A saudade que dele me dá

Conto por Regina Vilarinhos
11 de março de 2004

Algumas pessoas neste mundo já experimentaram fazer amor bem cedo. Quando falo bem cedo, é bem antes das 8 da manhã, antes do relógio despertar. Não é fazer amor na hora em que acorda. É fazer amor antes de dormir, ou não dormir e fazer amor até a hora de acordar.

Difícil de entender? Simples demais. Você e seu amor vão para a cama, na hora de sempre ou um pouco mais tarde, sei lá. Aí, se juntam, se aquecem, se namoram, e conversam. Uma conversa muito diferente de todas as outras, longa, interessante, envolvente, cotidiana mas sedutora. Sua cabeça acha o lugar certinho junto ao ombro dele, e o braço te envolve, quente e acolhedor.

Nesse instante, ambos descobrem que os olhos do outro são de um castanho diferente, ninguém tem cor igual. A luz tem que ficar acesa. Os olhos brilhantes de todos os dias, mas nunca de uma noite igual à essa.

E os assuntos vão crescendo, se multiplicando. Descobrimos que temos muito tempo para conversar, afinal de contas ainda são 2 da manhã e só preciso abrir o ponto às oito. O perfume do xampu no cabelo dele te lembra o dia em que fizeram 2 meses de namoro, você preparou a casa para recebê-lo e ele chegou tão cansado “Preciso de um banho!”, mal reparando em você. E depois, lhe deu um grande beijo dizendo que a melhor massagem do mundo vem de suas mãos.

Cada vez que a conversa vai mudando, seus lábios se aproximam tanto, se beijam tanto, a ponto de você achar que o tempo congelou, o sorriso dele é mais branco que o gelo polar. “Como, às vezes, eu me esqueço disso?” E beija, beija … Nossa, é muito tarde! Agora não tem jeito, preciso dormir, assim não consigo dar aulas amanhã.

A mão dele acha a minha. Nem procurava, mas achou. A cama fica grande, o abraço dele me deixa pequenininha.

A luz não precisa ficar acesa. Os primeiros raios de sol já penetram na janela. Além disso, nós sabemos de cor os caminhos que vamos percorrer um no outro agora. Enquanto o mundo vai acordando, nós estamos nos amando.

É preciso dormir. E ele precisa ir. Seis e meia. Na casa ao lado, o cheiro do café e as vozes de crianças lembram que o dia raiou. A saudade dele já ficou.


Titulo: A saudade que dele me dá

Autor: Regina Vilarinhos

Gênero: Conto

Data de publicação: 11 de março de 2004

Resumo:

Um mini conto sobre muitas noites de amor.

3 Comentários

  1. Jair disse:

    Rê,vc arrasase sempre

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Belo mini conto, Regina. O trecho “a cama fica grande, o abraço dele me deixa pequenininha” marca um lirismo singelo das observações cotidianas e pessoais no texto.

  3. PH disse:

    Pôxa, Regina. Bela prosa sobre o preenchimento das noites e vidas daqueles que encontram seu amor. Ainda que exista a saudade…

Deixe seu Comentário

Spam Protection by WP-SpamFree

Quem é Regina Vilarinhos?

Gaúcha criada em Volta Redonda, RJ, onde vivo há 40 anos. Funcionária pública, instrutora de informática e POETA. Já publiquei um livro por aqui, "Poemas acesos para noites apagadas", junto com outra poeta Elisa Carvalho, em 2001. Atualmente, formamos um grupo, FABRICA DO POEMA, onde apresentamos saraus com muita poesia e mpb, com músicos da cidade. Também faço oficinas, palestras, festivais, em todos os lugares onde podemos colocar a poesia como atitude e alternantiva cultural.

Bad Behavior has blocked 5 access attempts in the last 7 days.