O Brasil já teve Rock`n Roll

Artigo por Paulo Henrique
2 de março de 2004

A geração de hoje, o novo público consumidor de rock, não conhece exatamente o sentido desta palavra. Nos dias de hoje, o rock já vem acompanhado da extensão pop, dando origem a um novo estilo: o poprock, que predomina absoluto entre as bandas de sucesso comercial no Brasil. Temos Detonautas, Charlie Brown Jr, Jota Quest (brilhantemente comparado por alguns como o atual “Roupa Nova”), entre outras por aí. Falta habilidade musical, falta conteúdo e acima de tudo, faltam dois elementos sine qua non para caracterizar o Rock?n Roll: Ousadia e Atitude. Sobra discurso fácil, sobra estrelismo, grana e marketing.

Olhando para o cenário insosso de hoje, dá até a impressão que o Rock foi e sempre será uma virtude estrangeira, sobretudo de países de língua inglesa, com representantes legítimos como Beatles, Rolling Stones, The Who , The Doors, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Bob Dylan, Lou Reed, Neil Young e mais uma lista considerável de grandes valores neste estilo de três acordes.

Mas, por incrível que pareça (e tentando esquecer a situação atual), o Brasil já teve algumas produções de Rock?n Roll à altura dos grandes que inventaram o estilo. Os Secos e Molhados tiveram uma carreira curta, porém sólida. Gilberto Gil, no começo da carreira, fazia discos ótimos. Raul Seixas fez Rock, sobretudo no que se diz a respeito de Ousadia e Atitude.

Mas esta coluna quer destacar a maior de todas as bandas do Rock Nacional, que fez história, chacoalhou a música brasileira e o cenário internacional: os Mutantes. Este trio, composto por Rite Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias elevaram o Brasil à condição de produtor mundial de Rock?n Roll.

Suas músicas eram lisérgicas, cheias de distorções, mal comportadas, complexas, profundas e com performances dignas de Velvet Underground ? quando estes se apresentavam na The Factory, pavilhão de agito cultural comandado por Andy Warhol, em Nova Iorque.

Chegaram a ser comparados até com os Beatles. Não é por acaso, uma vez que os senhores de Liverpool eram influência direta na obra dos Mutantes. Mas eles foram além da sombra dos Beatles. Num coquetel que continha também muito rock misturado com Sampa e com a realidade brasileira da época (o fervilhar de movimentos culturais contra o militarismo e a censura ferrenha), os Mutantes fizeram boa música. Eles eram protegidos por Caetano e seus Tropicálias, conquistaram a simpatia do público pelas suas apresentações malucas e pelo ritmo que impuseram à juventude. Acima de tudo, tinham um “adulto” no grupo, o maestro Rogério Drupat, que lhes deu orientação musical.

Os Mutantes começaram sua trajetória em São Paulo, no final da década de 60, com Rita Lee no vocal, com uma voz que ia desde a suavidade que inspirou Fernanda Takai, do Pato Fu, até uma doideira digna de Janis Joplin (onde podemos ouvir em Sabotagem, uma canção histérica que usa até o “top-top”, recurso inventado pelo quadrinista Henfil).

Arnaldo Baptista era o loucão da banda. O clássico A Balada do Louco é dele. Não é sem razão. Ele começou todo alegre, meio que lembrando os Beatles no começo de carreira, saltitante e contente. De repente, pirou de vez. Começou a se drogar sem limites, tendo uma queda especial pelo ácido lisérgico, comumente encontrado naquela época em meios alternativos; começou a tocar teclado e a fazer incursões pelo subconsciente humano, com toques profundos e reverberantes; assistiu ao filme Easy Rider e se apaixonou pela idéia de viajar de moto: foi até o América Central com um companheiro, cada qual em sua moto. O destino era NY, mas desistiu na América Central por saudade da Rita Lee, sua esposa até então (e por ter jogado fora todo o estoque de drogas, com medo da polícia). Por fim, tentou o suicídio, pulando do terceiro andar da janela de um hospital psiquiátrico. Ele disse que até deu “uns passos de balé” antes de se esborrachar no chão. Ficou em coma e sobreviveu. Hoje mora em Juiz de Fora, quase vegetando, fazendo umas telas e algumas raras canções.

O terceiro elemento da banda, Sérgio Dias, irmão de Arnaldo, era o grande guitarrista brasileiro da época. Chegava a ser exibicionista quando tocava com a guitarra nas costas. Era o mais novo da banda e por isso mesmo gostava de carro, baladas e era bem mais prudente que o irmão em relação às drogas. Manteve os Mutantes certo tempo depois, mesmo sem Rite Lee e Arnaldo Bartista. Nesta época, tentou fazer rock progressivo. Não durou muito. Hoje mora nos EUA.

Estes três garotos fizeram muito pelo Rock Nacional. Garantiram qualidade musical e de conteúdo. Foram ousados. Certa vez, chegaram a tocar de costas para o público, em forma de protesto, enquanto Caetano Veloso - em sua época digna - bradava contra a platéia alienada, ao som desafinado de É proibido proibir. Debaixo de muitas vaias.

Os Mutantes, como tudo que é bom, chegaram a um final, em 1978. Arnaldo Baptista - muito doido - conseguiu acabar com seu casamento com Rita Lee, que por sua vez, viu na carreira solo uma possibilidade de ampliar seus horizontes. Sérgio Dias, tentou dar continuidade aos Mutantes, mas em vão, pois o trio que dava sentido à banda já tinha se separado.

No total foram 8 discos que a banda deixou em toda sua carreira, sendo que os três primeiros ? Mutantes(68), Mutantes(69) e A divina comédia ou Ando meio desligado (70) , formam a triologia que elevou o grupo ao panteão do Rock?n Roll universal.

Hoje em dia, salvo uma ou outra canção -que às vezes serve de trilha de novela - os Mutantes são praticamente desconhecidos no Brasil. Uma parte por culpa das gravadoras, que não fazem questão nenhuma de difundir o grupo. Outra pela própria limitação do público brasileiro, refletida em suas rádios e TVs. Outro tanto pelo comportamento do próprio grupo, cujo Rita Lee e Arnaldo Baptista preferem esquecer que foram mutantes, deixando Sérgio Dias na mão, pois ele é o único que ainda sonha com uma possível volta.

Mas, se aqui no Brasil, os Mutantes não são tão conhecidos, na Europa e nos EUA a coisa é diferente. Lá, "música brasileira" é Bossa Nova e Samba. Mutantes não. Para eles, os Mutantes são um grupo de Rock?n Roll que não fazem "música brasileira". Fazem Rock?n Roll. São brasileiros por acaso. Eles são roqueiros legítimos que soam, com suas guitarras, um toque de música sem fronteiras.

No final da década de 90, o produtor David Byrne - ex-membro do grupo Talking Heads e fã incondicional dos Mutantes - lançou lá na “gringa” um álbum com canções inéditas que o grupo tinha gravado e tinham sido perdidas na França. O álbum, chamado Tecnicolor foi sucesso de venda lá fora e só tempos depois pôde ser encontrado no Brasil, em algum canto das prateleiras de lojas de CDs. Apesar de não ser genial, o álbum faz parte da obra do grupo e tem algumas curiosidades, como a música Baby (Você precisa saber da piscina, da gasolina?) cantada em inglês.

Mas de qualquer forma, os Mutantes deixaram um legado positivo para música brasileira, mesmo não sendo suficiente para torná-la elevada em relação ao Rock. Eles deixaram um rastro musical sólido à disposição de quem quiser saber mais a respeito desta banda e com isso, se surpreender ao notar que o Brasil já teve Rock?n Roll e nossas guitarras, um dia, já soaram com ousadia e atitude. Com muita música, boa música?


Titulo: O Brasil já teve Rock`n Roll

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Artigo

Data de publicação: 2 de março de 2004

Resumo:

O Brasil já teve vida inteligente no Rock

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8 Comentários

  1. Michel Borges M.S. Leme disse:

    O Brasil TEM rock. Pena que ninguém de valor as nossas bandas e principalemnte aos nossos guitarristas, que estão entre os melhores do mundo sem dúvida. Outro dia me indicaram um DVD de um tal de Pedro Castilho, rapaz novo, guitarrista solo. Caras, ouvi uns 3 tres dias só ele. Toca muito. O instrumento parece que faz parte do braço dele. Alguém conhece ele? Não!!!!

  2. Presunto disse:

    Legal PH! Curto Mutantes pacas e vejo o grupo como pioneiros no assunto… mas tenho uma pergunta a fazer: As bandas brasileiras dos anos 80 não signifcam nada pra você?

  3. Nelson Valêncio disse:

    PH, gostei muito. Confesso que não sou conhecedor do rock, mas Mutantes, pela figura da Rita, de quem sou devoto absoluto sempre me despertou uma curiosidade imensa. Ontem mesmo a vi no Fantástico. Continua a mesma: irreverente, inteligente, uma menina de 56 anos. Quanto à falta de inteligência, não é só o rock. O Brasil tá precisando reciclar muita coisa. Valeu.

  4. Alexandre Piccolo disse:

    Belo resgate de uma crescente série sobre Rock (nacional, em especial), fiquei na vontade de ouvir Mutantes…

  5. Lígia disse:

    Parabéns pelo texto! Falta muito Mutantes nos dias atuais.

  6. Mário disse:

    Legal demais, PH! Sempre trazendo o rock aqui naPatada. Como você, sou um aficcionado pelo tal ritmo, ousadia e atitude desse estilo musical. Muito bem escrito o texto! Parabéns!

  7. leo disse:

    isso aí pê nunca é demais lembrar o legado desses três malucos. claro que você não citou muita gente boa daquela e de outras épocas mas o texto ficou massa. abraço!

  8. OS MENUDOS disse:

    Esse tal Charlie Brown tá copiando a gente e ninguém diz nada…

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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