Um outro mundo é possível? (Conclusão)

Artigo por Márcio Sampa
21 de janeiro de 2004

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Grupo participa de uma dança
circular ao ar livre .

Os anos que precederam a continuação da Grande Guerra – segundo Eric Hobsbawn, o século XX não teve duas grandes guerras e sim uma única, com um intervalo de vinte anos – foram pródigos em rumores e prognósticos que apontavam a retomada dos conflitos como iminente. A Inglaterra resolveu seus problemas de desemprego, gerados pelo Crash de 29, empregando cada vez mais gente na indústria armamentista. Razão pela qual foi a única nação européia capaz de resistir a avassaladora Blitzkrieg nazista. A Guerra Civil Espanhola foi vergonhosamente utilizada como campo de testes para as novas táticas e armamentos. No plano dos cidadãos comuns, famílias judias se mudavam com freqüência da Alemanha com direção à França e ao Novo Mundo, pressentindo o hálito nauseabundo do Holocausto que se aproximava. Infelizmente, a maior parte das pessoas e dos países pagaram para ver, e viram: um número incalculável de mortos - alguns falam em 30, 50 e até cem milhões, somando-se as duas carnificinas.

Guardadas as devidas proporções na comparação e sem messianismo, é pouco provável que o modelo neoliberal sobreviva por muito mais tempo. A queda do Muro de Berlim lhe deu uma sobrevida, mas não resolveu seus problemas estruturais, como já analisamos brevemente no artigo anterior. Ocorre que, a exemplo do que aconteceu às vésperas dos anos de chumbo, muita gente já vêm pensando e buscando alternativas, tanto no plano individual, quanto no coletivo. É a busca por um outro mundo possível.

Nos próprios Estados Unidos, berço do capitalismo e do individualismo exacerbado, têm surgido em muitas escolas movimentos que procuram resgatar valores humanistas. É o caso dos jogos cooperativos. Todo mundo que gosta de jogos sabe que o objetivo dos mesmos sempre é a vitória de um em função do esmagamento de muitos. Uma espécie de darwinismo lúdico. Pois bem, nos jogos cooperativos todos ganham. O objetivo é construir relações de parceria e confiança. Se você ganha, eu ganho, todos ganhamos. Ao invés de jogos de guerra ou de cobiça monetária, sobre o tabuleiro simula-se a construção de uma sociedade justa e eqüitativa.

Os jogos cooperativos também podem ocorrer ao ar livre com o emprego de bolas, argolas e toda sorte de objetos que todos possam compartilhar, e não lutar para ter sua posse exclusiva ao custo de arranhões, rasteiras, cotoveladas e toda sorte de artifícios que possam levar à “vitória”.

Outra tradição ancestral que vem sendo resgatada e que pode ser encontrada nos parques de cidades como São Paulo (a mais capitalista das cidades brasileiras) são as Danças Circulares. Nessas danças o objetivo é o contato físico harmonioso entre as pessoas, a troca de olhares e o aprendizado de novos passos e movimentos que todos possam executar. Todos são convidados a participar e não existe a preocupação de se “identificar” a pessoa que está dançando ao lado. O importante é a satisfação compartilhada.

No campo econômico a Argentina saiu na frente. O país tem uma economia paralela ao modelo mercantilista, são as feiras de trocas. Nesses locais troca-se de tudo: trabalho por bens, bens por bens, trabalho por trabalho. O dinheiro foi abolido das transações. Uma volta ao escambo que está fazendo escola. Em terras brasileiras já existem feiras similares.

O Instituto Pólis, entidade alemã com ramificações em diversos países, publicou recentemente um levantamento feito em mais de dez cooperativas espalhadas pelo Brasil. São cooperativas de trabalho e produção que trabalham dentro de uma perspectiva de geração de renda e extração dos recursos naturais, pautadas pelo respeito aos indivíduos e ao meio ambiente. Como se sabe, nas cooperativas não existe a figura do patrão, pois todos participam dos processos de produção e decisão.

Enfim, estes são apenas alguns exemplos dos esforços que diversos grupos, em diversas regiões do planeta, vêm fazendo para viver com qualidade e felicidade. Utopia? Idealismo exacerbado? Como diz o Maluco Beleza em uma de suas canções, “sonho não é sonho quando se sonha só”. Um número crescente de pessoas vêm sonhando cada vez mais para tornar o sonho de um outro mundo, possível.


Titulo: Um outro mundo é possível? (Conclusão)

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Artigo

Data de publicação: 21 de janeiro de 2004

Resumo:

As alternativas econômicas e culturais ao modelo neoliberal existem. Aqui, algumas delas.

1 Comentário

  1. Alexandre Piccolo disse:

    O mundo que construímos é este, orgulhemo-nos ou envergonhemo-nos. Sonhá-lo diferente ainda é possível e permitido; fazê-lo, real e agora, é outra história…

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Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

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