Conto por Ariadne Gattolini
6 de outubro de 2003
“Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu.”
Mário Quintana
Sempre fico imaginando qual o referencial de casa (moradia, residência mesmo) que as pessoas levam consigo. Se elas sentem seu cheiro, conseguem andar por ela no escuro, sentem-se confortáveis, felizes, abrigadas.
Tenho uma amiga psicóloga criminal que traça o perfil dos homicidas/agressores/bandidos a partir de uma análise de sua moradia. Ela me diz que pessoas “transgressoras” costumam ter uma residência relaxada, com aspecto de abandono, pois é assim que elas se sentem e a casa é um reflexo do ego.
Acostumei-me a mudanças constantes. Jornalista tem de ir para onde o jornal manda.
Morei em apartamentos, casas, hotéis… Dessas andanças lembro-me com carinho de uma casa que tive em Campinas, onde reunia todos os jornalistas para festas e conversas madrugadas adentro. Sei que as festas viraram um folclore na cidade. Vez ou outra conheço alguém que diz me conhecer: “Fui numa festa lá na sua casa”. Fátima, jornalista que morava comigo, uma excelente produtora cultural, às vezes saía pelas ruas convidando as pessoas mais loucas para tais partners. “Festa boa é festa eclética”, dizia. E assim era.
Campinas ficou para trás, mas falo sempre com meus amigos de lá. Minha casa agora é rodeada de crianças, brinquedos, livros, pára-quedistas pendurados entre as maçanetas das portas, bonecas de pano, uma delícia. E nossas grandes aventuras (na verdade, do meu marido) são gastronômicas mesmo e os vizinhos, família e amigos agradecem.
Mas não é bem disso que quero falar. Quero lembrar do referencial de casa. Daquele lugar que nos sentimos abrigados, longe do mundo, protegidos. Das paredes em que estão gravadas nossas lágrimas, suspiros, alegrias. Do aroma de infância que vem do quintal. Das aventuras pueris e não-pueris, do medo dos relâmpagos, quando minha mãe dizia que São Pedro estava arrastando os móveis lá no céu…
Eu tenho guardada uma casa assim no meu coração. Chácara da infância e adolescência, selvagem, linda. Meus irmãos cresceram lá, meus gatos e cachorro também. Hoje, todas as vezes que me sinto triste, sozinha, volto ao meu quarto de pequena, vejo a janela daquela casa, com as luzes tênues entrando pelas frestas, inundando a cama. Fecho os olhos e escuto o ressonar do sono da minha irmã, na cama ao lado. Fico feliz de novo e adormeço. Posso acordar em qualquer canto do mundo porque permaneço ali mesmo, para todo sempre.
Titulo: A minha casa
Autor: Ariadne Gattolini
Gênero: Conto
Data de publicação: 6 de outubro de 2003
Resumo: Reflexões sobre a velha e única morada…
Gostei muito do seu texto.
Parabéns, Ariadne!Lindo texto. Emocionante mesmo.Talvez por estar de verdade na mesma casa (na verdade, apartamento) onde sempre estive, nunca tivesse me dado conta de todas as boas e más lembranças que ela também abriga. Espero guardá-la comigo quando não for mais “minha casa”.
Bela reflexão para uma estréia, Ariadne, neste espaço que agora também é um pedaço “virtual” de sua nova casa… ;^)
Ariadne, ótima estréia! Bem-vinda à aPatada.
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Natural e terno. Em nossa casa, o colo que nos abriga, as paredes que nos consolam - ou nos pressionam. O reflexo de nosso ego. Nosso ponto de apoio e nossas lembranças mais tardias. Ótimo texto!