Conto por Alexandre Piccolo
2 de fevereiro de 2003

- Viu aquela moça que acabou de descer do ônibus?
- Qual?
- Aquela ali - já olhando pra trás - de cabelo castanho, olhos claros, pele branca. Rapaz, você não imagina a história dessa mulher, ainda mais com o pai dela…
- Ué, por quê, quem é ela?
- O nome dela é Maria Amélia, mais Maria do que Amélia, filha do delegado mais velho da cidade, Tonhão, o Barra-Chorona. Ele tem esse apelido até hoje por causa dela. E sabe por que ele continua delegado, não se aposentou, praticamente mora na delegacia, e ainda cuida, todo santo-dia, de uma detenta como se fosse mulher dele? Por causa dessa filha, a moça que desceu agorinha…
- Sério?!
- A história correu toda a cidade anos atrás, foi um reboliço daqueles. Ela devia ter seus quinze, dezesseis anos, era um doce por fora e um perigo, uma bomba por dentro. Vivia se fazendo de anjo e diabo, em casa uma coisa e na rua outra. Toda bonita, ainda é, mas princesa na época, mocinha-querida-do-papai, filha única e órfã de mãe, que morreu quando ela ainda era bebê. Da pequena a rapazeada não tirava os olhos, dos adolescentes aos marmanjos, e ela gostava que a "comessem com os olhos", mesmo ainda meio verde como estava. Mas era só o pai, delegado e de cara-feia, aparecer nas rodinhas da filha e a malandragem desaparecia.
- Não é pra menos, o cara é delegado…
- É, e ela passou a odiar isso, dizem. Aí, pra enganar todo mundo, passou a fazer uma de santa pro papai, que achava que criava uma meiga virgem em casa. E na rua se fazia de feiticeira, era uma fadinha furacão de blusinha e saia curta, que fazia a filha do pastor parecer santa - e essa não era flor que se cheire…
- Tá, mas e aí? Quem não dá suas escapadas pra fugir da supervisão da família? E que mulher não gosta de homem, igual homem gosta de mulher?
- Só que ela passou a "gostar" além da conta. Amélia conheceu um jogador de futebol do esporte clube da cidade, Eduardo, que saía com ela todo final de dia depois do treino. Ele ficou caidinho pela pequena, parece que ela andou se fazendo de fina flor, intocada, e isso apaixonou o rapaz, que achava que encontrara o amor da vida dele. Passou uns dias com a cabeça na lua, sonhando entre a bola e os beijos da moça. Mas o pior é que ele não sabia que a Amélia era Maria, e de todos. Os amigos do time inteiro tinham já se engraçado uma vez ou outra com a "princesinha": do Jonas, o primeiro goleiro, ao segundo reserva que acabara de subir do juvenil, o Marinho. E pior, rapaz, ninguém dizia nada pro Eduardo, pior ficavam com aquele olhar fingido, fugidio, ressabiado. Até que um dia o Manuel, aquele atacante que era português só no nome, abriu o jogo com ele no vestiário, depois da final que o time ganhou. Veio pedir desculpas e tudo mais porque tinha se encontrado com a Maria na véspera, quando estavam todos concentrados pra partida. Ele aproveitou a concentração; ela, a solidão, e ambos pularam a cerca de trás do campo, escapada rápida.
- Nossa! E o cara, o que fez?
- Na hora achou que era mentira, por cegueira ou pra não criar confusão, não sei. Quando todos no vestiário guardaram silêncio, quando ele procurou por uma palavra amiga, a omissão coletiva instaurou a dúvida. Aí foi correndo atrás dela e colocando a falsa donzela contra a parede. Amélia tentou se esquivar, enrolar e não conseguiu. Brigaram. Eduardo prum canto, triste. Amélia pra festa da vitória, comemorar.
- Porra, mulherzinha dos infernos, hein?!
- E o pior ainda não te contei. Depois de esfriados os panos, semanas depois deles já reconciliados, ela aparece grávida. Foi aí que ele se enfureceu de vez. Brigaram, feio desta vez, e ele negou até a morte que o filho era dele. Nessa hora o Tonhão, pai da Maria Amélia, já por dentro de parte da história, quase mata o coitado num ímpeto de ira. Com ele não tinha conversa: engravidou, casou. Eduardo discutiu, virou até mais homem nesses dias, disse que só casava se o filho fosse dele e esperaram nascer pra fazer os exames. Dito e feito:
- O que, o filho era dele?
- Era nada. Aí a menina ficou em maus lençóis. Ele saiu ileso mas o pai descontou a raiva na filha. Queria porque queria saber quem era o safado que lhe engravidara a Maria; e ela não queria contar. Não contava porque não sabia, e acabou tomando lá seus bofetões de ignorância. De tanto safanão paterno, terminou confessando que, na festa de comemoração da final, se embebedara e fizera a forra de todo o time vitorioso.
- Putz, o pai deve ter perdido a cabeça.
- Você nem faz idéia. Foi correndo pro pescoço do Manuel, o primeiro suspeito. Ele, que não era bobo, também esquivou o corpo fora e fizeram novamente os exames. Nada. O coitado acabou tirando a corda do pescoço, mas Tonhão e Amélia se enforcavam cada vez mais, um puxando a corda do outro.
- Nossa, e aí, descobriram o pai da criança?
- Descobriram, mas depois de ter feito exame no time inteiro. Zagueiro, centro-avante, ponta-esquerda, todos entraram na roda e passaram pela cara-feia do delegado numa comissão de inquérito que parecia não ter fim. Depois de todos inspecionados e nenhum culpado em vista, sobravam os funcionários do clube, aqueles impossíveis de suspeitar ou adivinhar. Você não acredita quem?
- Quem? Conta logo.
- Tonhão, depois de mandar fazer exame em quase duas dúzias de marmanjos, acabou desconfiando da própria sombra e caiu nos pés do Seo Joaquim, o faxineiro do clube. Joaquim era também o segundo massagista, o substituto, que aproveitava pacato os jogos lá do vestiário mesmo, pra não deixar de viajar e se divertir com a garotada. Um senhor, cinquentão, com quem ninguém sequer conseguia sonhar, bem daquele tipo "come-quieto".
- E o que fez o delegado?
- Quando descobriu, saiu da delegacia no primeiro impulso pra matar o coitado do velho. Correu pra casa dele e, quando chegou lá, encontrou o pobre diabo estendido no chão, todo ensanguentado, esfaqueado, com a própria mulher de cutelo na mão ainda em cima dele. Dizem que a esposa ficou sabendo da história pela vizinha, que é mulher do porteiro do clube. Cheia de tino, de fibra, não admitia uma pouca vergonha dessas. De impulso e raiva, matou primeiro que o delegado, que a levou presa todo sorridente, de alma lavada e satisfeito. Contam que quando a colocou no xadrez, abraçou as barras da cela e escorregou chorando nas grades, como se o preso fosse ele.
- Não acredito! A mulher da prisão é essa?
- Matilde é o nome dela. O Tonhão não fala com a filha desde então, que toma conta do filho sozinha. E como delegado, cuida até hoje dessa mulher como se fosse esposa, tratamento de cela especial. Falam até que estão esperando acabar a pena para se casarem, mas aí é outra história, e vai saber se é mesmo verdade…
Titulo: A filha do delegado
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 2 de fevereiro de 2003
Resumo: A história de Maria Amélia, filha do delegado Tonhão, contada numa conversa de ônibus.
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estória engraçada, provinciana e universal.