo, de uma árvore cair em cima de um carro durante uma tempestade ou de um cavalo entrar de repente na estrada. São coisas do destino que ninguém pode evitar. Mas está mais do que provado que 90% dos acidentes de trânsito fatais são causados por descuido, excesso de velocidade, embriaguez, irresponsabilidade de quem estava ao volante. Vai dirigir? Não pense que é imortal. Se quiser se matar dê um tiro na cabeça ao invés de arrastar outras pessoas junto com você.
6. Tenha apenas um carro.
Pra quê ter dois carros se você pode fazer tudo tendo um só? Dois carros implicam dois impostos, duas preocupações, duas vezes mais emissão de gás carbônico. Um só carro pode suprir as necessidades de uma família de até cinco pessoas. Se os seus filhos não suportam a idéia de ter que dividi-los com vocês ou se o revezamento não está dando certo, isto significa que está faltando diálogo e bom senso. O egoísmo é o traço da personalidade humana mais difícil de ser apagado, mas lidar com isto é plenamente possível.
7. Não dê um carro para o seu filho.
Dar um carro tem quase o mesmo significado que levar o filho na zona, quando ele completa 18 anos. É impressionante o número de adolescentes que morrem, no Brasil, vítima de acidentes de trânsito. Não alimente este ciclo capitalista, deixe que seu filho batalhe sozinho para comprar o próprio carro. Assim, quando conseguir compra-lo, certamente será muito mais responsável ao volante, justamente por saber dar valor ao dinheiro.
8. Não use o carro todos os dias.
Experimente usar o transporte público. Deixe esse pedantismo ou essa preguiça de lado. Estar perto do povo faz bem ao caráter. Converse com o seu semelhante. Vá, aos poucos, se desligando da necessidade do carro. Use o carro apenas para casos extremos. Em países mais cidadãos, as pessoas usam o carro dia-sim e dia-não. Não só por questões ambientais, mas também para que vivam mais a vida em sociedade. Como você quer sentir-se parte de uma nação se fica o dia todo trancafiado dentro de uma máquina e de um escritório asséptico?
9. Troque seu carro por uma bicicleta.
No estágio mais avançado do desapego, você deve trocar seu carro por uma bicicleta. Ou por várias - uma para cada membro da família. Você pode ir ao trabalho pedalando. Os mais altos executivos chineses fazem isto sem o menor rubor facial. No começo as pessoas vão estranhar, mas depois acostumam. No futuro, você será tido como um homem a frente de seu tempo, um vanguardista. A bicicleta é um meio de transporte saudável, além de barato.
10. Divulgue este manifesto.
Se as grandes montadoras de carro usam a propaganda a favor da indústria, usemos a propaganda a favor do homem. Se você acredita num mundo melhor, ajude a disseminar essa idéia.
Titulo: Manifesto por um mundo sem trânsito
Autor: Bruno Ribeiro
Gênero: Artigo
Data de publicação: 5 de julho de 2004
Resumo: Leia e divulgue o manifesto de um não-motorista convicto, a favor de um mundo sem trânsito.
Eu assinaria abaixo, se fosse abaixo assinado. E também porque eu poderia ser o autor, dado o encontro de idéias. Valeu!
Pode crer. Também não dirijo, não quero dirigir, não gosto de carro e nem desse oba-oba que o Bruno descreve como conseqüência da propaganda ideológica que faz dos automóveis. A vida sem carro é possível, sim. E muito melhor!!!
muito bom, bruno! por causa de vc entrei em crise! naum consigo mais ver meu carro com os mesmos olhos…
ótimp textp, ótimas sacadas, Bruno. Bem vindo àPatada. Ah! E vc quse me convenceu a abandonar a minha caranga!
Belas sacadas e boa argumentação deste ‘Manifesto’, Bruno. Bem vindo àPatada!
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Parabéns!
Esses argumentos são muito fortes. Não é à toa que os ataques aos tópicos quase não existem!
Talvez você já tenha conhecimento das informações no endereço
http://apocalipsemotorizado.blogspot.com/2005/06/afinal-quanto-custa-ter-um-carro.html