Slug of cachaça

Artigo por Paulo Henrique
18 de maio de 2004

Continuando a série "política-etílica" acerca do caso de difamação do jornal New York Times contra o presidente Lula, também vou fazer minhas desqualificadas considerações deste episódio idem. De preferência, com algumas doses de conhaque na cabeça.

De cara, o que me chamou a atenção na matéria do Larry Rohter foi a redação: até agora não entendo com um jornal "sério" como o New York Times pôde publicar um texto com tiradas tão engraçadas. Vai ver porque era edição de domingo, mais voltada ao entretenimento. O jornalista usou termos quentes como "slug of cachaça" e ainda resgatou a expressão "I drink because it's liquid", atribuída a Jânio Quadros. Sem contar no projeto de batizar o novo avião presidencial de "Pirassununga 51". Acho que nem os Cassetas conseguiriam concentrar tantas sacanagens em um só texto.

As fontes também são um caso a parte. Leonel Brizola? Imagino como este nome soa estranho para o americano médio. "Brizola". Coisa de América Latina, bem ao estilão da "República dos Bananas" de Woody Allen. Além desta fonte tão fidedigna quanto o tal Brizola, outra referência utilizada foi o colunista Diogo Mainardi, da Veja. Realmente Mainardi é um cara inteligente e tem seu espaço garantido na revista semanal mais influente do país. Mas levá-lo à sério, isto é outra coisa. Citá-lo sem qualquer contextualização, então, é um perigo. Ah! Não vamos esquecer que Rohter também utilizou como fonte "políticos e jornalistas". Matéria nebulosa, poucos editores aprovariam esta pauta.

Mas então porque o NYT publicou e ainda defende editorialmente este mal exemplo de jornalismo? Nem parece o mesmo NYT descrito por Gay Talese, em "O Reino e o Poder", onde ele mostra o rigor quase científico dos editores e repórteres do jornal em relação às suas fontes e pautas. Um primor, dá quase orgulho de ser jornalista. Mas as páginas do mesmo livro também revelam a influência da empresa na história americana. E nestes casos o jornalismo vai para as cucuias. Dá vergonha de ser jornalista.

E este foi mais um episódio "sem-vergonha". Há, claramente, uma força-tarefa envolvendo grandes jornais americanos para desqualificar o presidente Lula. Para ficar só na análise superficial, o NYT (juntamente com outra recente matéria do Washigton Post, sobre o suposto projeto nuclear brasileiro), levantaram informações para colocar o Brasil na vitrine mundial. Acusações infundadas forçam uma resposta do país que, por decôro, deve tomar uma posição soberana. Bingo. Típica atitude cínica: o acusador imputa fatos infudados para provocar uma reação imediata do acusado, e depois vitimizar-se diante desta reação. Tem sido assim com a legítima defesa do Brasil contra o processo de abertura de seus os segredos nucleares e com a negação de prorrogação do visto de Rohter. Ou vocês acham que foi coincidência o visto do jornalista estar vencendo no momento em que a matéria foi publicada?

O Brasil tem entrado em um processo kafkiano diante do poderio midiático norte-americano. É bom que a competente equipe de relações internacionais do Lula esteja preparada para esta batalha e não se complique com atitudes precipitadas. A luta para aprovação de remédios genéricos em âmbito mundial; as petições na OMC para retirada de subsídios abusivos no setor agrícola; ou ainda a briga pelo direito de desenvolver tecnologia nuclear própria - sem fins bélicos, ao contrário da pública política norte-americana - são alguns rounds que o Brasil tem se saído bem. Nada mais que rounds. No entanto, com estes recentes episódios, temos nos enroscado na teia de informação manipulada que os EUA geralmente fazem com seus desafetos: rumores de armas químicas, de ditaduras sangüinárias e expansão do comunismo já foram combustíveis para tristes guerras no século XX.

Mas parece que não tem jeito. Os poucos países que vão contra o puritanismo e os valores americanos - valores como "liberdade", "ética" e "imparcialidade", distorcidos à sua revelia - sempre têm ressacas complicadas, que nem Engov dá jeito. E parece o Brasil tem dados altos "slugs" nesta bebida amarga. E, justamente neste ponto, estou com o presidente: gosto mais da nossa boa e velha cachaça.


Titulo: Slug of cachaça

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Artigo

Data de publicação: 18 de maio de 2004

Resumo:

Cana-de-fel

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1 Comentário

  1. Alexandre Piccolo disse:

    Hehe, bem etílica toda essa política e/ou, hic!, vice-versa…

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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