4 por quatro

Conto por Alexandre Piccolo
26 de janeiro de 2004

Desta vez Abigail pensou na morte como pensava em tomar banho. Em meio aos soluços, assegurou-se que não queria cortar os pulsos e sangrar na banheira, ou se afogar mar adentro, tinha pavor d'água, a idéia de um simples afogamento lhe causava indigestão. Desejou se enforcar, ter à mão uma corda, fácil: a cadeira do quarto lhe serviria de cadafalso e seus pés gordinhos, o carrasco. Simples. Por fim desistiu da idéia, no teto liso não havia sequer como amarrar um fino barbante. Lembrou-se então do veneno para ratos na dispensa ao fundo da casa, aquele vidro escuro e sua ameaçadora caveira que lhe parecia sorrir, irônica e malévola, desde criança. O irmão, quando pequeno, empilhara móveis e cadeiras e escalara a prateleira rumo ao temido veneno, brincadeira desajuizada de infância, fazendo-a cúmplice fraterna da travessura. Quando o pai os surpreendera e o pequeno caiu das alturas, já quase alcançando o perigoso brinquedo, quebrou o braço e o acidente a remoeu em culpas e remorsos intermináveis, apenas por não ter lhe avisado o intruso inoportuno. A memória vaga lhe apertou os olhos com candura e, num piscar estes se enterneceram, ao fim, num sorriso, parco.

Levantou-se da cama num impulso. Por um instante viu a tomada do abajur aberta à sua frente e, de dedos abertos, quase a atacou para se eletrocutar. A mão débil parou no ar, a dedos de sua descarga vital, tempo o bastante para se dar conta do fracasso e se envergonhar. Envergonhou-se de ser Abigail, de existir como a criatura que era, da falta de coragem diante da vida, diante da morte, diante das escolhas que se impunham a cada piscar d'olhos frente seu curto nariz. E não importava quão curto, reduzia-o para não enxergar melhor, para não encarar com precisão as decisões de momentos únicos e irrefreáveis. Não se matava, não tinha vontade de continuar. Mordeu-se e chorou. Caiu novamente na cama, desta vez com uma pistola armada à cabeça, não tremulou nem duvidou, puxou o gatilho e, ao ensurdecedor estampido da bala que deveria perfurar-lhe o cérebro e terminar sua simples existência, se deu conta que cutucava um lápis nas têmporas, covarde como sempre fora. Arfou desconcertada e entrou no banho para tentar escorrer-se como sabão e água suja ralo abaixo. Sono, pouco restaurador, porém mais um sono.

No dia seguinte, visivelmente perturbada pelo choro, maqueou-se para enganar os outros e um pouco a si. Foi ao trabalho, as conversas de corredor em nada ajudaram, enrolou o tempo como sempre, e mais uma vez não apareceu ninguém. Voltou no horário de sempre, fez uma caminhada rotineira e jantou pouco, como convinha. Foi ao quarto, sentiu o amargo do dia anterior no fundo da garganta, quis chorar mas não chorou. Rasgou a carta de seus tormentos em pedacinhos, lavou as mãos e o rosto e preparou-se para dormir. Amanhã faria 36 anos, um ano mais velha. Veria os irmãos, os parentes, ganharia algum presente, certamente se distrairia. Novidades? Pouco provável, já não mais esperava surpresas, tampouco tristezas. No fim, um dia a mais. Um choro e um sorriso a mais, sem medos verdadeiros ou uma coragem impulsiva, até decidir tomar as rédeas da vida, domá-la, atiçá-la ou refreá-la, como a gente sonha sempre fazer. Menos Abigail.


Titulo: 4 por quatro

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Conto

Data de publicação: 26 de janeiro de 2004

Resumo:

Quarta e última (ufa!) parte da História em quatro partes.

2 Comentários

  1. Marilda Piccolo disse:

    Alê, quem é diferente de Abigail, ou Janete ou João? Ninguém: todas nossas aflições são miúdas e imensas. No entanto, vc tem retratado isso literariamente de um modo fantástico. (Ufa!Dizemos nós, leitores, pois foi gratificante…) Beijos, Marilda

  2. PH disse:

    Grand Finale! Entre tantas opções de fugas definitivas, ou mesmo as fugas provisórias de até então, Abgail acertou na sua escolha: ser menos Abgail. É como aquela música do Led. Espero que ela consiga de fato. Parabéns pela trama. Madura e consistente.

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