Artigo por Eduardo Socha
28 de fevereiro de 2005
Talvez pela obviedade da referência, a escolha do novo presidente da Câmara dos Deputados evoca o poema dramático Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto. De narrativa áspera e versos cadenciados pela linguagem popular do sertão pernambucano, o famoso poema conta a sina de um retirante “severino”, palavra que deixa de ser nome próprio para se transformar em adjetivo e coletividade daqueles “iguais em tudo na vida”.
Fala da história de muitos sertanejos, oprimidos pelo coronelismo endêmico e vergonhoso. Fala da busca por alguma dignidade na cidade grande e da miséria que reaparece em cada novo rebento severino. “Iguais em tudo e na sina”, na fome, na sede, na privação, os severinos estão sempre distantes dos centros de poder.
E então, vemos aí um presidente da Câmara que também teve uma vida difícil e fugiu do agreste, só retornando muito tempo depois. História doída. Ao contrário de outros Severinos, porém, este conseguiu, há algum tempo, se aproximar do poder.
Rejeitando lá atrás um caminho político que talvez pudesse amenizar a vida mirrada de tantos severinos, sua trajetória mostra que apenas cumpriu a injusta e secular cartilha da politicagem nordestina. De oprimido virou opressor, e isso podemos reconhecer facilmente, sem riscos de cairmos no maniqueísmo barato.
Naquele Severino, da Serra da Costela, filho de Maria, enxergava-se o descarnado semblante de uma coletividade ignorada, socialmente excluída. Já o Severino Cavalcanti foi eleito aqui como porta-voz do baixo clero, dos “excluídos” da Câmara, da coletividade política que não participa das decisões governamentais. O próprio deputado reclama para si a imagem desta coletividade. Costuma afirmar que ele mesmo representa o “sindicato dos deputados” ? ironia suspeita.
Sem dúvida, Severino não é exatamente a gênese dos problemas nacionais, idéia que a grande mídia parece vender. É apenas mais um doutor do baixo clero. Sua plataforma de campanha, ancorada no aumento salarial e na ampliação de benefícios para os colegas congressistas, soaria patética se ele não fosse agora o terceiro homem mais importante da República.
O fato é que esta eleição comprova a falência do atual modelo de representatividade política, se é que alguém ainda precisava de comprovação. Afinal, já sabíamos que dois deputados por dia trocam de partido, formando uma ciranda partidária e ideológica de “deputados pré-pagos”, o que distorce o próprio conceito de democracia.
Em nome da tal “governabilidade”, o mais importante e respeitável partido da história nacional procura manter a todo custo uma rede de sustentação política baseada no fisiologismo, na prática viciada do toma-lá-dá-cá. Severino pode ser visto como emblema (e não causa) desta era da anti-política, que se arrasta há muitos anos.
“Tsunami político”, disse um jornalista, “pior presidente da Câmara de todos os tempos”, disse outro. Vale, de todo modo, lembrar que a intragável surpresa se deve também ao próprio jornalismo político, que subestimou claramente a candidatura de Severino.
Se a Câmara dos Deputados é o espelho do país, a “casa de todos os brasileiros” (como sugere o mote da instituição), tristes trópicos os nossos, acomodados que estamos a uma realidade política mirrada, rudimentar, vazia de grandes projetos. Uma política, no fim de tudo, severina.
Titulo: Política severina
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Artigo
Data de publicação: 28 de fevereiro de 2005
Resumo: A eleição de Severino comprova a falência do atual modelo de representatividade política. Se é que alguém ainda precisava de comprovação
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um dos melhores textos a respeito.