Conto por Mário Neto
8 de outubro de 2003
Silvinha, encostada no sofá, diz à amiga:
- Abre teu olho! Teu marido pode ter cara de santo, mas de santo não tem nada!
Suzi, surpreendida pelo que ouviu, retrucou sem nem pensar:
- Você está louca? O Lúcio me ama, está entendendo? É impossível que ele esteja me traindo!
A amiga, que já previa essa resposta, deu a última tragada no cigarro. Muito calma e dona de si, jogou-o no cinzeiro, soltou a fumaça pelo nariz e, dando uma coçadinha no canto direito da boca, insistiu:
- Mas é exatamente por isso que eu lhe digo! Ele é tão certinho, tão certinho, que se duvida!
Finalizou, levantando e pegando sua bolsa:
- Não há homem fiel, você há de aprender! E dos santinhos, ah… desses é que tenho medo. Desses é que mais se desconfia!
Enquanto saía, vendo que Suzi não aceitava muito o que tinha dito, tentou amenizar:
- Mas não sou a dona da verdade.
Suzi, que confiava cegamente no marido, viu-se pensando nessas hipóteses que considerava até então absurdas. Em mais de vinte anos de casada, nunca desconfiou por um minuto sequer da fidelidade do marido. Sempre o achou muito correto no que fazia, no seu profissionalismo no trabalho, na maneira como lidava com o tempo entre a família e seus deveres. Também o achava muito amoroso no trato com os filhos, era mesmo um pai exemplar. Como marido era muito atencioso, romântico, um cavalheiro, além de ser um ótimo amante, cuidadoso, calmo, compreensivo.
Amava-o loucamente, essa era a realidade, e os anos de casamento só reforçavam esse sentimento. Como poderia então pensar em seu Lúcio beijando outra mulher que não fosse ela? Não, impossível. Ele nunca faria isso.
Deitou-se na cama com uma aflição desumana. Pensou no que seu Lúcio estaria fazendo, se nessa viagem ele realmente estaria trabalhando ou, como Silvinha advertia, se estaria com outra mulher, derramando-se em beijos e delírios. Travava na cama uma intensa luta interior. De um lado, não queria de forma alguma questionar a lealdade do marido. Era algo impensável naquele momento.
No entanto, também não podia negar o que Silvinha estava tentando alertar. Ela, realmente, não conhecia nenhum homem realmente fiel. Nem mesmo seu pai, em quem tanto confiava, havia escapado dos caprichos de uma fulaninha do litoral. Assim, não teve outro jeito senão admitir: Lúcio poderia estar - ou já esteve - com outra mulher. De tão preocupada não conseguiu dormir.
O dia seguinte foi cheio de altos e baixos. Enquanto não pensava no marido e no que sua amiga havia lhe dito, tudo se passava como sempre havia sido: um dia alegre e tranquilo. Mas quando se colocava em devaneios sobre seu Lúcio, quando refletia sobre as sinceras palavras de Silvinha, tremia e sentia um tremendo mal estar. Teve até enjôos.
Quase no finzinho da noite Lúcio ligou. Disse que o trabalho havia atrasado e que iria precisar de mais dois dias. Suzi, sempre amável com o marido, aceitou numa boa. A voz dele, tão doce e adorável, acalmou-a completamente. E esse sentimento a cobriu de tal forma que, instantes depois de desligado o telefone, voltou a questionar com a mesma veemência de outros tempos o que Silvinha havia lhe afirmado. Chegou até, por um curto momento, a ter raiva da amiga. Afinal, ela havia conseguido colocar sua mente contra ele.
Teve assim dois dias de relativa paz. Até que, na noite anterior à chegada de Lúcio, Silvinha telefona para Suzi. Estava tão ansiosa que gaguejava ao pronunciar as palavras. Dizia, convicta, que tinha provas de que Lúcio já esteve com outras mulheres. Suzi, transtornada, esbravejava que queria ver essas provas de todas as maneiras. Silvinha a convidou então para que fosse até sua casa e ela foi imediatamente. No caminho, repetia em seu interior que só podia ser algum engano. Não o seu Lúcio, ele nunca.
Assim que abriu a porta, Silvinha pediu calma. Suzi estava pálida, os lábios tensos e os cabelos completamente desajeitados. Silvinha apontou uma cadeira, na qual Suzi sentou já em lágrimas. Queria ver as provas, onde estavam as provas? A amiga insistiu para que tivesse calma. Pegou um copo d'água, que Suzi bebeu num só gole. A respiração era intensa, pesada, o rosto completamente alterado.
Vendo que a outra não se acalmava, não teve opção. Pegou um pacote que estava sobre a estante e colocou-o em frente da amiga:
- São essas as provas.
Enquanto a companheira examinava as fotos, com os olhos cheios de ódio e lágrimas, ela completou:
- Contratei um detetive pra te mostrar como não há homem fiel nesse mundo!
E numa voz de sincera tristeza:
- Nem seu Lúcio, minha amiga, nem seu Lúcio…
Após olhar todas as fotos, uma a uma, com uma mistura de ódio, raiva e profunda tristeza, vendo seu Lúcio entre beijos, abraços e outras coisas muito mais quentes com mulheres que não conhecia, o rosto de Suzi se iluminou. Levantou-se e foi direto até a cozinha. Silvinha, que sentia remorsos por ver a amiga tão mal, quis animar-se.
Mas mal pôde virar o rosto para vê-la, pois sentiu uma forte pontada no peito. A pontada, em seguida, transformou-se numa dor horrorosa. Quando enfim conseguiu girar o pescoço, viu o rosto de Suzi transfigurado. Segurava, numa das mãos, uma faca banhada de sangue. Ouviu dela as últimas palavras:
- Quem mandou ser a dona da verdade!
Jogou a faca ao chão logo que viu a amiga dando seu último suspiro. Juntou todas as fotos, colocando-as dentro do pacote, e as queimou no cinzeiro que estava sobre a mesa da cozinha. Aquelas chamas, que consumiam rapidamente as imagens da traição do marido, rendiam-lhe uma deliciosa sensação de conforto e confiança. Finalmente, quando viu todas aquelas provas virarem cinzas, sorriu como uma criança. Saiu com a impressão de que havia deixado para trás um grande peso.
Logo que chegou em casa correu até a cozinha. Queria preparar uma saborosa lasanha, o prato predileto de Lúcio, para o almoço do dia seguinte.
Mário de Souza Neto sempre foi teatral e um pouco trágico.
Titulo: A dona da verdade
Autor: Mário Neto
Gênero: Conto
Data de publicação: 8 de outubro de 2003
Resumo: O amor e a fidelidade confrontados com a verdade.
Cara! Não espalha isso não!!!!!
Excelente conto Mário! A trágica surpresa deu um ótimo tempero…Parabéns!
ótima história, Mário. A mesquinhez da “dona da verdade” - que queria provar, apenas por provar, que o marido da amiga não era fiel; a perturbação de Suzi, diante de tão plena vida e a distância de Lúcio, são características muito bem elaboradas para este conto, que questiona muito bem os fatos e os sentimentos, diante das intenções de alguns “guardiões da verdade”.
Bad Behavior has blocked 21 access attempts in the last 7 days.
Prosa “teatral e trágica” - como você mesmo confessa, Mário -, bem envolvente. A narrativa flui com naturalidade e deságua num clímax aliciador da própria noção de verdade, dentro e além texto. Muito bom resultado.