Artigo por Mário Neto
15 de abril de 2004

Assisti há poucos dias o tão falado "A Paixão de Cristo" e vou arriscar alguns comentários. Aviso, de antemão, que não quero criar polêmica.
Mas, pensando bem, talvez seja inevitável. Tudo aquilo que está relacionado à crença das pessoas, como a existência de vida em outros planetas ou de uma força toda-poderosa que nos guia, sempre será controverso e passível de inflamar ânimos e vozes. Portanto, tentarei ser rápido.
Uma das marcas do filme, e nisso talvez eu não esteja dizendo nenhuma novidade, é a violência e o sofrimento por que passa Jesus até ser crucificado. As cenas de tortura e as marcas no corpo falam por si só. Aqui, pelo pouco que li a respeito do filme na mídia, reside uma das polêmicas. Alguns clamam realismo: as coisas realmente eram assim, Jesus apanhou mesmo daquela maneira, se não ainda mais. Desse modo, isso mostraria como ele realmente sofreu pela humanidade, como teve que suportar dores que seriam insuportáveis a outros mortais. Outros clamam exagero: mesmo que ele tenha sido tão torturado, não é preciso explorar essa excessiva violência em um filme. Bastaria a sugestão, assim como muitos filmes fazem com suas cenas de sexo.
Eu não tive qualquer dúvida: as torturas, as cenas de violência explícita, essas são parte fundamental do filme. Estão ali porque querem dizer algo. Há cenas, especialmente as do momento em que Cristo é torturado, que são claramente opcionais, mas que estão presentes. Sem contar que é perfeitamente possível abordar outros pontos de vista sobre as últimas horas da vida de Cristo: seus pensamentos, suas memórias, seus apóstolos, o sofrimento de sua mãe, etc.
Há, sim, uma ênfase no sofrimento; na violência que lhe foi praticada e na forma como teve que suportá-la. É nesse momento que cabe a mensagem do filme: é por ter suportado esse sofrimento, da forma que suportou, que temos a confirmação de sua divindade. Quem é que consegue suportar tamanha surra e, mesmo assim, continuar se preocupando com os demais? Como é possível um homem inocente apanhar tanto, ser humilhado, surrado, torturado e judiado, sem levantar a voz uma única vez? É, portanto, sua capacidade de ter sofrido com resignação frente aos homens que o faz realmente divino. É o sofrimento que parece legitimar e confirmar seu poder extra-terreno.
Confesso que, durante o filme, me perguntei se torturas e humilhações tão violentas quanto aquelas não aconteceram tanto na época de Cristo quanto em outros momentos da história. Apesar da dúvida, respondi que sim. Desse modo, se seguirmos a mesma lógica do filme, poderemos encontrar na história outras pessoas tão divinas quanto Cristo, se consideramos o sofrimento a que foram submetidas.
Deixo aberta a polêmica.
Mário de Souza Neto respeita toda e qualquer forma de crença. Não abre mão da liberdade - com respeito - de dizer o que pensa e de questionar certos valores, inclusive seus próprios.
Titulo: Sobre ‘A Paixão de Cristo’
Autor: Mário Neto
Gênero: Artigo
Data de publicação: 15 de abril de 2004
Resumo: Apenas algumas impressões…
Gostei Marião. Minha visão, particularmente cristã, sobre a mais nova obra do Mel Gibson faz-me acreditar que este filme não foi lançado por acaso, considerando-se a trágica época que o mundo hoje vive…Abração!
Bela análise Mário. Concordo com tudo o que vc disse. Somente discordo no finalzinho, pois não acho que o sofrimento (por si só) é o elemento que alça Jesus na condição de divindade. Seria muito pouco. De acordo com a Fé Cristã, Jesus é Deus por tudo o que antecede este sofrimento (“No princípio era o Verbo…”); o seu ministério; sua resignação diante da do sacrifício (o Cordeiro); e a vitória sobre a morte (a ressureição), fato definitivo que legitima a Salvação e diferencia Jesus Cristo de todos os demais seres humanos. De qq forma, como vc disse, mesmo sem querer vc levantou a polêmica. Mas - é bom ressaltar - vc a levantou com muito cuidado, temperança e clareza de estilo. Parabéns!
Mário, prefiro o começo do texto, sem a vontade de criar polêmica - ainda que isso seja difícil (se não, impossível). A meu ver, a faceta “divina” da história ficou de fora do filme (ou foi mostrada apenas nos segundos finais - anteriores aos créditos, é claro) e a violência, notadamente excessiva, simplesmente anestesia sentidos importantes em espectadores de qualquer história.
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