O que vale é o quadro, não a moldura.

Artigo por Márcio Sampa
21 de abril de 2003

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O “crazy” Mohamad Ali observa
o Rei, lá pelos idos dos 70…

Oscilar entre o amor e o ódio faz parte da natureza humana. Afinal, as emoções sacam muito mais rápido do coldre do que a razão.

Satanizar os Estados Unidos e os norte-americanos tem sido o exercício predileto por estas e outras bandas nos últimos tempos. Não sem uma boa dose de razão, é claro. Mas, em nome desta mesma razão, da justiça e do bom senso é preciso ser advogado do diabo. Para tanto, se faz necessário invocar outra figura que vem sendo demonizada de uns tempos pra cá.

Caetano Veloso, em seu show "Circuladô de Fulô" declama, a uma certa altura: "os americanos são responsáveis por tudo o que há de mais belo e mais feio neste mundo".

O filósofo alemão Theodore Adorno se horrorizou com a indústria cultural norte-americana, quando ali chegou, fugindo da guerra na Europa. Do alto de sua erudição germânica, considerava a cultura de massa nefasta para a genuína cultura ocidental, representada pelas tradições greco-romanas e pelos clássicos do pensamento e da música européia.

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O genial poeta e músico
judeu, Cole Porter.

Aqui pelos lados da tupinambalândia gostamos de nos deleitar com a "burrice" dos irmãozinhos do norte. Mas muitos irmãozinhos do sul correm para tirar a virgindade de seus verdes passaportes com um carimbo do consulado, onde se lê USA.

É claro que existe uma grave crise intelectual entre as populações dos cinqüenta e tantos estados. A alienação é a regra, não a excessão, fortemente impulsionada pela mesma indústria cultural execrada por Adorno. E isto vale para muitas latitudes e longitudes do globo, diga-se de passagem.

Não é justo, porém, fazer-se tábula rasa com uma nação que produziu Cole Porter, Woody Allen, Bob Dylan, Noam Chomsky, Ella Fitzgerald, Joan Baez, Mohamad Ali (para aqueles que estranham a presença de Ali nesta lista, leiam o livro "Quando Éramos Reis" ou assistam ao documentário homônimo e entenderão a dimensão deste gênio) e tantas outras almas sensíveis, sagazes e inteligentes…

Em contrapartida, imagino que Sócrates neste momento regozige-se na poeira de sua tumba com o fracasso da democracia acéfala, capitaneada por um certo arbusto. O próprio Churchil morderia fortemente o seu charuto antes de tirar uma foto ao lado de George Júnior. Mas definitivamente, empregando um velho adágio, devemos decretar: não se pode avaliar o quadro pela moldura. Em que pese o mau gosto daqueles que a escolheram.


Titulo: O que vale é o quadro, não a moldura.

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Artigo

Data de publicação: 21 de abril de 2003

Resumo:

As contribuições da civilização norte-americana para o mundo vão além de suas questionáveis guerras.

5 Comentários

  1. fernando disse:

    Mandou benzaço, alguns se esquecem da importância da cultura americana para a música, literatura, ciência. Diante da onda anti-americana, muitos amam odiar os EUA. Genial.

  2. Márcia Heuser disse:

    Muito bom Márcio. Curti muito o “Oscilar entre o amor e o ódio faz parte da natureza humana”. A memória curta, a tendência em colocar defeitos em todas as coisas(analisar a moldura, quando tem-se o quadro evidente) e o olhar comum, são claras nesta visão, e em muitas outras da vida.

  3. Mário de Souza Neto disse:

    Sendo curto e grosso: bom pacas! Se a Alemanha de Goethe gerou um Hitler…

  4. PH disse:

    Boa, Sampa! Realmente a influência americana no século XX - não por acaso o século mais lúcido da humanidade - é fundamental. Uma prova é a internet, uma cria destes “demônios”. Bush que o diga…. não, não o Gerge, mas o Vannevar, um dos inventores desta dita cuja. Ótimo alerta!

  5. Alexandre Piccolo disse:

    Curti muito o artigo, muito bem dito: “a alienação é a regra, não a excessão”. Há quem diga que o jazz é a único proveito que se tira nos últimos 100 anos de nossos vizinhos do norte. Ouvi um professor certa vez dizer que do século XX se aproveitavam apenas três coisas: o antibiótico, o aparelho de tocar música e o cinema - dentre as quais há relevante participação yankee. Enfim, nada é só bom ou só ruim, ainda que seja muitas vezes difícil percebê-lo. Belíssimo artigo.

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Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

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