A Brancura

Conto por Fabiana Tonin
28 de fevereiro de 2004

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A minha cidade fantástica, tão lisa, era, acima de tudo, uma cidade branca em plenitude: desde o Tempo, desde o primeiro segundo imaginado, tudo tão branco quanto o nada. Agora, minhas pernas seguiam sozinhas por entre a paisagem gosmenta, esgarçada, que havia sido deixada por outros homens. Atrás dos muros existem aranhas enormes que tecem vidas, logo adiante detrás da catedral, uma menina morta dorme (ninguém sabe que ela está morta!), porque também os mortos têm sua dinâmica. Tenho medo dessas criaturas, nem toda geometria, nem todas as pirâmides e seus faraós transparentes sabem me explicar o porquê disso tudo. No entanto, persisto. Se vagar um pouco mais, chegarei àquela travessa insossa no final da praça desfolhada por pássaros e rancores. Ali, logo ali . Dois passos. Mais um. Aqui. Não perdeu o cheiro, é baunilha. E pensar que tudo acabou ! O altar está despedaçado, meticulosamente destruído, e entre suas tábuas dormem gatos pardos como olhos de gueixas. A menina morta esconde uma esquadria de lembrança…Afinal, fiz dessa destruição o meu altar e, alguns anos ? luz atrás, ela esteve aqui. Rasgou a musselina, esparramou pérolas e blasfêmias, desfiou a renda e deixou toda a brancura do vestido passar para esta era. A única cor era a de seus lábios: carmim. Ela chorou. Eu chorei. O casamento esbranquiçou antes mesmo da noite chegar. Nunca mais a vi. Na verdade, meus olhos sempre estiveram cegos . Mas a minha cegueira é uma cachoeira , e eu sei ver através do espelho d?água .

Penso que toda essa forma não vale a existência que tem. São tantas pontes , tantos círculos que errar é seguir a mais reta das orientações. Se eu for em frente, terei que reaprender a geometria. Porque as medidas não são justas, sequer lógicas . Era justo eu ter sido abandonado? Por mais que o abandono seja um quadrilátero típico e pálpavel ocupado no vértice extremo pela noiva chorosa e arrependida? Justo? Não, geométrico. Então meçam essa branca cidade! Calculem as diagonais que se curvam esquinas a fora, as pontas coníferas das torres inchadas, os corpos oblongos dos desentendimentos, mestres bêbados largados na fonte ali, aquela cheirando a água nova, logo ao lado do arco do triunfo de Mefisto.

Desisto. Mas continuo vagando. A noiva talvez já tenha morrido, embora a tarde permaneça pulsando. Os homens têm sua civilização pobre; a verdadeira não foi mostrada. Começa num túnel, abaixo da menina morta, ao lado da catedral, à esquerda dos meus sonhos. Perdi uma porta da vida quando ela disse não. Quis continuar e fiquei ao céu aberto, esperando que também estrelas abrissem qualquer sorriso, aquele que ela, minha noiva, não ousou florir. Por fim, a noite encruou e só permaneceu límpida a branca tez desse meu gosto. Não me recuso a percorrer estradas, tampouco amargo a dor da rejeição. De repente, tudo é muito leve, eu sou parte desta que é a mais branca das pirâmides; a madeira não ousou apodrecer (não macularia a branca face dessa que é a mais ebúrnea verdade). Não sei como não fui absolvido ainda. Então, a música. As estrelas se abrem, sinto um ponto negro em mim. A cegueira se foi: a menina morta ousou acordar e uma aranha teceu um Tempo. É tarde e a neve não vê, é cor da manhã. Branco, padeço. Branco, vagueio.


Titulo: A Brancura

Autor: Fabiana Tonin

Gênero: Conto

Data de publicação: 28 de fevereiro de 2004

Resumo:

A minha cidade fantástica , tão lisa , era , acima de tudo…

3 Comentários

  1. leo disse:

    literatura de primeira parabéns

  2. Mário disse:

    Com tantas leituras, estou com comentários mais curtos. Excelente. :^)

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Apesar de toda poesia, toda geometria, todo simbolismo e toda brancura, “Desisto. Mas continuo vagando”…

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Quem é Fabiana Tonin?

estudante de Letras, leitora quase assídua de tudo.

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