A politizada radical

Conto por Mário Neto
15 de janeiro de 2004

(Da série Vendedoras, Você Não Vive Sem Elas)

Numa loja qualquer.

- Boa tarde…

- Boa tarde! Pois não?

- Estou meio perdida. Tenho um casamento de um amigo para amanhã, ainda não tenho o vestido, estou meio desesperada…

- Ah, vamos ajudá-la, fique tranqüila. A senhora pelo menos tem idéia do que deseja? A cor, os detalhes?

- Mais ou menos… Na verdade, não.

- Tudo bem. Prefere uma cor forte? Ou algo mais neutro, mais limpo, como um pastel?

- Olha, qualquer coisa, nem tenho muito tempo para experimentar, tenho que voltar logo para trabalhar e…

- Bem, eu não gosto muito, mas temos este vestido preto, com decote em V acentuado…

- Lindo… Vou experimentar.

- Nem quer dar uma olhada nos outros?

- Não, está perfeito!

- Tem certeza?

- Tenho!

No provador.

- Lindo! Caiu bem no meu corpo, não?

- Será? Estou achando o decote um pouco exagerado. Não acha?

- De forma alguma…

- Ah… mas será que é apropriado para uma festa de casamento? A senhora não quer ver outro?

- Não! Quero esse! Limpo, bem ajustado ao corpo… E vai bem mesmo que a festa seja mais simples ou sofisticada.

- Se a senhora está dizendo…

No balcão.

- Minha senhora, só há um problema.

- Qual?

- O preço.

- O que tem o preço?

- O preço do vestido é o problema.

- Por que?

- É muito caro.

- Mas caro quanto?

- Muito, muito caro!

- Está dizendo que eu não posso pagar? Eu tenho dinheiro…

- Não, minha senhora, não estou duvidando da sua capacidade de pagar. Estou apenas dizendo que o vestido é muito caro…

- Mas e daí? É caro e eu posso pagar!

- Eu sei que pode. Mas ele é caro e…

- Eu vou pagar! Quanto é, diz quanto é…

- Não precisa ficar nervosa, senhora…

- Tá aqui o cheque, me diz quanto é que eu preencho…

- Mas é caro…

- E eu posso pagar!

- Eu sei, mas e o nosso país, a miséria, esse dinheiro…

- Eu sei da miséria, mas o que se pode fazer… a miséria é a miséria, e eu tenho um casamento e preciso de um vestido!

- Oras, mas não precisa gastar essa fortuna!

- O dinheiro é meu, fruto do meu trabalho e eu faço com ele o que eu quiser! Diz quanto custa esse (maldito) vestido e eu preencho esse (maldito) cheque!

- Não vou permitir! Não permito!

- Como não permite? Eu sou a cliente, eu tenho a razão! Você vai ganhar comissão! Deixa de ser burra! Me diz logo quanto custa isso…

- Não posso… Não posso aceitar que alguém gaste tudo isso…

- Gerente? Eu vou embora…

- … num vestidinho para o casamento de um amigo, ainda por cima que…

- Gerente?

- … ele nem caiu tão bem assim no seu corpo, o busto parece que está querendo saltar das órbitas.

- Mas onde está o gerente?

- Quer saber?

- Meu Deus… Diz quanto é. Não me interessa o que você pensa!

- Quer saber, mas quer saber mesmo?

- Que olhos são esses?

- Ninguém vai comprar esse vestido!

- O que… o que você está fazendo? Não, não faça isso com o vestido!

- Ninguém!

- Meu Deus! Que é isso! O que você está fazendo?

- Ninguém!!

- Que expressão é essa?

- Ninguém!!!

Mário de Souza Neto sempre teve vontade de rasgar um vestido apenas para poder ouvir o barulhinho.


Titulo: A politizada radical

Autor: Mário Neto

Gênero: Conto

Data de publicação: 15 de janeiro de 2004

Resumo:

Um vestido, muito dinheiro e uma vendedora politicamente (in)correta?

3 Comentários

  1. Herbie disse:

    Cara, o que foi isso!??!? Digno de um curta! Parabéns e valeu!

  2. Amanda disse:

    Tem vontade de rasgar um vestido só pra ouvir o barulhinho, é?! Hum… Sei… Beijinho

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Ótimo, Mário, bela série, belo texto. Queria ver uma cena assim e encontrar uma vendedora dessas (preocupada com o quanto eu gasto, com a miséria do país…)

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