O ‘não’ do referendo

Artigo por Eduardo Socha
31 de outubro de 2005

Nem é preciso discutir a inutilidade do último referendo; todos parecem concordar sobre o absurdo de tamanha mobilização para uma decisão estéril, que em nada altera o problema da segurança pública. Não bastasse isso, a questão tinha interesse a um destinatário social muito bem definido: o cidadão de classe média com poder de compra suficiente para adquirir e manter o porte legal de arma. Tratava-se de um encaminhamento adequado à pauta do Congresso ou do Planalto, cujos nobres representantes são, afinal, eleitos e pagos (às vezes através de valériodutos) para a tarefa. Fugindo dessa responsabilidade, o bom senso levou a pior. Mas o resultado do referendo, que golpeou o mito do homem cordial e fortaleceu a retórica do armamento sob a máscara da "defesa dos direitos", acabou dando outra bica no mesmo bom senso.

O famoso "homem de bem" (que alguém me apresente esse incólume senhor) conseguiu revogar a proibição, e o país tomba num vergonhoso retrocesso civil. Certamente não é, como se interpretou às cegas, um recado latente à política atual. Governo e oposição votaram juntas, o que basta para anular a interpretação de resposta popular ao petismo. O resultado manifesta antes o reconhecimento de uma guerra civil não declarada que vem confrontando as camadas sociais dos grandes centros, uma guerra que se afirma diariamente na proliferação dos carros blindados e na apreensão de fuzis israelenses em favelas. Evidentemente seria exagero afirmar que tencionamos ao retorno de uma espécie de estado de natureza, no qual cada um cuidaria do próprio umbigo, uma vez constatada a relativa ineficiência das polícias. Mas não estaria na decisão do referendo uma descrença violenta no estado de direito? O princípio jurídico da transferência de resolução de conflitos para a esfera do poder estatal parece ter sido ignorado. O "homem de bem" inverteu a polaridade da questão, e transformou armamento em direito, como se o estado não fosse obrigado à restrição de liberdades para assegurar a sociabilidade. O exemplo banal do respeito aos semáforos seria suficiente para esclarecer o "homem de bem", caso ele não permanecesse preso ao cinismo ou à ilusão barata de que arma em casa significa segurança.

Mas o ponto que chama a atenção aqui é a mobilidade da opinião popular e a capacidade deformadora do marketing. Em agosto, 80% dos entrevistados votariam "sim", pelo Datafolha. Uma semana antes da votação, o número caiu para 43%. As estatísticas sempre foram solidárias ao "sim": 5% das mortes por armas de fogo acontecem durante assaltos; 61% das armas usadas por criminosos foram compradas legalmente, segundo a polícia carioca (muitas são roubadas e entram no mercado ilegal). Sem entrar no prosaísmo da velha máxima "violência fomenta violência", isso tudo não interessou: o que valeu mesmo foi a campanha agressiva do "não". Somado à pergunta duplamente contra-intuitiva ("sim" para contra as armas e "sim" como número 2) e ao marketing lamentável do "sim", o resultado confirma o desejo da não mudança. Ao poder carregar uma arma e se eximir do enfrentamento do problema pela sua origem de fato - este abismo social que põe como vizinhos a Daslu e a favela Funchal ? o "homem de bem" talvez acredite que estará, como diz a propaganda de uma loja de carros blindados, "garantindo sua paz interior". Sem maniqueísmos, é preciso dizer que o bom senso perdeu de novo.


Titulo: O ‘não’ do referendo

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Artigo

Data de publicação: 31 de outubro de 2005

Resumo:

O resultado, que golpeou o mito do homem cordial e fortaleceu a retórica do armamento sob a máscara da “defesa dos direitos”, acabou dando uma bica no bom senso

3 Comentários

  1. biCa disse:

    uau i qui bica!

  2. Leonardo disse:

    Concordo com várias opiniões suas, como sempre, mas não acho que o bom senso estava do lado do sim, e as estatísticas estão de qual lado se queira, pois são distorcidas por ambos.
    Fique claro que não defendo o direito de possuir uma arma (o que nos EUA é a pedra angular da sociedade), ainda que filosoficamente ache que o cidadão deveria sim tê-lo.
    Mas tal medida ia aumentar ainda mais os lucros do tráfico de armas, já que não se elimina a demanda por decreto (o que já deveríamos ter aprendido com o caso das drogas). Além disso, hoje é possível manter um cadastro das armas legais, o que acabaria. O poder daqueles autorizados a se armar, como a polícia e os paramilitares (seg. privada) aumentaria, o que é temerário, no mínimo.
    Bem, o governo torrou uma fortuna (mais do que gastou com segurança pública), a lavagem cerebral 24h/dia na TV ajudou a jogar fumaça sobre a lama de Brasília e no fim quem gostou foi a indústria armamentista, que se safou e ainda deve ter experimentado um ‘boom’ de vendas.

  3. Platón disse:

    Não conheço nenhum caminho seguro para o sucesso, só um para o insucesso seguro - agradar a todos.

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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