Conto por Samira Marzochi
7 de junho de 2005
Como andava sentindo um ligeiro estofamento no abdômen, resolvi fazer uma consulta. De gravidez não suspeitava, exames mais complexos estavam em dia.
O médico levantou a hipótese, a partir de minhas descrições, de que talvez tivesse uma solitária. Perguntou se comi alguma vez carne crua, de gado, porco ou peixe. Sim, vez ou outra como kibe e sempre no meio tem aquela parte mais vermelha.
Na hora bateu um desespero, quis tomar um remédio qualquer sem ao menos fazer exame. Mas depois achei que devia ser mais sensata: se tenho uma solitária, nem sei desde quando, então posso esperar mais um pouco.
Enviei os potinhos, agora era só aguardar. Inevitavelmente, fiquei pensando sobre o que é ter uma solitária na barriga. Um outro ser dentro de mim, grande, talvez de metros.
"Imagine um monte de mentex moles, um acoplado ao outro, formando uma cauda enrolada que vai se desprendendo e refazendo".
Que nojo!
Mas, de tanto pensar nesse outro animal, cheguei à conclusão de que eu não era tão solitária. Quem sabe ele não vivesse há décadas? Quem sabe tenha passado pelos momentos mais importantes de minha vida?
A perspectiva de tomar um remédio e eliminá-la tornou-se angustiante. Afinal, a solitária que cresceu comigo já devia ser a esta altura uma companheira. Como matá-la agora? Que insensibilidade a minha.
“Ela fica se mexendo dentro de você”, eu me lembrava das palavras do médico, ponderando. “Mas tem que tomar o remédio direito para botar ela inteira; se ficar a cabeça, cresce de novo”.
Estava dividida entre algo asqueroso, a que sempre tive horror só de imaginar, e a sensação de um outro que também cresce, se alimenta, quer viver e me habita. Afinal, o universo é infinito, dentro de um ser há sempre outros, sucessivamente. Por que matar a solitária?
Achei melhor consultar novamente o médico para saber se poderia continuar com ela sem que isso me fizesse mal. Estava afeiçoada à idéia de servir de abrigo a uma outra espécie. Expliquei a situação.
“Ih, esse bicho dá fácil! Ele não tem cérebro nem sentimentos, não faz sentido querer preservá-lo”.
Mas doutor, retruquei, é uma vida!
Comecei então a tentar comunicação com a solitária a fim de que pudesse ouvi-la, saber da importância que atribuía a mim e ao seu modo de viver. Descobri, para minha decepção, que a solitária era mesmo melancólica e que, para ela, estar ou não ali, tanto fazia.
“Foi por acaso, cheguei e cresci, e me alimentando de você vou passando os dias, mas não é nada pessoal”, suspirava.
Ainda assim, era dolorida a idéia de eliminá-la. Sua simplicidade me comovia.
O resultado do exame, enfim, chegara. “Laboratórios Ansher: o modo seguro de monitorar seu corpo”. Não era nada, apenas gases, informava a carta trocando em miúdos. O envelope endereçado à Tênia Almeida dizia que eu não tinha nada, nem mesmo um triste animal que me acompanhasse.
Titulo: A SOLITÁRIA E EU
Autor: Samira Marzochi
Gênero: Conto
Data de publicação: 7 de junho de 2005
Resumo: Mas doutor, retruquei, é uma vida!
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affffffffff que nojo sua louca isso nao é normal vai procurar ajuda …………credoooooo