Os porões imundos da ditadura

Artigo por Márcio Sampa
5 de maio de 2003

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Policiais argentinos reprimem manifestantes.

Daqui a poucos dias a Argentina elegerá um novo presidente. Na disputa se enfrentam o ex-presidiário Carlos Saúl Menem e o obscuro governador da Patagônia, Nestor Kirchner.

O fato de Menem ser um ex-presidiário (esteve sob prisão domiciliar por alguns meses) não é um problema em si. Afinal, o objetivo de todo o sistema jurídico-penal é ressociabilizar o indivíduo. O problema está nos fatos que o levaram à prisão. Menem foi julgado e condenado por facilitar o tráfico de armas para repúblicas da ex-Iugoslávia, quando era presidente da República! Isto sem mencionar as inúmeras acusações de corrupção que pesam sobre sua figura.

Kirchner, por seu lado, não tem um passado tão turvo (ao que se saiba), mas é o queridinho do atual presidente Duhalde. Ambos, assim como Menem, são políticos profissionais (na acepção pejorativa do termo) e conseguiram passar incólumes pela sangrenta ditadura argentina, o que não é exatamente uma boa credencial.

Ocorre que os anos de chumbo na América Latina, e particularmente na Argentina, ceifaram centenas de importantes quadros políticos, eliminados pela chamada “Guerra Suja”, movida pelos militares contra seus opositores. Professores, estudantes, sindicalistas, militantes e idealistas.

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Mães da Praça de Maio se mobilizam
em busca dos filhos “desaparecidos”.

O resultado no curto prazo foi a eliminação física da oposição e a fanfarronice das Malvinas, que custou a vida de mais de um milhar de argentinos. No longo prazo, as conseqüências começam a ser percebidas agora. A completa acefalia e falta de opções para as lideranças locais, a ponto de mais de um candidato utilizar Lula e seu discurso eleitoral como paradigmas, sem o menor constrangimento.

A propósito, o caso brasileiro é um pouco diferente no presente porque assim o foi no passado. Também tivemos nossa guerra suja e seus mortos, porém a muitos líderes de oposição foi dada pelos militares a opção do exílio ou simplesmente da prisão, como ocorreu, entre outros, com Fernando Henrique, José Dirceu, José Genoino e Bete Mendes. Alguns foram barbaramente torturados, mas ainda assim sobreviveram para lutar pelas “Diretas Já” e até pela presidência.

O caso argentino não é único no mundo e nem se restringe somente à política. A maldição do Estado de exceção é exatamente a obstrução dos processos criativos, da liberdade de sonhar, da liberdade de se reunir com os amigos e fazer planos que envolvam o futuro de um grupo, agremiação ou mesmo da nação.

As medíocres ditaduras apenas reforçam a necessidade de se valorizar e velar pelo rito democrático, que, mesmo imperfeito, garante aos indivíduos o mínimo de participação e de possibilidade de escolha entre opções razoavelmente sérias. Exatamente o oposto do que ocorre com o povo argentino, na média mais culto que o brasileiro, que se vê às voltas com uma eleição duríssima, não pela disputa, mas pela falta de alternativas confiáveis: indivíduos com um histórico construído na política ao longo das últimas décadas. Para a infelicidade de nossos vizinhos estas pessoas desapareceram nos porões imundos da ditadura.


Titulo: Os porões imundos da ditadura

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Artigo

Data de publicação: 5 de maio de 2003

Resumo:

A falta de boas opções nas eleições argentinas é resultado da grotesca repressão durante os anos de ditadura.

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5 Comentários

  1. Mário disse:

    Sensata reflexão. Os desmandos políticos do nosso vizinho mais uma vez mostram o quanto a chamada democracia é frágil. Mostra também como o nível de informação e conhecimento da população NÃO é suficiente por si só para alterar uma certa posição. A participação político vai além do voto. Nisso todos nós, argentinos e brasileiros, ainda precisamos aprender.

  2. Gustavo Rissio disse:

    Bela análise, Sampa! O sonho de prosperidade Argentina da era Menem, esgotado pelo otimismo exagerado, traz agora a ressaca dos últimos anos.. E eles, de memória curta como os brasileiros, sonham com a volta do “homem da costeleta” movidos pelo sonho sem fundamento. Infelizmente esta é a única esperança que resta aos nossos vizinhos. O Brasil já conseguiu acordar. Eles ainda não têm esta opção. Parabéns pelo texto!

  3. Gustavo Rissio disse:

    Bela análise, Sampa! O sonho de prosperidade Argentina da era Menem, esgotado pelo otimismo exagerado, traz agora a ressaca dos últimos anos.. E eles, de memória curta como os brasileiros, sonham com a volta do “homem da costeleta” movidos pelo sonho sem fundamento. Infelizmente esta é a única esperança que resta aos nossos vizinhos. O Brasil já conseguiu acordar. Eles ainda não têm esta opção. Parabéns pelo texto!

  4. Leo Pataca disse:

    O que fazer com um país onde há a certeza que Maradona é melhor que Pelé e que o peso vale tanto quanto o dólar? Esta pífia eleição mostra os rumos que os hermanos tomaram; só agora eles começaram a notar que a Europa é bem mais longe que o Paraguai…

  5. Alexandre Piccolo disse:

    Sim, Sampa, triste o destino político de nossos vizinhos argentinos… Escolher entre o pior e o menos ruim é como não ter escolha.

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Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

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