A pedra dos milagres

Conto por Mário Neto
17 de setembro de 2003

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A Adoração dos Magos, Diogo Teixeira

A criança estava deitada na cama. Com os olhos fechados e a face quente e vermelha, queimava numa febre que não cedia a qualquer medicamento ou cuidado. A mãe, que havia feito e ainda faria de tudo pelo filho, estava sentada ao lado e chorava baixinho. O pai observava da porta do quarto, ar de derrotado, sentindo-se inútil e incapaz. Há dias tentavam todos os tratamentos conhecidos: rezas, promessas, medicamentos, chás. Haviam chamado três ou quatro médicos. Nada resolvia. E a criança ficava fraca, magra, pálida, sem ânimo. Desconfiavam que a falta de ânimo não vinha apenas da invisível doença. Pensavam o pior.

Eis que entra no quarto um senhor já de alguma idade. Numa veste longa e branca, magro, um rosto duro e moreno, ele se dirige aos pais com um aceno rápido da cabeça. Não era conhecido nem do pai, nem da mãe, que o olhavam curiosos. Assim caminhou até a cama, parando em frente à mãe do garoto. Sua presença silenciosa, seu andar vagaroso e calmo, seu rosto sofrido e assustadoramente tranquilizador deixaram-na perplexa. Quem seria esse homem estranho? O que estaria ele fazendo em sua casa? Como ele havia conseguido entrar tão facilmente? Ficou imóvel diante deste senhor sereno e desconhecido. O pai, tão perplexo quanto a mãe, apenas observava. Talvez ainda houvesse esperança.

Ele viu então aquele senhor estender seu braço direito na direção da mulher. As mãos, que estavam fechadas, se abriram. Viu surgir uma pedra pequena, bem escura e fosca, com cantos arredondados. A mãe, sem qualquer necessidade de palavras ou de um pedido, estendeu suas mãos e pegou a pedra, que num primeiro toque lhe pareceu quente como o próprio corpo do garoto. Só não conseguia entender a razão de tudo aquilo.

Com a pedra na mão, ela acompanhou com os olhos o velho homem carregar seu branco manto para fora do quarto. Viu o marido abrindo caminho para ele, tão ignorante quanto ela nessa situação. Foi a primeira e também a última vez que viram aquele senhor em toda a vida. Ficaram sem saber quem era.

A criança ainda dormia, soltando gemidos de dor com a febre que avançava sem piedade. Num instinto misterioso, a mãe abriu as mãos do filho e pousou a pedra sobre ela. Logo que as mãos da criança se fecharam e envolveram aquela fosca pedra, seus olhos imediatamente se abriram. Com os braços tremendo, o garoto sentia um intenso fluxo de energia atravessar seu corpo, enquanto sua visão apenas contemplava uma cegueira branca, um grande clarão que não lhe permitia distinguir qualquer imagem do quarto. O pai, vendo a vibração dos braços e a expressão estranha no rosto do filho, jogou-se na cama tentando retirar a pedra. Apesar de toda a força aplicada, de todos os esforços da mulher ao ajudá-lo, não conseguia retirá-la. A força era descomunal.

Arrependeram-se por um rápido instante. Não conheciam aquele senhor, não sabia o que era aquela pedra, e viam seu filho aparentemente sofrendo ao segurá-la. Como poderiam ter confiado tão cegamente em algo que mal conheciam? O desespero os teria levado assim tão longe? Valeria pagar qualquer preço pela saúde do filho? O que teriam feito, santo Deus?

O desespero desapareceu quando o menino soltou a pedra, que rolou e caiu ao seu lado sobre a cama. Os pais o abraçaram. Meu filho, meu filho, gritavam. Só quando o soltaram é que perceberam que ele sorria. Um sorriso de mostrar os dentes. Abram a janela, ele pediu, quero ver as flores. O marido olhou para a mulher, que olhou para o marido, que olhou para a criança, que olhou para a mãe, que olhou para o filho e chorou.

O garoto não mais fervia, a febre havia sumido. Milagre, chorava a mãe, milagre. Pegou a pedra e entregou ao marido. Guarda, pediu, bem guardada. O filho se levantou e foi brincar com os amigos. Não mais sentiu febre. Descobririam depois que nunca mais teria outra.

A história foi espalhada pelo vilarejo. Ouviram algo sobre um senhor vestido de branco e uma pedra que havia salvado um menino de morrer doente. Ouviram depois que uma senhora, a avó do menino, também havia sido curada de uma doença misteriosa. Falavam até de um cachorrinho que havia sido picado por uma cobra e que tinha sido curado pela pedra.

Esses acontecimentos ficaram na memória do povo daquele vilarejo. Foram considerados, muito tempo depois, como o começo de um novo mundo. Um mundo onde os milagres aconteciam com a mesma certeza com que o sol levanta e se põe. A pedra, responsável por esse novo mundo que surgia, passou a ser chamada de Pedra dos Milagres e foi colocada sobre um altar grandioso no centro do vilarejo. Todos tinham acesso a esse santuário e podiam, com apenas um toque, obter os milagres que desejassem.

Durante as primeiras décadas, e depois séculos, o vilarejo experimentou uma onda de felicidade e euforia nunca vistas. Só os realmente velhinhos é que morriam, mesmo com os anos ganhos ao tocar a Pedra. E assim o vilarejo prosperou em riquezas, com todos trabalhando incessantemente, já que saúde não era o problema. Neste intervalo foram produzidas também várias obras de arte. Algumas pinturas, por exemplo, descreviam o ato da entrega da Pedra, com imagens de um homem vestido de branco usando uma coroa de ouro e entregando a pedra, toda iluminada, a uma mulher maravilhosamente linda e santa. Livros foram escritos, alguns dizendo que a criança tinha demônios espalhados pelo corpo e que a Pedra os havia removido, outros dizendo que a Pedra vinha do paraíso. Músicas foram cantadas, agradecendo o homem vestido de branco pela bondade em presenteá-los com um objeto realizador de milagres. Foi um período de bondade jamais visto na história.

Com o passar do tempo, no entanto, a população cresceu. E não só houve o crescimento da população, como também pessoas de outros vilarejos foram atraídas pelas histórias que ouviam sobre os milagres da Pedra. A sociedade local alterou-se completamente. O vilarejo tornou-se imenso, com outras vilas se anexando ao redor. Formou-se então um Grande Estado, com rígidas regras de conduta e moral, antes informais. Da agricultura de subsistência passou-se a uma produção de larga escala, pois muitos eram os famintos e a necessidade de alimentos. Para isso inventaram máquinas, que tornavam o trabalho mais produtivo e eficiente, mas que também cingiam o planeta com materiais que não podiam ser integrados à fauna e flora. O planeta mal podia se expressar, ferido. Não ligavam, pois a esperança estava depositada na Pedra.

Não demorou para que houvesse falta de moradia e emprego para aqueles que queriam ficar perto da fonte dos milagres. Roubos e furtos passaram a acontecer com freqüência. Saques. Alguns assassinatos. Com isso, novos desejos de milagre surgiram juntamente com a vida conturbada do Grande Estado. Não só a cura de doenças ou a busca da saúde, mas também um emprego digno ou uma casa bacana ali perto. Segurança acima de tudo. Assim, as filas para tocar a Pedra se tornaram gigantescas em pouco tempo. De tão grandes que eram, pessoas doentes acabavam morrendo ao esperar. Iniciaram-se assim brigas, subornos e vendas de lugar. O Grande Estado não dava conta de tanto trabalho.

Cientes de todas essas dificuldades, os descendentes do primeiro casal a receber a Pedra não viram outra alternativa a não ser retirá-la do altar e deixá-la sob custódia até que os ânimos melhorassem. Houve tumulto e muita discussão. Todos clamavam direito sobre os milagres, já que o objeto sagrado havia vindo dos céus e portanto não teria razão de estar em posse de um ou outro. Logo as pessoas que moravam a mais tempo na região se uniram num exército, visando proteger a Pedra e salvaguardar seus direitos. Se denominavam Os Escolhidos, pois argumentavam que haviam sido os primeiros a receber a fonte dos milagres e que seus descendentes é que tiveram a bondade de proporcionar a todos a chance de tocar a Pedra.

Uma poderosa guerra se iniciou e muito sangue se derramou para se ter a posse da Pedra. Nem as mulheres e as crianças foram poupadas da luta, incentivados pelas visões de profetas que pregavam que todo ser deveria estar envolvido, não importando idade ou sexo. Longos foram os anos de terror e matança. Os Escolhidos, no início, obtiveram vantagem, já que os feridos eram curados rapidamente e logo voltavam para a luta. No entanto, para temor de todos, a Pedra deixou de ser Pedra e se tornou pedra. Os milagres não ocorriam mais. Os inimigos, que duvidavam dessa afirmação e eram muitos, não perdoaram. Ao final de diversas batalhas poucos sobraram. O suficiente para não haver mais maneiras de sobreviverem juntos. Extinguiram-se, deixando o pequeno planeta em que viviam livre para voltar a crescer e a florescer, como lhe havia sido dedicado antes. Não se sabe o que aconteceu com a pedra.

Mário de Souza Neto quer ver gente com sonhos individuais e coletivos.


Titulo: A pedra dos milagres

Autor: Mário Neto

Gênero: Conto

Data de publicação: 17 de setembro de 2003

Resumo:

Milagres acontecem… mas nem tanto.

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