A chuva e o desabafo

Conto por Alexandre Piccolo
4 de maio de 2003

Jonas aguardava calado e triste por mais um passageiro naquela noite. Fazia frio e uma fina garoa incomodava quem transitava por ali. Jonas queria ficar dentro do carro, saco de chuva, mas a opressão de suas lembranças pediam ar, ainda que frio e úmido. Nesse entra e sai, um engravatado chegou:

- Pra paulista, por favor.

O taxista esboçou um sorriso sem graça, mistura de educação e tristeza. O executivo entrou no banco de trás, quieto e atento. Seguiram calados por um bom tempo até que o executivo, incomodado ao estranhar o silêncio inusual num taxi, comentou:

- Chuvinha chata, hein?

- É, chata…

Novo silêncio, curto e constrangedor. O passageiro tenta puxar conversa:

- Noite cheia?

- Minha mulher morreu ante-ontem.

- Hmmm… meus pêsames.

Replicou com a educação calculada, ainda que inesperada a notícia. De volta ao silêncio. A chuva continuava, imperceptível, como a angústia silenciosa de Jonas.

- Era ali, o senhor deveria ter entrado ali atrás.

- Ô, desculpa, tava distraído… Entro na próxima.

Emburrou consigo e apertou a pasta contra o peito, o taxista percebeu pelo retrovisor. Engoliu resignado o descaso, mais um executivo endinheirado e arrogante mesmo… Chegaram ao destino, o passageiro pagou sem agradecer e desceu correndo quando Jonas esboçava um “boa noite” que ficou pela metade da intenção. Teve sorte ao chegar: quatro rapazes bem vestidos, prontos para as badalações da noite, correram em direção ao taxista.

- Vinte reais até a Vila Madalena, tio? - indagou o mais alto deles.

Vinte é pouco, mas melhor do que nada… A confirmação com a cabeça bastou. Ele calado, eles eufóricos. Entraram dois gordinhos de cabelo quase raspado e um baixinho magrelo atrás. O mais alto, corcunda, foi à frente, já mexendo no som e aumentando o volume:

- Anda rápido, tio, senão a gente chega atrasado!- reclamava o corcunda

- Pode deixar - ensaiou quieto e consigo Jonas.

E observava opresso aqueles rapazes, ricos, sorridentes, sonhadores, com toda uma vida cheia paixões pela frente, e ele com a lembrança insuportável de sua Joana, linda…, dor atroz, perfumada… e havia partido, para todo o sempre. Um vazio parecia lhe afogar o coração. Nunca mais voltaria para casa e a encontraria dormindo no sofá de camisola com a tv ligada… ou esperando-o pra jantar, a mesa posta, cheirosa… ou mesmo emburrada, ele às vezes demorava, mas agora tinha certeza que nem os resmungos teria de volta, coisa de que ele nunca imaginou sentir falta. De fora, a garoa fina; dentro, o frio da angústia de uma crescente saudade.

- … você vai ver, vai ser bom.

- Vai ter bebida a vontade hoje.

- Ha, ha, hoje teremos o vexame do bêbado inconveniente… Só não afasta minhas minas…

- Ah, até parece que eu faço isso. Você é que é feio e sem papo, aí elas fogem…

- Que elas fogem a gente já sabe - entrou na conversa o baixinho -, mas que você fica bêbado igual um gambá, ah isso fica e todo mundo é testemunha…

- E ontem eu bebi sozinho, né? Você ficou só olhando, né?, ô!?, cara-pálida…

Garotada animada… Fase boa da vida, pensava. Festas, mulheres, bebidas, diversão. Lembrava por instantes de seus vinte anos, de quando conheceu Joana e todas ilusões que viveram. Um canto de sorriso amargo e tristonho apareceu-lhe na boca. Naquela época, não lhes importava nem mesmo o pouco dinheiro: era um do outro e pronto, bastava… Momentos simples de puro regozijo da memória e ela com aquele baton vermelho nos lábios… ah, os lábios de Joana não desapareciam da luz vermelha do semáforo. Abriu.

- Fala prele não ir por aí, tá tudo congestionado… Ele não ouviu no rádio?! - reclamava o gordinho sentado à esquerda

- Que tiozinho mais burro!

- Ei, fala prele andar depressa, a gente vai chegar atrasado!

- Corre, tio. Já tá todo mundo reclamando, anda logo! - falava o corcunda impaciente.

Jonas abaixou a cabeça, esperou um pouco e falou bem baixinho:

- Minha mulher morreu ante-ontem…

- Que foda, tio! Mas todo mundo morre um dia.

- Quem morreu?

- A mulher do tiozinho!

- Fala prele não encanar, logo ele arruma outra…

O falatório era tão alto e incessante que atormentaria até um taxista. Jonas continuava dirigindo empedernido, numa angústia e indiferença sem fronteiras. Joana, minha querida… E como um cocheiro russo, cuja angústia de perder alguém querido lhe remoía, Jonas também silenciava na dor de sua perda. Se seu peito estourasse e dele fluísse para fora aquela tristeza, daria pra inundar o mundo; no entanto, não se pode vê-la sequer à luz do dia.

- Chegamos.

- Tó aqui, tio. Vinte reais.

Pagaram e correram rumo à festa. Vinte reais, uma mixaria. Mal paga a gasolina. Vai ver é isso, se ganhasse bem agora eu estaria rindo, dando gargalhada e não tomando chuva sozinho, comeria bem, beberia bem, compraria um presente pra… ah, pra qualquer outra mulher, se tivesse dinheiro estariam todas no meu pé, sabe como é que é…

Jonas olha em frente e vê a multidão, jovens. Não há ninguém a quem contar sua dor, seu sofrimento, alguém pra compartilhar sua história, isso não pode ficar assim, alguém tem que saber o que aconteceu, o susto, o desmaio, o hospital, as explicações dos médicos, como ela era boa, maravilhosa, um anjo…

Logo chega outro taxista a seu lado. Cumprimentam-se no abanar das cabeças, um aceno.

- Opa, tudo bem?

- Minha mulher morreu ante-ontem.

- É, meu velho… é a vida…

Jonas volta pra casa soturno, ainda meio molhado da chuva que parecia lamentar consigo como um fino choro. Abre a porta, coloca as chaves na mesa e logo procura por Michele. Onde estará essa danada? A gata aparece por detrás do sofá, meio sonolenta, espreguiçando. Ele senta, pega um punhado de ração, come algumas e dá outras a Michele, que recebe os carinhos nas costas e se estica.

- Imagina, lindinha, faz de conta que você tem um gatinho…

Angustiado, com uma sutil lágrima a escorrer no rosto, recluso dentro do quente apartamento, ele sussura bem baixinho sua dor:

- Imagina só, seu gatinho morrendo, indo embora pra sempre… Não ia ser injusto?, imagina só, ia ser injusto, não ia?, ele deixando você sozinha e você com muita-muita saudade… mu-muito ruim…

Michele come a ração que ele lhe dá na boca e ouve todo o desabafo choroso de Jonas, tremendo. Dentro e fora a chuva continuava.


Titulo: A chuva e o desabafo

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Conto

Data de publicação: 4 de maio de 2003

Resumo:

o desabafo contido de um taxista numa noite chuvosa

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7 Comentários

  1. Herbie disse:

    É “Lixandre”, esse foi foda…

  2. Aline disse:

    Impossível conter aquele nó na garganta… “De fora, a garoa fina; dentro o frio da angústia de uma crescente saudade?”. Parabéns pela sensibilidade tamanha.

  3. Eduardo Caruso disse:

    Parabéns Ale!!!Que seus sonhos sejam traduzidos em realizações e glórias. Abraços,Du

  4. Fernando disse:

    Belíssimo conto. Adorei “Se seu peito estourasse… daria pra inundar o mundo”Curti muito!

  5. Marilda Piccolo disse:

    Oi Alê,Nossa, fiquei triste c/ o seu conto, comovida, senti a tristeza de Jonas… Só quem ama entende…Gostei muito,Bjs,Tia Marilda

  6. Mário disse:

    Gostei demais. Tem um germe russo…

  7. PH disse:

    Muito emocionante Alex. Pega na veia… sem comentários, tô engasgado…

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