Pizza no forno

Artigo por Eduardo Socha
1 de agosto de 2005

É sintomático o descaso geral da população em relação à política, por mais estranho que isso pareça agora, diante dos escândalos que alimentam os altos níveis de audiência da CPMI. De fato, mensalão, mala de dinheiro, dólares na cueca, a “débâcle” obscena da cúpula do PT e o já anunciado “acordão”, plano para colocar panos quentes na bandalheira institucionalizada, vêm assegurando a pauta necessária da grande mídia, a ponto de chamar, para a novela do mensalão, um público que antes nem se interessava pelo assunto.

Mas, se as pessoas estão antenadas na CPMI, é porque ali encontram factóides curiosos, agressões verbais, sarcasmos, piadas, olho roxo do Roberto Jefferson, choro da esposa do Marcos Valério; desenha-se uma nova modalidade de “reality show”. O caso acaba revelando, paradoxalmente, o processo de contínuo afastamento da política. A cobertura é extensa, mas não se vê um debate consistente, avaliando impactos, benefícios e prejuízos das investigações, de modo que estamos assistindo a um espetáculo que tem tudo para terminar em pizza quando os ânimos se acalmarem.

Acontece que uma análise aprofundada, decorrente desse esvaziamento do jogo político, é urgente para a manutenção da ordem democrática. Pois não há dúvida de que existe aí o perigo de um populismo tacanho, uma guinada à Garotinhos da vida. O escândalo dá a perigosa impressão de que não há mais honestidade possível, e daí escapam os fantasmas da descrença e da ameaça à democracia. Aquela palavra de ordem latino-americana “que se vayan todos”, lançada contra toda a classe política, começa a ganhar cada vez mais força.

O aumento no número de votos nulos e em branco demonstra o desafeto à política e o repúdio à participação das decisões públicas. São votos que persistem na lógica do “sei que não vai mudar coisa alguma, e já que todos os candidatos são corruptos, não quero participar desse processo”. Com ou sem eles, porém, decisões são tomadas, cargos são preenchidos. E o que se vê hoje, resulta também desse descaso.

Toda generalização tende a ser um golpe no bom senso, mas é possível arriscar que a maioria dos jovens, por exemplo, acabou se desligando da política. Exceções a parte, estão mais preocupados com as funcionalidades do celular que grava filmes, com suas raves, com seus interesses particulares. Tudo que é de interesse público parece vir com o rótulo do idealismo retrógrado, papo chato dos anos 60, sem muita importância a não ser para a mídia e para aqueles que chafurdam na lama de Brasília. A onda agora é da atrocidade individualista, em que o senso de coletividade dá lugar ao lema “cada um na sua”, como diz a propaganda de cigarro. Quando raro, o engajamento ocorre através de ONG?s, cuja ação geralmente passa por vias afastadas da grande política.

Apesar de mensalão, dinheiro na cueca, e contínuo desrespeito à coisa pública, não sobram alternativas razoáveis à democracia representativa. Por isso, pensar politicamente, criticando as instituições e participando ativamente dos debates, é o único modo de lutar contra os abusos da própria política, contra a barbárie e o populismo. De outro modo, restará, no melhor dos casos, o “reality show” deprimente das cantorias do Roberto Jefferson.


Titulo: Pizza no forno

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Artigo

Data de publicação: 1 de agosto de 2005

Resumo:

estamos assistindo a um espetáculo que tem tudo para terminar em pizza quando os ânimos se acalmarem

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1 Comentário

  1. Francis Newton disse:

    Essa expressão “toda generalização tende a ser um golpe no bom senso” é a famosa frase de Nelson Rodrigues disfarçada (“toda unanimidade é burra”, para os desmemoriados). Enfim, num país onde um político se chama Jacinto Lamas - e os trocadalhos perderam qualquer sentido - política passou a soar como mero desabafo em mesa de bar. Afinal (já que discordo do “apesar” no parágrafo final), o que é “democracia participativa” se não mais um jargão do momento?

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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