Um certo senhor Speer

Artigo por Márcio Sampa
8 de maio de 2003

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Palanque projetado por Speers,
onde os líderes nazistas proferiam
seus discursos.

Em meados dos anos 30, Albert Speer era apenas um jovem arquiteto sonhando com o que sonham muitos jovens hoje em dia. Sonhava com fama e realização profissional.

Além de competente, Speer teve a felicidade de estar no lugar certo, na hora certa. Algo também conhecido como sorte. Isto porque, com a ascenção do Partido Nacional Socialista ao poder, o jovem arquiteto foi guindado à condição de auxiliar dentro da equipe que planejou a grandiosidade dos Jogos Olímpicos de Berlim.

Assim como ocorre hoje em eventos semelhantes, se dizia que seriam os maiores jogos de todos os tempos. A intenção era marcar a presença do Reich de mil anos. Seus estádios deveriam ser vistos no futuro com o mesmo espanto e admiração que dedicamos às ruínas das antigas civilizações.

Com a morte do chefe dos arquitetos, o jovem Albert foi bafejado de vez pela sorte. Foi nomeado para o seu lugar e, após as Olimpíadas, estaria encarregado de organizar as grandes paradas. Nelas a grandeza do povo alemão deveria sobressair-se. E o competente arquiteto elaborou as magníficas praças, gigantescos palanques e maravilhosas flâmulas, que deveriam ser conduzidas pela juventude hitlerista. Tudo perfeito, moderno, inesquecível.

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Uma das gigantescas paradas
planejadas por Speers

Quando a guerra se inicia, Speer é mantido por um tempo à frente das paradas e grandes discursos do Füher, mas com os revéses no norte da África e no Atlântico Norte suas habilidades técnicas são requisitadas para organizar a indústria da guerra. Como brilhante profissional que é, o arquiteto não recusa a oportunidade de mais uma vez provar sua competência. Auxiliará decisivamente no desenvolvimento de uma nova geração de tanques e submarinos, que ajudarão a prolongar o combate por longos meses.

Ao fim da guerra, Albert Speer foi preso e condenado a mais de vinte anos de prisão. Durante o julgamento, em Nuremberg, ao ser perguntado sobre seu envolvimento com as atrocidades do regime, afirmou puerilmente que apenas fazia seu trabalho, que nunca soube de nada, que suas únicas aspirações eram profissionais. Cumprida a pena, deixou a prisão para morrer pouco tempo depois completamente esquecido.

Provavelmente o arquiteto nunca tenha visto uma peça de Brecht ou lido Fausto, de Goethe (aquela personagem que vendeu a alma para o Diabo). Nunca tenha lido Kant e suas considerações sobre a Verdade. Speers não precisava de nada disso, pois seu único objetivo, como brilhante profissional que era, sempre foi o de se dar bem na vida. Como sonham, honestamente, muitas pessoas hoje em dia.


Titulo: Um certo senhor Speer

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Artigo

Data de publicação: 8 de maio de 2003

Resumo:

História do arquiteto alemão que se esqueceu de aliar a Ética à competência profissional.

5 Comentários

  1. Bruno disse:

    Que animal esse texto! Destacando a questão da ética profissional e a responsabilidade social, termina sutilmente com a ambição desmedida que a gente sempre vê por aí. Em pequenas ou imensas proporções, sempre há uma conseqüência. A do trabalho de Speer foi o holocausto e a guerra. E a nossa, qual será?

  2. Mário disse:

    Gostei. Por um lado concordo com o Gianelli, é difícil explicar tais feitos por uma simples busca de sucesso, mas por outro a reflexão é atual e também antiga. Boa Sampa…

  3. Giannelli, Marco disse:

    Interessante a ressurreição de um personagem tão abatido no viés da história, mas não deixa de ser excitante o debate. De minha parte, acho simplista considerá-lo um homem que ambicionava sucesso a qualquer custo. Não sei se isso se coaduna com o fato de ele ter visitado o führer seis dias antes de sua morte, sabendo que poderia ser fuzilado por não ter acatado a diretiva de Hitler chamada de “terra arrasada”. Talvez o seu verdadeiro perfil ainda esteja soterrado nos escombros do que viria a ser a Capital do Mundo, Berlim, projeto tão caro ao arquiteto e Ministro de Armamento do Reich.

  4. Alexandre Piccolo disse:

    Muito bom, Sampa, muito bom mesmo. No frenesi profissional do mundo em que vivemos, esta reflexão sobre o “se dar bem na vida” a qualquer custo é muito mais que necessário e válida, é a percepção sólida de quem tem valores humanos bem calcados. Curti muito, Sampa!

  5. PH disse:

    Legal você ter levantado este assunto, Sampa. No documentário “A Arquitetura da Destruição” - que vc já deve ter assistido - são detalhados os aspectos da obra de Albert Speers, bem como os magníficos projetos para a Grande Berlim, que nunca foram realizados. Fica aí a dica para os leitores que leram seu artigo.

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Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

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