Artigo por Alex Leão
23 de janeiro de 2003

Ernest Archdeacon, advogado e novo presidento do Aero Clube da França, cumprimentava o piloto efusivamente, em meio a uma entusiasmada e maravilhada multidão. Ele havia instituido um prêmio de 3000 francos para o primeiro homem que pudesse levantar e controlar um aparelho mais-pesado-que-o-ar por 25 metros de distância.
Eu venci? Eu venci? Perguntou, ancioso, Santos-Dumont. Foram 60 metros. A repercusão foi inimaginável, a maior possível para a época, em todos os lugares. As maiores autoridades em aeronáutica reconheceram que fora provada a possibilidade do vôo do mais-pesado-que-o-ar. Os principais jornais da Europa e Américas noticiaram a conquista dos ares.
No dia 10 de novembro, o Aeroclube da França promoveu um grande banquete comemorativo no Café de Paris, no qual o Prêmio Archdeacon foi entregue a Santos-Dumont. A saudação ao pioneiro coube ao próprio Ernest Archdeacon, ele também um pioneiro, tanto do automobilismo como da aeroestação e um entusiasta da aviação:
"Eis um homem jovem e rico que, em vez de usar sua energia e gastar seu dinheiro com os prazeres fáceis que se oferecem a todo instante aos afortunados deste mundo, põe toda sua energia e dinheiro a serviço de uma grande idéia e de um grande progresso.
Isso já era bom, mas o melhor está nas experiências em que ele é tudo - sim, Santos-Dumont é tudo: é o financiador, o engenheiro, o operário e, enfim, o piloto - e nas experiências em que a cada vez arrisca sua vida - é verdade que ele acaba sempre por escapar ao perigo graças a sua prodigiosa habilidade, acompanhada de um incomparável sangue-frio.
Se eu fosse capaz de pecar por inveja, eu hoje invejaria meu amigo Santos-Dumont, que acaba de conquistar, certamente, uma das mais belas glórias que um homem pode ambicionar neste mundo. Ele acaba de realizar, não em segredo ou diante de testemunhas hipotéticas e complacentes, mas à luz do dia, diante de 1.000 pessoas, um soberbo vôo de mais de 60 metros, a três metros de altura, que constitui um passo decisivo na história da aviação.
Para tal, empregou tão-só, como havia sido previsto, os meios conhecidos, mas empregou-os da melhor maneira, com uma extraordinária simplicidade de execução.
Santos-Dumont acaba de dar uma terrível lição de iniciativa e de energia a muitos engenheiros registrados, que passaram tolamente - e por preconceito - ao largo do progresso, se bem que dispusessem dos meios materiais de execução de que Santos, por sua vez, não dispunha.
Nosso amigo, porém, não foi jamais tentado a ser engenheiro; é um homem que quer o que quer com uma tenacidade sem par, e que experimenta, ademais, até conseguir, - e ele conseguiu!
Oh, agora, os imitadores não tardarão a surgir! Aposto mesmo, de bom grado, que muitos dentre eles declararão que o que Santos-Dumont fez 'não é mau', e que, se as numerosas ocupações deles lhes tivessem permitido, eles teriam feito o mesmo. Mas não…! 'Pois, meus senhores,' retrucarei 'vocês n?åo fizeram. E agora,' direi ainda 'se alcançarem amanhã experiências bem-sucedidas, serão sempre mais ou menos plagiadores e lucrarão, sem abrir suas bolsas e sem cansar seus cérebros, com os resultados obtidos por um outro, à custa de muita luta e dinheiro.'
Já eu, após a experiência de Bagatelle de 23 de outubro, tendo visto o que vi, predigo que a questão vai andar a passos largos, mais rápido mesmo do que eu esperava nos meus sonhos mais otimistas.
Santos-Dumont fez 60 metros aos 23 de outubro, mas são esses 60 metros que eram os mais difíceis".
Titulo: Se eu fosse capaz de pecar por inveja…
Autor: Alex Leão
Gênero: Artigo
Data de publicação: 23 de janeiro de 2003
Resumo: Homenagem emocionante do presidente do primeiro aeroclube do mundo ao piloto do primeiro avião da história.
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