Artigo por Paulo Henrique
27 de abril de 2004
É incrível a quantidade de e-mails que recebemos aqui na aPatada, de poetas e poetisas querendo colaborar com o site. São milhares de bits que entram na nossa caixa postal com versos e dizeres: “olha, tenho alguns poemas e gostaria de publicar”. Nada contra os poetas, muito pelo contrário. Dão graça, sentimento e movimento às letras. Mas analisando este fenômeno, começo a perceber que a poesia dita “moderna” se tornou fácil de escrever - e difícil de ler. Prosa continua prosa. Você tem que argumentar, desenvolver um raciocínio, ter (em certa medida) alguma coerência e tal. Mas poesia, não. Se descaracterizou.
Antes que eu apanhe, deixe-me explicar: antes do modernismo, o poeta era um sujeito trabalhador, profundo e aplicado. Para ficar na poesia brasileira - nosso recorte - é só lembrar do jovem Álvares de Azevedo, com sua profundidade e melanciolia real, ou ainda de Olavo Bilac, um ourives dos versos. Estes homens compunham, recompunham, sofriam, viviam e morriam nos seus versos. Mesmo com eventuais problemas estilísticos, havia técnica, lastro, reflexão e trabalho (e muito suor, como diz Bilac).
Aí veio o modernismo. Os caras quebraram paradigmas e trouxeram a poesia para um recanto mais arejado, menos obscuro, acessível aos “pobres mortais”. Manuel Bandeira, Mário e Oswald de Andrade. Só para ficar nos clichês de mini-séries globais. Com versos simples e criativos, os poetas e poetisas desta época se baseavam em um pensamento muito além do seus próprios insights. Eles formavam um movimento maior, com o objetivo de incorporar à arte brasileira, a influência européia, indígena e africana e tentar gerar algo genuíno, consciente e, para o contexto, inovador.
Sensacional. Mas este espírito, lá de 1922, foi se esvaziando até chegarmos ao “pós-modernismo”, quando a globalização cultural passou a ditar os valores estéticos e sociais de todo o mundo. “Tudo em todo lugar”, como diria Renato Ortiz. E esta falta de parâmetros fez com que apenas a forma fosse valorizada, sem pensarmos no conteúdo, no fundamento.
Nesta toada, portanto, ficou fácil fazer poesia. Os modernistas jogaram a idéia, mas esta não foi aprimorada, nem reinventada pela imensa maioria de poetas atuais. A poesia ficou vazia, não faz parte de um “projeto” histórico, que abarca desde o clássicismo métrico-formal do soneto ao suprasumo do hai-kai.
Hoje em dia, o aspirante a poeta não precisa se esforçar (e nem conhecer muito desta arte) para lapidar seus versos. Basta meia dúzia de palavras, um impulso dito “criativo” e pronto: temos a “Arnaldoantunesação” de nossa poesia, sem nenhum método - anarquia disfarçada de “liberade”. É fácil. Por exemplo, se você quer uma poesia concretista, é só misturar objetos com sentimentos ou ações. Assim ó:
Cama, lágrima, panela
a vida à dois
é um chute na canela
Ou então, se o poeta quer alegrar o sarau com sensaçoes exóticas, basta colocar influências indígenas e/ou regionalistas, misturadas com neologismos bobos - de preferência com uma causa social como pano de fundo e expressão corporal ao som de tambores. Tipo assim:
A musica é bat-educar
bat-amar, bat-batucar
nesta selva de pedra
meu curumim segue a cantar
Além destes dois exemplos, existem outras variações que são fórmulas freqüentemente utilizadas:
1 - lembranças da infância, com cirandas, sorrisos, abacateiros e água límpida - que mostra o quão sensíveis ainda somos;
2 - questionamentos profundos sobre a imensidão do universo (de preferência sem nehuma rima, nem métrica: “modernismo”);
3 - versos românticos para mostrar como o amor é algo pueril e a poesia, suave;
4 - sem esquecer a opção de compôr versos que só o próprio autor entende, deixando para os leitores um quê de abstrato e misterioso…
Ah! Tem também a última moda, o fenômeno dos “mini-contos”, onde qualquer poeta pode virar um grande contista:
Uli-sses
Não há Deus?
Então, Adeus.
(em tempo: será que James Joyce faria algo assim?!?!?)
Diante desta facilidade para criar poesias (e agora também prosa), dá para entender quantidade de pessoas que mandam e-mails para a aPatada, com interesse de publicar seus trabalhos. Tudo agora ficou “livre”, sem necessidade de embasamento. Dois ou três pequenos versos já dão corpo para uma poesia. E, sem dúvida, este movimento é uma descaracterização do próprio gênero.
As pessoas, ao lerem Drummond e João Cabral esquecem da obra de vida por trás destes autores, esquecem dos alicerces que foram erguidos pelos próprios (e pelos inúmeros leitores e críticos que também endoçaram este alicerce). Por mais simples que possam soar os versos de “O Urubu mobilizado”, ou alguma lembrança “engraçadinha” sobre Itabira, estas sacadas não foram simples lampejos de criatividade e sensibilidade. Estão além destas virtudes: estão calcadas na leitura, na reflexão, no trabalho profissional e artístico, que produziu uma visão crítica do mundo e, inclusive, incomodou muita gente. Fruto de talento notório e trabalho consistente.
Por isso que aPatada parou de aceitar poetas. Já temos as poesias de Samira Feldman Marzochi e Regina Vilarinhos, além de um ou outro arranhão de alguns colunistas e colaboradores - geralmente habituados com a prosa. Estes versos já são suficientes para dar uma cor ao site. De qualquer modo, quero deixar claro que não estamos tolhindo ninguém, nem sufocando nenhum “talento” desconhecido. Na verdade, ansiamos pelo exercício contínuo do estilo. Incentivamos a poesia bem feita, bem escrita, com referências e com respaldo técnico que justifica a arte. Assim como tentamos fazer com a prosa. Não pedimos nenhum parnasiano, gênio ou purista. Apenas o exercício com consiência, para resguardarmos a qualidade dos escritos da aPatada e o nível de seriedade dos nossos leitores. Ah! E principalmente, protegermos a poesia brasileira - ou o que resta dela:
Num Monumento à Aspirina
(João Cabral de Melo Neto)
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda a hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia…
Titulo: Poesia fácil
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Artigo
Data de publicação: 27 de abril de 2004
Resumo: Modernismo é a desculpa
Texto muito consciente! Relembra o significado da poesia, criticando o moderno sem ser conservador. Parabéns!
Poesia é trabalho (ainda que não dê nem pão nem manteiga a muitos…), poesia dá trabalho, gasta tempo e fosfato dos que lidam com ela. Não sei muito bem de quem é a culpa, mas contra os infratores - felizmente - temos (alguns bons) monumentos à aspirina. BoaPATADA!
PH, seu texto veio em boa hora. Acho que a gente deve se esforçar mais mesmo, estudar poesia, ir a fundo na economia e no significado das palavras, observar se o estilo que apareceu no texto é aquele que a gente queria, se há conteúdo e faz pensar em alguma coisa diferente, se nossa mente anda voando pouco etc. Considero seu artigo um recado que faz relembrar que escrever é trabalho, exige abertura de horizontes e muita leitura. Valeu mesmo esse alô. Precisamos da crítica de vocês… Um grande abraço, Samira
Fiquei lisonjeada pela citação, e me sinto mais poeta do que antes. O assunto é mesmo sério. Já vi este tipo de coisa em outro sites e fica difícil mesmo selecionar. Parabéns pela franqueza.
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“Mesmo miseráveis os poetas,Os seus versos serão bons”.