Artigo por Leonardo Augusto
13 de agosto de 2005
Tudo bem, a língua é uma coisa viva e dinâmica. Está sujeita a modismos, invencionices e afetações diversas. Isso tem um aspecto positivo, é claro, ou estaríamos entalhando tabletes de argila até hoje. Mas a maior parte dessas novidades não traz evolução alguma, o que se pode interpretar como um darwinismo lingüístico.
Com os adventos da computação e da internet, lá no fim século passado, enterrou-se o português da pharmácia. Primeiro porque temos preguiça de traduzir e usamos as palavras direto do inglês como mouse, ?desktop?, ?home page?, ?site? e tantas outras. Mais grave foi a invenção de um novo modo de escrever: o ?internetês?. Admito que seja mais prático escrever vc do que você, que tem um circunflexo, exige um shift (mais uma) e tal. Mas quando abro um mail (idem) que contém a “palavra” naum, paro imediatamente de ler. Conte comigo: n-a-o 3 letras. Claro, dá muito trabalho acrescentar o til, jogue-o fora se quiser. Mas n-a-u-m tem 4 letras, portanto dá mais trabalho ainda, além de provocar engulhos em qualquer amante da última flor do Lácio (cada vez mais inculta e menos bela). E um velho ditado diz que “o costume de casa vai à praça”. Em pouco tempo, não saberemos mais escrever, vai valer qualquer coisa. Imagine um corretor do exame da OAB como deve sofrer. Eu já vi ?interessam? trocado por ?interessao? e outras tosquices (outro modismo) que encheriam um catálogo, portanto paremos por aqui.
Há também as muletas verbais, usadas geralmente para “falar bonito”. O ?a nível de? talvez já esteja ultrapassado, mas não morto; mas proliferam ainda o ?onde?, que virou conjunção, preposição, advérbio de qualquer natureza, enfim um verdadeiro coringa; ?no sentido de? talvez não seja errado, mas repetido ad nauseum, irrita; assim como ?enquanto?: a palavra enquanto arma, o cidadão enquanto pateta… Nessa mesma categoria se enquadra o gerundismo, mas melhor nem começar…
Outro capítulo são os neologismos. Assim como eu, um grande rabugento, Carlos Heitor Cony, (com o perdão da esdrúxula comparação) conta que uma vez um escritor lhe pediu um prefácio para ?alavancar? as vendas de seu livro. Cony, é claro, mandou-o alavancar a própria mãe. Já nem assusta ouvir aquela palavra, mas que tal ?fidelizar?? É preciso fidelizar o cliente! Ora, vá fidelizar sua esposa primeiro! Tenho escutado muito ?instrumentalizar?, que já está se tornando aceito. Algum lexicógrafo aí pode me ajudar a entender esse pequeno monstro? Se não tomarmos cuidado, seremos brevemente obrigados a falar (ou ouvir pelo menos) ?epistemologicalizável?. Outros neologismos são também conseqüência da informática: escanear, atachar, linkar. Este é terrível; conte comigo mais uma vez: l-i-g-a-r, 5 letras e legitimidade etimológica incontestável (nosso ?webmaster? e latinista de plantão pode ajudá-los). Agora l-i-n-k-a-r, ou l-i-n-c-a-r se preferir, tem cinco letras e um som horrível. Sem falar no que é perpetrado em nome da arte. Não lembro nenhum exemplo agora, mas certas pessoas deveriam ter a licença poética revogada. Já o saudoso ministro Magri cunhou um neologismo prático e fundamentado, o famoso imexível, e foi ridicularizado. Nenhuma outra palavra dá o sentido exato de imexível, nem inalterável, nem intocável, nem nenhuma que eu consiga pensar.
Para não ficar para trás, vou propor também algumas palavras novas, que facilitarão sua vida, ou eriçarão os pêlos da sua nuca, ou o farão rir pelo menos (que pretensão!). Por que não pedimos uma pizza de francatupiri, já que essas palavras já são quase indissociáveis? Ou um refrigerante com gelimão? Mandem-me novas sugestões.
Titulo: Rabugices Lingüísticas
Autor: Leonardo Augusto
Gênero: Artigo
Data de publicação: 13 de agosto de 2005
Resumo: Notas de um jovem rabugento
Engraçadas essas rabugices, o texto ficou bem legal. Sobre a preguiça de traduzir alguns termos (especialmente da informática), dê uma olhada na questão “anglicismo e outros empréstimos” da Académie française: http://www.academie-francaise.fr/langue/questions.html#anglicismes
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Nossa, você é do meu tempo!