Artigo por Marco Giannelli
17 de março de 2003
Parece que os EUA estão mesmo empenhados em patrocinar uma "pax" que seja sinótica de outra e que em tempos ancestrais foi, ao mundo civilizado à época, bem familiar, a "pax romana". Há muitos paralelos nas duas situações que permitem endossar a comparação. A principal delas está em que a "pax" foi semeada à custa de muitas guerras. Assim como o americano, o império romano foi pródigo em litigar com toda a circunvizinhança e se estendeu por terras longínquas e quase desinteressantes, como em muitos casos puderam os generais romanos alegarem a seus césares e augustos.
O império americano também se estendeu por conta de guerras e mais guerras e não é à toa que hoje se nega a assumir qualquer compromisso de desarmamento que desmantele sua cornucópica indústria bélica e sua folgada dianteira armamentista. E se hoje os americanos estão envolvidos com esse "imbroglio" chamado "questão Iraque" é apenas porque as raízes de seu poderio e de sua "pax" estão inteiramente comprometidas com a lógica da guerra e a "argúcia das armas"…
Refiro-me à "argúcia das armas" depois de um episódio em que os americanos deixaram bem claro que sua "diplomacia" é ignara do que venha a ser diplomacia. Para dizer o menos, foi execrável a proposta americana de se pensar em um estado palestino exatamente quando tenta demover os árabes de resistirem a um ataque à uma de suas nações irmãs, o ante-diluviano Iraque. E pergunto-me, em aparte: "se o Iraque sobreviveu a um dilúvio, não sobreviverá a uma guerra?".
A chancelaria americana resolveu colocar suas garras de fora e fez-me lembrar de uma espirituosa frase de Andrei Gromiko, referindo-se ao então insurgente Gorbaciov: "sorri, mas tem os dentes de ferro" e que bem poderia aplicar-se a esse arbusto que hoje se arvora em presidente dos estados unidos da américa.
É muito sintomático que o principal aliado americano seja o decadente "império inglês", o qual já possui uma vasta experiência em fraudes diplomáticas e desonras com o mundo árabe. Desde o malfadado Acordo Hussein-McMahon de 1915, quando o governo britânico negociou a independência das nações árabes em troca de seu apoio na Primeira Guerra Mundial, que ficou patente o quanto os ingleses tinham em alta conta as nações daquela região…Pouco depois de prometida a independência árabe, sobreveio a funesta Declaração Balfour prometendo uma nação judia em terras já consagradas aos árabes. E a partir de então, as coisas somente se embaralharam a ponto de terem chegado à partilha proposta pela ONU, entregando 57% da Palestina a uma população judia que não possuía mais que 5,66% de sua superfície, enquanto aos árabes restavam os outros 43%, mesmo tendo eles o controle de 94% de toda a superfície da Palestina! E como se não bastasse o disparate da partilha desigual e expropriatória, os judeus ainda conseguiram, por força de guerras, esbulhar os parcos 47% que tinham sido destinados aos árabes, controlando-os até hoje, em afronta direta as resoluções da ONU.
Porém, estamos às voltas com uma guerra contra uma nação já debelada e reduzida a escombros, afinal todos são concordes em admitir que o Iraque há muito não possui poder bélico considerável (em 1990 suas reservas já estavam exangues e mesmo com um arsenal diversificado, não tinha qualquer possibilidade de resposta à época, o que ficou claro com o desenrolar da Guerra do Golfo)e, como dizia, estamos próximos de uma guerra por conta de um país ter desobedecido à uma resolução da ONU…Será que falamos da mesma ONU? Será a mesma ONU que exarou resoluções em 1948 dividindo a Palestina em duas nações, sendo uma delas árabe? Nessa perspectiva, é de se perquirir: a que espécie de Direito Internacional se perfila a ONU? E que simulacro de autoridade e autonomia ostentam suas instâncias deliberativas? E que papéis representam todas as nações que lá ocupam cadeiras à guisa de títeres, fantoches e avantesmas?
A "questão Iraque" tem trazido à baila, não o problema de regimes autoritários como o de Saddam Hussein, que na verdade atende a um componente cultural quase atávico e cujas raízes se pulverizam em questões religiosas, culturais, sócio-econômicas e históricas, mas tem exposto as chagas de um mundo cuja "pax" está irrefragavelmente sustentada pela guerra. E toda a celeuma provocada pela iminente guerra do Iraque só teve lugar porque a hegemonia americana passou a comprimir seus antigos parceiros de guerra, dando-lhes a consciência de que a diplomacia e o direito internacionais sempre foram meros instrumentos de legitimação espúria de suas ações e agressões. A diplomacia e o direito nos estados unidos da américa sempre foram acessórios e como tal, eram descartáveis no momento em que seu uso obstava a ação ou a omissão. E isso não é recente. Durante os anos 60 e 70 os americanos patrocinaram a "pax americana" a custo de tortura, tribunais de exceção, esquadrões da morte, segregação política, perseguições e fraudes econômicas como as que recheiam os anais da história argentina, uruguaia, chilena, panamenha, paraguaia e para não parecer conivente, brasileira. E quando é preciso, a "pax americana" é utilizada também dentro do país: vejam o Direito e as leis com que julgavam os negros até pouco mais de 1970, sempre propensos a imputar-lhes crimes e a cominarem penas relacionadas às cores de sua pele e às raízes de suas famílias, ou o escândalo do macarthismo, que julgava as pessoas pelas suas idéias ou por sua filiação política, ou então a "pax americana" que pode ser utilizada também contra nações, como foi o caso do "golpe" perpetrado contra a Alemanha e as potências aliadas, ao aceitaram negociar uma "paz honrosa" proposta pelos estados unidos da américa e que pusesse fim à Primeira Guerra Mundial. Tão logo foram desarmadas e tornadas vulneráveis, as nações "derrotadas" tiveram de se submeter a uma "pax americana" (em conluio naturalmente com ingleses e franceses), chancelada pelo presidente Woodrow Wilson, e que os colocava literalmente de joelhos, derribando-os a ponto de não conseguirem se levantar senão pela obra de um demiurgo fanático e pertinaz como Adolf Hitler!
Há muito que se fala em paz e nossas bocas estão sujas de sangue. Há muito que se fala em Direito e nossas mãos estão prenhes de armas e foices com as quais defendemos nossas teses. E o que é mais torpe ainda, para não dizer obsceno: falam os americanos em deus e o deus a que se referem me dá ânsias de vômito e me fazem regurgitar tudo o que possa ser chamado de religião! E é claro, não podemos julgar os americanos por seus líderes ou por aqueles que os representem num dado momento, mas não é de hoje que os estados unidos da américa sujam o mundo com sua "matéria fecal" e com a imúndicie que sai de suas leis, de sua cultura e de sua pseudo superioridade. Calgaco, rei dos bretões, pouco antes de guerrear contra os romanos, falou a seus guerreiros: "ubi solitudinem faciunt pacem appellant", que quer dizer, "quando fazem um deserto, chamam-no paz" e ele se referia exatamente a isso que os americanos querem chamar de "democracia", de "paz", de "segurança" e de "vida". A "pax americana" a que aludem nossos vizinhos de cima (e que fazem tanto barulho batendo os pés contra o piso!)é apenas mais uma mistificação grosseira do que seja a sua maneira imunda de controlar o mundo, emporcalhando-o (como ficou claro ao retroceder na ratificação do Acordo de Kyoto), depauperando-o ("e eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?" Almeida Garret), que visa a mascarar as mais brutais agressões (como as centenas de agressões patrocinadas pelos americanos em todos os quadrantes da terra) e os mais cruéis massacres, como os que já tivemos oportunidade de saborear repassando os últimos cem anos de história mundial.
Enfim, sinto-me enojado quando gritam "direito", "respeito às leis", "moralidade", "liberdade" se os fautores desses assomos são os mesmos que pisoteiam a ONU e o Direito Internacional quando se lhes contrapõe, se são os mesmos que promovem cursos de tortura e desrespeito aos direitos humanos quando a prática lhes é conveniente, se são os mesmos que agridem e violam a liberdade de nações independentes, se são os mesmos que boicotam todos aqueles que não se submetem às regras por eles entabuladas, como fica evidente no caso cubano, em que há muito Cuba deixou de ser uma ameaça, mas mesmo assim, eles, os "libertários americanos", insistem em manter um embargo cujo único objetivo é colocar no poder um nome qualquer que seja títere dos interesses americanos, como fizeram no Afeganistão, no Panamá, na Nicaraguá, no Chile, no Brasil, na Coréia e até no Iraque, que diga-se de passagem, teve sua ditadura instaurada sob os auspícios do serviço secreto americano…E por todas essas razões é que acredito ser o nosso dever não sucumbir à essa espécie de "maleita" chamada "american way of life", sob pena de incorrermos num perigo de há muito vaticinado por Eduardo Galeano: "temos guardado um silêncio bastante parecido com a estupidez" e, tenho certeza, que ainda vale a assertiva de Marx lançada muito tempo atrás, "não temos nada a perder senão as algemas"! E para concluir, gostaria de enviar, mesmo que mentalmente, todas as minhas energias para o Iraque a fim de que reúna tudo o que aquele povo tiver de forças e energias, para combater e resistir àquele que é o grande "mefistófeles" do século, os estados unidos da américa, e lembrar aos combatentes do deserto, numa quase oração, um dos mais belos versos de Pushkin, o poeta russo: "a fagulha porá fogo nas pradarias"!
Titulo: Pax Americana
Autor: Marco Giannelli
Gênero: Artigo
Data de publicação: 17 de março de 2003
Resumo: A guerra do Iraque e a pestilência dos estados unidos da américa.
Bad Behavior has blocked 21 access attempts in the last 7 days.