Conto por Alex Leão
7 de fevereiro de 2003

- Maldita chuva! Praguejava Jorge enquanto dirigia seu velho F.N.M. ou como ele preferia: Fenemê. A chuva era abundante e a estrada perigosíssima. Ele detestava aquela estrada… mas como sempre, se entretera até tarde com a morena que conhecera num boteco, no dia anterior, e agora a única chance de chegar a tempo ao litoral era seguir usando aquele atalho.
Jorge era caminhoneiro experiente, embora ainda tivesse trinta e poucos. Mas ele sabia. Chuva naquela estrada era problema na certa. Ele a evitava o máximo que podia. Sempre preferiu o caminho mais longo, só para não ter que passar por ali. E havia aquela detestável curva…
A chuva aumentou e a visibilidade estava péssima, era quase impossível enxergar a frente. Um mal pressentimento estremeceu a espinha de Jorge. É que sempre que chovia assim, na altura da última curva daquele estranho atalho, ele tinha uma visão. Era sempre a mesma coisa, todas as vezes: uma cruz em chamas, na beira do abismo que a famigerada curva contornava. Mas não adiantava contar o que via. Ninguém nunca acreditou nele.
- Qualé mesmo a marca da cachaça que você engoliu? - Riam os amigos toda vez que chegava relatando a assombração.
É bem verdade que ele gostava de um trago antes de pegar estrada, principalmente se fosse 'aquela' a estrada…
Jorge começou a fazer o sinal da cruz freneticamente e iniciou uma prece, na esperança que os santos e aquela chuva forte fossem finalmente capazes de levar embora aquela terrível visão.
- Calma cara, calma. Relaxa. Afinal, não é mesmo possível que alguma coisa seja capaz de estar em chamas debaixo de toda essa chuva! Balbuciou Jorge, respirando fundo e tentando ser racional.
-Devo mesmo estar de fogo…
De repente a calma se foi. Um grito de horror pressionou o peito de Jorge, sufocando-o. Em meio ao cinza escuro da chuva torrencial, ele via um pequeno ponto brilhante. Era a cruz. E dessa vez a certeza de que aquilo era real o petrificara. Desesperado, sangue congelado nas veias, ele para seu caminhão e respira fundo. Estava decidido a enfrentar seu horror e ir até lá para destruir aquela cruz de uma vez por todas. Pegou um facão e caminhou em direção às chamas. Observou ao redor. Não era possível enxergar muito bem, ainda chovia torrencialmente, mas julgou que não houvesse ninguém por perto. Tomou fôlego. Ao dar o primeiro golpe as chamas começaram a se apagar. Ele sorriu. Estaria finalmente livre daquele tormento?
Quando as chamas finalmente se apagaram, ele quase não acreditou. Estava exultante! Girou nos calcanhares e correu devolta ao caminhão. Mas num relance e com a ajuda de um relâmpago que iluminou toda a área, achou ter visto algo perto de outra cruz, mais abaixo. Enxungando um pouco da água que lhe escorria pelo rosto, pôde ver um manto negro. Foi até lá para ver o que era e ao revirar o manto acabou descobrindo algo. Uma mulher jovem e bonita, cabelos negros, longos. Tinha a pele muito branca e não vestia uma única peça de roupa, além daquele sobretudo negro que a cobria. Procurou sinais de violência, mas não havia nada. O corpo estava apenas ali, deitado, sem vida. Um grande anel de brilhantes em um dos dedos da mão direita chamou a atenção do caminhoneiro.
- Deve dar um bom dinheiro. Calculou.
Forçou a retirada do anel, mas sem sucesso. Tentou com as duas mãos. Nada. Apoiou com o pé e forçou um pouco mais. A força foi tão sem medida que ele pode ouvir um estalo quando o osso do dedo da garota se quebrou.
Jorge estava decidido a levar o anel a qualquer custo. Pegou o facão e decepou o dedo da defunta. Sorriu brevemente. Imaginou como sua vida mudaria depois de vender o anel!
Alguns anos se passaram e Jorge já havia conseguido esquecer o acontecido. Estava a caminho da praia, para passar o Reveillon com sua atual namorada, uma loira monumental, socialite. Ele progredira apartir do lucro da venda do anél e agora tinha passe livre nas altas rodas da cidade. Sua namorada havia descido para a praia com as amigas, antes dele. Ele, que ficara fazendo negócios até a última hora, agora estava atrasado. Já eram vinte e duas horas do dia trinta e um de dezembro.
- Não vai dar tempo - Disse em voz alta. Mas se… Não, não vou fazer isso! Quando percebeu, já estava percorrendo o velho atalho.
- Merda! Olha lá, já vai chover!
A nuvem era espessa, mas se corresse seria capaz de chegar ao litoral antes que a chuva alcançasse aquela última curva. Acelerou. Um olho na estrada, outro nas nuvens, que agora, estavam quase o alcançando.
- Não vai dar…
A chuva o alcançara. O temporal era grande e mais uma vez ele sentia aquele calafrio que lhe percorria todo o corpo, lembrando o tempo em que usava aquele atalho para trabalhar. Ele nunca mais passara por ali, desde aquele fatídico dia em que destruira a cruz. Seria possível outra cruz aparecer em chamas? A curva estava longe e talvez a chuva terminasse logo. A visibilidade era baixa e mais a frente parecia haver alguém pedindo carona. Ele se lembrou que aquela assombração ocorria sempre que chovia e estava sozinho na estrada. Embora tivesse destruido a cruz em chamas, não queria correr o risco de presenciar uma assombração daquelas novamente.
- Não custa nada e é melhor me garantir - concluiu. Parou seu carro de luxo, pegou o carona e seguiu caminho.
Estranhamente seu passageiro ainda não dissera uma palavra. A curva estava próxima e então Jorge, um pouco nervoso tentou puxar assunto. Queria passar pela curva sem nem mesmo olhar para os lados. Comentou sobre a tempestade, mas o estranho não disse uma palavra. Ele estava usando uma capa escura, o rosto encoberto por um capuz e sua sombra.
- Bem, meu nome é Jorge. E estendeu a mão. Um breve instante se passou e então o estranho passageiro abertou-lhe a mão direita. Era uma mão feminina, branca e delicada, mas só haviam quatro dedos nela.
Dizem que ao içar os destroços do abismo que aquela curva contornava, não encontraram qualquer vestígio do corpo de Jorge. Fincaram uma cruz na beira da curva, mais uma, e meninos da região juram que em dias de chuva é possível vê-la em chamas.
Titulo: A CURVA
Autor: Alex Leão
Gênero: Conto
Data de publicação: 7 de fevereiro de 2003
Resumo: Quem já não viu cruzes em beira de estradas perigosas? O que talvez vocês não tenham visto é o que Antunes via…
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