A teoria do bombom de cereja

Conto por Paulo Henrique
23 de março de 2003

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Bombom de idéias

Para M.H.

Enquanto ela abria o bombom de cereja que havia acabado de comprar, pensamentos surgiam. Concentrada em retirar o celofane que envolvia aquele chocolate artesanal, suas idéias começavam a tomar forma. “Pra quê comer aquele bombom?”. Além de chocolate, apreciava doces em geral. Gostava mesmo, embora às vezes desgostasse de gostar tanto assim.

Terminou de desembrulhar o bombom e suas mãos leves o levaram para a boca. Seus lábios sentiram o gosto do chocolate na primeira mordida. Deliciou-se. Na segunda mordida, com os olhos fechados, veio a cereja. Junto com a fruta, outro pensamento: “nem gosto muito de cereja…”.

Continuou com seu prazer breve e paradoxal. A cena era linda. Uma mulher de seus vinte e poucos anos, com longos cabelos dourados caindo sobre seus ombros e pescoço, que discretamente sustentam sua face: olhos verdes, nariz bem-feito e lábios grossos e bem desenhados. Se aquela cena fosse capturada, poderia fazer parte de um quadro romântico ? uma jovem donzela distraída com um pueril prazer.

Mas o quadro não capturaria seus pensamentos. Ora, embora estivesse exalando beleza e graciosidade exteriores, suas idéias exploravam outras possibilidades: “e se não estivesse comendo aquele bombom?”; “qual a finalidade, se eu nem gosto tanto de cereja assim?”; “eu seria diferente se não tivesse comido o bombom?”. Indagações, indagações. Talvez são as indagações que a tornam mais linda e delicada assim.

Terminado o bombom, numa última mordida de boca cheia, terminou o prazer. As indagações, não. Afinal de contas, aquele bombom havia trazido mais do que delícias. Trouxe idéias. Foi mais que um bombom, foi uma experiência. Saiu daquele prazer diferente, com novos horizontes. Iria se conhecer mais, muito além do bombom de cereja.


Titulo: A teoria do bombom de cereja

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Conto

Data de publicação: 23 de março de 2003

Resumo:

Prazeres, idéias e crescimento.

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2 Comentários

  1. Isabel Martinez disse:

    Bem sugestivo…principalmente o título.

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Singelo e belo conto. Simples mas profundo, filosófico (“gostava mesmo, embora às vezes desgostasse de gostar”), fugaz mas que contempla a existência dentro de uma perspectiva eterna, plena de prazeres momentâneos e valores ‘não tâo passageiros’. Reflexivo e curioso o trecho d”o quadro (que) não capturaria seus pensamentos” - me fez pensar na completude do texto…

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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