Artigo por Eduardo Socha
26 de setembro de 2005
Faz parte do jogo midiático de direita a escolha de algumas figuras públicas que, ridicularizadas, servem para cristalizar seu ranço conservador. Assim, criam-se balizas concretas para direcionar a opinião pública, representada, em última instância, pela classe média. Hoje, louvado na imprensa pela sua atuação política, Gabeira foi durante muito tempo ridicularizado e vendido à população apenas como o político do cânhamo e defensor da sunga de crochê na praia. Ex-radicais do PT, como Heloisa Helena e Luciana Genro, já serviram como fonte privilegiada para anedotas políticas, no tempo em que simbolizavam o suposto atraso de uma parcela do PT que ainda não havia se “modernizado”. Hoje, porém, são apresentados de maneira diferente.
Como o terreno da representação política foi completamente minado pelo escândalo do mensalão, ficou difícil escolher alguém entre a classe política que pudesse ser levada à praça pública para continuar o jogo. Perdeu-se a eficácia. De modo que a bola da vez na imprensa, impulsionada pelo mesmo escândalo, acabou sendo a professora Marilena Chauí, intelectual engajada, que atuou de maneira decisiva na construção ideológica do PT - daquele outro PT, bem entendido. Acontece que Marilena se recusa a participar do jogo, pois conhece as regras de antemão. É impressionante o número de páginas que a grande mídia dedica a ela, zombando grosseiramente de seu posicionamento e exigindo sua conformação ao coro de afrontas ao partido.
Como ela decidiu não falar pelos canais viciados da grande imprensa, seus discursos proferidos em seminários e ciclos de palestras foram distorcidos, arracandos de seu contexto original, e estampados como inexplicável silêncio diante dos escândalos. O ciclo de debates políticos organizado há 20 anos por Adauto Novais - cujo tema neste ano foi “O silêncio dos intelectuais”, que nada tinha a ver com a crise - virou, de uma hora para outra, o palco para seu achincalhamento.
A carta enviada a seus alunos e publicada (sem a autorização dela, diga-se de passagem) na Folha expõe com clareza a situação. No texto, Marilena aponta quatro motivos para seu suposto silêncio. Suposto, porque já havia se manifestado publicamente sobre a rede de alianças do governo e sobre a inerente corruptabilidade do sistema político. Mas o desrespeito e a grosseria, típicos do julgamento irrefletido e da “alegria raivosa” (como bem definiu Chico Buarque) da direita, não tiveram limites. Cobraram, por exemplo, declarações de Marilena num período em que passava por dificuldades pessoais, com sua mãe hospitalizada, o que inclusive lhe forçou a abandonar uma série de compromissos estabelecidos ao longo do ano. Além disso, o comentário de FHC, trazido como cereja do bolo na imprensa, de que ela não entende de política e que, portanto, não deveria se pronunciar sobre o assunto, revela ao mesmo tempo arrogância e desconhecimento do ex-presidente. Com uma simples frase, diz que não é qualquer um que está habilitado a falar de política. Mas se Marilena, que tem uma das obras mais extensas sobre política e democracia no Brasil, não entende de política, então é melhor falarmos sobre borboletas do Cazaquistão.
Por fim, não se trata de concordar ou discordar de Marilena, de defender ou questionar suas posições políticas. O fato é que existe uma conduta que deveria se antepor ao debate. Trata-se, acima de tudo, de manter o respeito que sua trajetória merece.
Titulo: O caso Marilena
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Artigo
Data de publicação: 26 de setembro de 2005
Resumo: Faz parte do jogo midiático de direita a escolha de algumas figuras públicas que servem para cristalizar seu ranço conservador
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ótimo e muito lúcido.