Conto por Claudia Lins
8 de janeiro de 2005
Antes do estourar de fogos buscou na multidão um rosto amigo, pessoa conhecida que fosse. Dessas com quem se cruza na esquina, no supermercado ou no shopping. Alguém que tivesse visto mais de uma vez seguida, talvez por vários dias consecutivos, a ponto de julgar familiar. Pessoas de quem seria capaz de adivinhar gostos, manias e sonhos…
Não viu nenhum rosto conhecido. Apenas a multidão a envolver seu corpo, como se desejasse lembrá-la que ali ela era apenas mais uma. Certamente tão comum como todas as outras. Mais uma a julgar-se mantenedora de sentimentos e pensamentos especiais para o novo ano. Mais um ano.
Olhou em volta e teve a sensação de compartilhar experiência semelhante a de cruzar a avenida Rio Branco no horário do ‘rush’. Ela e a multidão, os cruzamentos, o sinal vermelho dando passagem, dezenas de estranhos a empurrar-lhe o corpo, a verdadeira sensação de ser única em meio a tantos, e ainda assim, comum, sendo especial…
Voltou-se para areia da praia de Ponta Verde. Não tinha mais 19 anos, não estava no Rio de Janeiro, e aquela não era Copacabana, e sim uma praia de Maceió. Contudo, sentiu-se em casa.
Num canto mais afastado da areia, observou o grupo de jovens e mulheres lançando oferendas a Iemanjá. O barquinho com espelhos, bijouterias, velas e perfumes, tudo como antes. Presentes e desejos deslizando as margens da praia.
Ansiosa por natureza - era do tipo que lia a última página do livro logo depois do primeiro capítulo, às vezes antes de terminar a leitura da primeira folha – preferiu adiantar-se rumo as ondas, antecipando-se aos rituais alheios.
Não tinha paciência para contar única e exclusivamente com o poder do inesperado. Queria saber do futuro muito antes do presente tornar-se passado. Cartomantes, tarólogos, quiromantes, consultava a todos com freqüência. Preferia dormir com a certeza de um amanhã previsível a ter que amargar a sorte de dias incertos…
Rapidamente, sacou da garrafinha de vidro, lançando-a ao mar. Tão longe que mal teve tempo de vislumbrar a embalagem sendo engolida pela força das ondas.
E imaginava naquele momento quão inesperado seria se alguém que nunca tivesse acreditado em previsões, runas, tarô, búzios, anjo da guarda, ou alma gêmea, encontrasse, assim por acaso, aquela garrafa no mínimo estranha, boiando numa praia qualquer…
E se, tomado por uma curiosidade mórbida, o estranho ou estranha, decidisse abri-la libertando seus desejos mais secretos?
O outro, sem saber, estaria entoando aqueles mantras para algum ponto do universo, espalhando possibilidades… E nada no mundo mexia mais com o imaginário dela que caminhar pelo misterioso terreno das possibilidades.
Por isso os olhos fechados fortaleciam o poder telepático daquele momento.
“- Vai garrafa, cruza o oceano e cumpre o teu destino!”, mentalizou, imediatamente lembrando de todas as possibilidades quanto foi possível armazenar em seu cérebro.
Pensou nas coisas que seriam, mas nunca vingaram, jamais passando de sonhos, planos, desejos ou delírios…
A vigem que adiou e nunca fez, aquela que até fez, mas poderia ter aproveitado mais…
A paixão que nunca passou de uma roubada… O projeto que jamais deveria ter saído do papel… A gravidez psicológica… O comentário maldito que pôs tudo a perder… O beijo que não teve coragem de roubar, os orgasmos imaginários que permaneceram vibrando em seu corpo, apesar de aprisionados na mente…
Assim viu a garrafa ganhar distância. Cintilar a luz da lua, enquanto era tragada pela espuma da onda. O vidro afundou e sumiu.
Tranqüila, obteve de volta a mesma sensação de ser única em meio a multidão. Molhou os pés, fez o sinal da cruz e seguiu de modo altivo a brindar o ano novo entre centenas de estranhos.
No meio do oceano, a pequena garrafa cumpriu seu destino.
“Nunca desista dos seus sonhos”, dizia o papelzinho embrulhado dentro do vidro.
Titulo: A moça do dia 31…
Autor: Claudia Lins
Gênero: Conto
Data de publicação: 8 de janeiro de 2005
Resumo: Entre barquinhos e oferendas, a garrafa perdida carrega mistérios em alto mar…
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