A fúria de um pseudo-intelectual

Conto por Paulo Henrique
22 de abril de 2003

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Blábláblá - bum!

- Não! o teatro Dionisíaco, mesmo com com seus excessos, foi determinante para a pós-modernidade!

- Que é isso? - esmurrou a mesa - Leia a Origem da Tragédia, de Nietzsche, que você terá mais argumentos para uma afirmação tola como esta!

- Tola? Ora, quem me chama de tolo… você lê apenas Flores do Mal e se acha o tal.

Ele sabia que aquilo não ia terminar bem. Ao invés de estar em casa, dormindo ou comendo uma pizza, estava em uma mesa de bar, presenciando um estéril embate filosófico de dois companheiros. Aquele tipo de discussão que vai do nada para lugar nenhum. Lembrou-se de Salomão: "tudo é vaidade". Sobre o que eles estão falando agora? Voltou a atenção para a mesa:

- Qualquer criança sabe que Thomas Mann se baseou em Wagner e Nietzsche para construir uma obra que é hoje um dos alicerces do século XX.

- Mas o que Kafka tem haver com isso?

A discussão estava realmente pesada. Quando ele viu que Kafka entrou na briga, não agüentou. Era demais. Suspirou e lembrou que era apenas um sábado a tarde, seu time de futebol estava jogando, só queria dar umas boas risadas. A última coisa que desejava era ver dois marmanjos discutindo por causa de idéias. Se levantou.

Ninguém notou sua ausência. Até notaram, mas o papo estava tão inflamado que não falaram nada enquanto se afastava. Acendeu um cigarro e saiu para fora do bar. Tentou esfriar a cabeça, mesmo ainda ouvindo os grunhidos e gargalhadas de ironia da mesa que estava sentado pouco tempo atrás.

Estava realmente puto com tudo aquilo. Tanta cegueira, tanta briga, pra quê? Provar o quê e pra quem? A vida é muito curta e não há tempo para forçar e brigar.

Foi até o carro, apagou o cigarro, abriu o portas-malas e tirou uma caixa de dentro. Enquanto isto ouviu uma música tocando em um carro vizinho, onde um casal acabava de estacionar. Reconheceu o som, era "Stuck in the middle with you". Não lembrou o nome da banda. Mas seu espírito se animou.

Voltou para o bar, com o pacote na mão. De longe já podia escutar o diálogo dos seus dois companheiros intelectuais. Mais gritos, mais exaltação. Riu da cena. Enquanto chegava perto, o barulho ia aumentando. Podia reconhecer o assunto, agora falavam de algas marinhas. O que as algas tinham a ver com aquilo tudo?!?!

Tirou um revólver de dentro da caixa. Com muita calma e tranqüilidade apontou para a mesa da discórdia. Calaram-se. Nem Beatles, nem Mann, nem algas, nem nada. Todos ficaram em silêncio. Um dos dois tentou questionar.

- Pam! - Um tiro no peito.

O outro gritou, mas em vão:

- Pam! - outro tiro.

Com os corpos caídos na sua frente, viu que tinha feito a melhor atitude naquele momento. Não agüentava mais tamanha verborragia, estava cansado de todo mundo se achar certo, dono da verdade. Basta.

- Pam.

E nunca mais ouviu besteiras travestidas de inteligência.


Titulo: A fúria de um pseudo-intelectual

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Conto

Data de publicação: 22 de abril de 2003

Resumo:

Estava cansado de ouvir besteiras e fez um grande favor para o mundo das idéias.

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13 Comentários

  1. Tommy disse:

    Ahahahah! É bom ver a reação de alguns leitores que vestem a carapuça. aPatada é legal pois todos falam o que pensam. Até aqueles que ficam “dodói” com algumas verdades. Ahahaha! Parabéns pelos textos e pelo site, pessoal.

  2. João Cabral disse:

    Você, meu caro PH, me lembra muito o arauto da ditadura militar, o filósofo Olavo de Carvalho. Li muitas besteiras nos seus “causos” escritos. De fato, o site é uma patada no saco. Acho melhor você estudar bastante. O site é reflexo da pobreza intelectual de dublês de poetas e escritores. Acho que João Calvino estava certo: a literatura é atividade para predestinados.

  3. Geraldo Magela Matias disse:

    Ser mineiro é uma das soluções. Mas acho que é impossível manter-se neutro em todas as áreas. Sempre haverá conflitos. No entanto, sempre deve haver capacidade de diálogo.

  4. Geraldo Magela Matias disse:

    O texto me lembra Olavo Romano, o filósofo-ditador. Olavo está sempre cansado de ouvir besteiras, principalmente de gente que nunca pesquisou como ele. Nada de diálogo, apenas escutem-me. A ditadura é reflexo dos fundamentalismos. O protestantismo, o catolicismo, o judaísmo e o islamismo são crias gêmeas do cancro do século XXI. Se bem que foram os protestantes norte-americanos quem deram vida ao cão. Ninguém vai para o céu se não for predestinado, e nós somos. O fundamentalismo também atinge os arautos da política. Acho até mesmo que o “marxismo é o ópio dos intelectuais”. O Capital de Marx não é um livro religioso… mas juro, os comunistas ortodoxos são muito religiosos. O jeito é ser mineiro, como o P.H., e até entendo porque também sou.

  5. Alexandre Spirics disse:

    O texto Olhos limpos, é simplesmente poesia construído a partir da cosmovisão pós-modernista inspirada e bem-humorada. O consecutivo, em prosa, é mera apologética pressuposicional que retoma a linha do desespero sapiençal. A conexão entre ambos é o forte instinto em querer não conter o nevoeiro entre paredes e portas, com todo o seu poder, unidade e fragmentação…

  6. FERNANDO disse:

    Bem loco heim mano! Descreveu benzaço a situação e fez prender a atenção mesmo. Curti absurdo.

  7. Rafael Luiz Falcão Rodrigues disse:

    O texto mostra a busca do ser humano pelo poder e a vontade de se sentir sempre superior ao outro, não importando o assunto. O personagem que age em terceira pessoa conseguiu ver, por dentrás de um espectro de vaidade e diarréia intelectual, o quão prejudicial isso é para a humanidade e o quanto discussões como as que vemos diariamente não nos levam a nada. A partir do momento em que acaba com a discussão de maneira tão brusca não suporta nem mesmo a menção de outra discussão como a que presenciara e decide acabar com sua vida, mostrando assim o verdadeiro fim dessas filosofias pregadas por pseudo-intelectuais

  8. Elizabeth Leite Zimon Mazarin disse:

    Não vale a pena discutirmos por coisas banais o melhor da vida é aproveitarmos o que ela têm para nos oferecer, com olhos bem abertos e limpos.

  9. Ronaldo Magalhães Lima disse:

    Tanta cegueira, tanta briga, pra quê? Provar o quê e pra quem? A vida é muito curta e não há tempo para forçar e brigar.Esta foi uma parte do texto que gostei muito, me fez recordar dos meus colegas, amigos, irmãos e até mesmo de mim, que diversas vezes perdemos muito tempo tentando impor o que pensamos como lei, tudo se resume em perda de tempo, muitas coisas a serem curtidas… respeitar opiniões é ganhar tempo, ninguém pensa igual a ninguém e isto é fabuloso, o resto é vaidade. ótimo texto Sr. Paulo Henrique. Continue com esse talento de despertar a leitura nas pessoas que não gostavam de ler, digo gostavam por que tenho passado os seus textos por e-mail para alguns colegas de trabalho, que adoram quadrinhos, apenas quadrinhos… e estão gostando dos textos.

  10. Tiago Russell disse:

    Muito, muito especial. Mas a foto e sua legenda quebram um pouco. De qualquer maneira, muito bom.

  11. Mário de Souza Neto disse:

    Sempre gostei de histórias assim… Boa PH!

  12. sua namorada disse:

    Nas palavras de Salomão: “Que grande inutilidade!” Trágico, porém mais do que realista: todos têm o mesmo fim. Bem pauleira, hen? Legal!!!

  13. Alexandre Piccolo disse:

    Genial! Curti muito!

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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