Ódio Virtual Também Mata

Artigo por Raymundo Silveira
4 de junho de 2004

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Raymundo Silveira

Como médico, passei cerca de oito anos estudando doenças. Como seminarista, passei três anos estudando as Escrituras Sagradas. Quase todas as pessoas que tiveram a mesma experiência que eu tive negam existir qualquer traço de união entre estas duas disciplinas. Pois comigo, como sempre, descobri que sucede o contrário. É bem verdade que observei apenas um ponto em comum entre as duas. Refiro-me ao perdão. A única diferença é quanto aos efeitos. Enquanto a Sagrada Escritura promete o Reino dos Céus para aqueles que perdoarem os seus inimigos, a medicina promete a saúde. Em relação a esta última, que preconiza a cura das doenças através de remédios, é o perdão o único que apresenta perto de cem por cento de eficácia e não possui nenhum efeito colateral.

Sei o que os leitores estão pensando. Crêem que me refiro somente às doenças de origem emocional; as chamadas doenças nervosas. Mas não é nada disso. Para falar apenas da minha experiência pessoal, isto é, dos casos tratados diretamente por mim mesmo ou por outros médicos, mas que tive a oportunidade de observar, apenas por serem capazes de perdoar os seus inimigos, os pacientes ficaram parcial ou completamente curados das seguintes doenças: diabete; obesidade; tuberculose; asma; amnésia (esquecimento); hérnia de disco; enxaqueca, hérnia do diafragma (gases, doenças do estômago); úlcera; alopécia (queda dos cabelos); certas doenças do coração como arritmias e infarto; doenças da próstata, do útero, dos ovários e, pasmem, até de câncer.

Se me propusesse a falar das doenças nervosas nem precisaria conversar muito – quase todas têm as suas origens causadas pelos rancores - alguns sufocados amargamente e outros externados a cada momento sob a forma de ira. Um simples ato de perdão resolveria cerca de noventa por cento ou mais de todas elas. Perdoar faz milagres. E milagres que podem ser comprovados na prática todos os dias. Uma das enfermidades que mais matam no mundo inteiro é o alcoolismo e o único tratamento que se mostrou eficaz para ele até agora é proporcionado por uma irmandade chamada Alcoólicos Anônimos. Esse tratamento tem por base o seguimento de doze passos que o doente deve dar se tem mesmo vontade de abandonar o vício. Um deles consiste em perdoar a qualquer pessoa de quem sinta mágoa. Estou aqui torcendo a fim de que nenhum dos membros do AA – que defendem os seus benditos doze passos com unhas e dentes, ou melhor, com almas e corações – leia isto que estou escrevendo. Mas a verdade é que todos aqueles doze passos poderiam ser economizados a fim de que fossem utilizados em favor de algo mais proveitoso. A razão é muito simples. Bastaria ao alcoólatra dar um único passo para se curar: perdoar os seus inimigos.

Certamente, quem está acostumado a ler as minhas escrevinhações diárias estará sentindo alguma estranheza, pois este texto é muito diferente dos outros que costumo escrever. Na verdade, ele é dedicado a todos os meus irmãos e irmãs que vêm se digladiando através da Internet. Muitos sentindo ódios mortais uns dos outros, às vezes sem se dar conta do mal que estão praticando contra si próprios. Estão todos se autodestruindo e não percebem isso.

Pela segunda vez estou sendo vítima de alguns destes tipos de rancores desde quando comecei, há quase oito anos, a navegar por estes turbulentos “mares” virtuais. Parece uma boa média (0,25 por ano) em comparação com a freqüência das batalhas que tenho observado no dia a dia. No meu caso específico, não importam os motivos que geraram tanto furor. Queria apenas dizer para todas as pessoas que me odeiam que estão perdoadas e a elas peço também que me perdoem. Talvez existam centenas de razões para que eu faça o que estou fazendo. Talvez até os meus estudos e reflexões sobre o Evangelho nos tempos em que fui seminarista estejam envolvidos nestas razões e eu não esteja sabendo disto. Mas, como sempre, não me sentiria bem se não dissesse a verdade – a única motivação consciente que me levou a escrever este texto foi de natureza medicinal. Por outras palavras, eu perdoei a todos vocês apenas porque quero viver mais um pouco.

03/06/2004


Titulo: Ódio Virtual Também Mata

Autor: Raymundo Silveira

Gênero: Artigo

Data de publicação: 4 de junho de 2004

Resumo:

Enquanto a Sagrada Escritura promete o Reino dos Céus para aqueles que perdoarem os seus inimigos, a medicina promete a saúde. Em relação a esta última, que preconiza a cura das doenças através de remédios, é o perdão o único que apresenta perto de cem por cento de eficácia e não possui nenhum efeito colateral.

2 Comentários

  1. Alexandre Piccolo disse:

    Certamente o perdão é milagroso, Raymundo, e seu texto inicia um paralelo instigante e curioso sobre este catártico “ato de perdoar”, digno das incompreensões do mundo da medicina ao inexplicável do universo religioso. Bem vindo a APATADA.

  2. Paulo Henrique Ferreira disse:

    Dr. Raymundo! Bem vindo à aPatada. Este seu texto de estréia foi uma grande contribuição para todos os leitores do site, seja no ponto de vista Cristão, seja no ponto de vista medicinal. Parabéns e um abraço!

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Quem é Raymundo Silveira?

Minhas atividades na literatura não médica tiveram início com o advento da Internet. Tenho trabalhos publicados em numerosos sites sob a forma de Contos, Crônicas, Ensaio, Crítica e Poesia, além de vinte livros eletrônicos editados.

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