Quanto Vale

Artigo por Eduardo Socha
30 de maio de 2005

29/5/2005

Sempre é difícil ver um filme de Sérgio Bianchi, e Quanto Vale ou é por Quilo?, lançado neste mês, não foge à regra. A exposição crua do cinismo, que orienta as diversas relações do Brasil não-oficial, e o contraponto permanente com um sarcasmo igualmente cínico e mórbido, derrubam aquele espectador em busca de entretenimento. E, se a denúncia social do filme provoca desconforto, é porque de algum modo reconhecemos nosso envolvimento no mecanismo secular de exclusão e de miséria, pelo menos como cidadãos de classe média, esses que podem freqüentar o cinema vez por outra. Todos nós fazemos parte do processo.

Bianchi não quer saber de exceções. De fato, o filme trabalha o tempo todo com generalizações, de maneira que os personagens incorporam uma coletividade específica, representam figuras sociais e manifestam principalmente seus interesses de classe. Assim, o aspecto psicológico e dramático é esquartejado em favor do protesto, e a ficção vai aos poucos assumindo uma perspectiva documental, como se fosse um amplo retrato do país.

Isso não impede, todavia, a identificação de personalidades e situações particulares que cruzam diariamente as páginas dos jornais. Pelo contrário, é aí mesmo que o filme ganha força. Vemos ali o empresário desonesto, a socialite que ajuda instituições de caridade para lavar a alma, o captador de recursos governamentais, o estrategista publicitário, o vereador corrupto, o matador de aluguel, a criança de rua. Para quem quiser, o noticiário pode muito bem nomear os bois.

Se, em Cronicamente Inviável, Bianchi pretende condensar quase a totalidade do inventário das desgraças brasileiras, em Quanto Vale, sua ofensiva é mais direcionada. Em especial, aqui posiciona-se contra o Terceiro Setor, departamento de grandes empresas que adotam o discurso da “responsabilidade social”, e contra as ONG´s de assistência social. O filme desenvolve dois eixos narrativos claros, sugerindo uma comparação entre a exploração de escravos no século XVIII e a exploração da miséria pelos “empreendedores sociais”.

Uma das narrativas ilustra como, diante da ineficiência do poder público, criou-se um novo mercado que obtém lucro na contínua privatização de benefícios sociais, através da captação de recursos do governo, e baseado em refinadas estratégias de marketing. Ou seja, com financiamento estatal ou de empresas interessadas em melhorar sua imagem junto ao consumidor, surgem instituições que desenvolvem projetos de assistência social, papel que deveria ser do próprio Estado, e acabam sustentando uma indústria cuja matéria-prima é a miséria. Com isso, promovem também uma espécie de “dieta na consciência”, pautada pela máxima “faça a sua parte agora”.

Parece apocalíptico, mas é mesmo, na visão do diretor. A mesma narrativa descreve o escândalo de uma destas instituições, fictícia, que superfatura a compra de computadores para um projeto chamado “informática na periferia”. É a transferência da corrupção para a esfera privada. Na trama paralela, uma senhora agencia a “compra” de uma velha escrava, para se beneficiar com os juros da alforria que pretende lhe vender. A história muda pouco.

Apesar de distorções e exageros (como a proposta incendiária de criar uma “central de seqüestros” como meio de distribuição de renda), o filme tem o mérito da provocação, sobretudo nessa realidade que anestesia o absurdo. Ali, não há esperanças, e ninguém se salva. Talvez nem mesmo o diretor, que inevitavelmente se valeu das leis de incentivo para produzir o filme - fato que não compromete, obviamente, sua notável pertinência crítica.


Titulo: Quanto Vale

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Artigo

Data de publicação: 30 de maio de 2005

Resumo:

Sempre é difícil ver um filme de Sérgio Bianchi. Quanto Vale ou é por Quilo?, lançado neste mês, não foge à regra

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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