Conto por Paulo Henrique
9 de setembro de 2003
Era uma vez, há muito tempo atrás, um lugar tranqüilo e calmo, em algum cantão da terra. Ali viviam em uma comunidade bucólica centenas de pessoas, que - como em qualquer comunidade (bucólica ou não) - tinham seus problemas, alegrias, trabalhos, descanso, brigas e prazeres. Aliás, prazeres é que não faltavam. Nesta cidadezinha, a grande prioridade era atender os instintos. Principalmente os carnais. Lá, como diria Tim Maia, era um "vale tudo".
Nesta cidade, todas as mulheres e homens desenvolviam sua busca pelo prazer, nem que isto representasse a dor alheia. Desde a infância, as pessoas eram motivadas a se lambuzar de doces, balas e brinquedos; na adolescência, a busca já começava a se complicar e na juventude a palavra de ordem era sexo. E assim esta comunidade ia caminhando. Sem ciúmes, sem ternura, sem sentimento de posse, sem nenhuma sensibilidade. Muito sexo, orgias, vinhos e aparente felicidade. Era uma festa só.
Mas um belo dia, tudo isto começou a mudar. Um certo carinha do local conheceu uma garota que estava entrando na sua vida adulta. Eles, já acostumados com o ritmo da cidade, não perderam tempo e logo se engraçaram mutuamente. Porém, o que ninguém concebia, aconteceu: o carinha e a garota começaram a se encontrar repetidas vezes e optaram - por si mesmos - a ficarem só um com o outro.
No começo foi aquele rebu. Os mais velhos diziam que estes "jovens rebeldes não tinham mais jeito". Os pais do casal os impediam de se encontrar. Os amigos os abandonaram. Mas eles não. Cada vez mais se encontravam, cada vez mais se desejavam. Não querendo saber de outra coisa, foram para um lugar afastado, só para os dois. Não queriam outra coisa.
Aí as pessoas começaram a perceber algo diferente no ar. Do jovem casal só se via - ao longe - uma casinha fumegando e alguns alqueires de tranqüilidade. Na cidade, a ansiedade continuava a mil. Era tudo bom, mas ninguém ia além do prazer. Todo mundo voltava sozinho para casa. Apesar das instituições funcionarem bem, as pessoas não viam sentido naquilo tudo. Uma dor no peito era constante. As pessoas choravam, adoeciam e sentiam dor sozinhas. Morriam só. E só.
Então, percebendo a mudança naquele casal, outros meninos e meninas começaram a fazer o mesmo. Fizeram a opção de olhar o único olhar, persistir no único sorriso, levar para a casa um único beijo, um único cheiro. Dedicar a vida para uma única mulher, para um único homem. No começo parecia soar estranho. Mas muitos viram sentido nisto tudo. Aí foi um casal, mais outro, mais outro, mais outro e logo o nosso jovem casal já tinham muitos vizinhos. E muitos corações se aquietaram.
Passadas três gerações, o local da antiga cidade foi ficando vazio e agora é conhecido como "terra do abandono". Até o dia de hoje funciona lá um cemitério de forasteiros. A nova cidade é em sua estrutura igual a da antiga: instituições, problemas, alegrias, tristezas, brigas, dor e felicidade. Continua tudo a mesma coisa. Mas hoje toda esta correria faz sentido. Todo mundo tem um sorriso que ilumina o dia. E a noite, ninguém mais volta para casa sozinho.
Titulo: A invenção do amor
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Conto
Data de publicação: 9 de setembro de 2003
Resumo: Os problemas são sempre os mesmos. A diferença é quando tudo faz sentido.
É ótimo te conhecer tão bem e saber os motivos para escrever algo assim… Adorei! E o legal do texto é que ele deixa no ar, não algo específico como a necessidade de se amar outra pessoa, mas as vantagens de perceber o sentido das coisas. Afinal, temos necessidades diferentes. Senão, de que vale todos não se amarem, ou todos se amarem?
fiquei em dúvida. seria a pregação de uma moralidade? qual a moral da história? “não é possível ser feliz sozinho”, de tom jobim? o recurso da inversão de realidade foi uma tentativa, mas o texto chega a resvalar no piegas. mesmo assim, vale a leitura e a opinião de quem entende de escrever.
Muito boa P.H.! Algo parecido acorre no Admirável Mundo Novo, mas sem final feliz… Eu cá sigo esperando aparecer um sentido para mim!
Simplesmente “de arrepiar”!Parabéns, Peagá!
História muito bem bolada, genial inversão dos lados, PH. Excelente texto, difícil escolher um melhor entre tantos escritos primorosos, mas certamente esta é uma “pequena-grande obra-prima” de seu acevo.
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Gostei muito, PH. Inversões sempre são poderosas… e foi também muito bem escolhida.