A viagem de Antenor

Conto por Paulo Henrique
27 de abril de 2003

Aníbal e Joseílton estavam bobos com aquela viagem. Era a primeira vez que os dois andavam de trem e justamente em um daqueles grandes, com quartos, bar, salão de jogos e tudo mais.

- "Um hotel dos bão, só que anda" - foi a impressão que Joseílton teve ao andar pelos vagões.

Pois bem, estavam os dois viajantes no bar do trem - local predileto da dupla - quando, entre um gole e outro de Drurys, eles ficaram atônitos. Viram diante deles um gigante, um cara de uns dois metros de altura, muito forte, braços absurdamente musculosos com a inscrição "Tá olhando o quê?" tatuada de ponta a ponta. Um monstro, daqueles que fazia o chão tremer com cada passo que dava. Para ser mais detalhista, é bom lembrar que ele tinha uma completa e reluzente careca, contrastando com o cavanhaque que tornava sua aparência mais ameaçadora ainda.

O grandalhão passou com cara de poucos amigos bem em frente ao balcão onde estavam Aníbal e Josenílton e se dirigiu para o ambiente de estar. Apesar do jeitão rude, ele pareceu muito calmo quando botou para correr um rapaz que queria mudar o canal, enquanto uma idosa mulher tentava assistir a sua novela. Parecia ter um bom coração.

Diante desta cena, já devidamente calibrado com meia garrafa de Drurys, Aníbal propôs:

- Duvido que você dá um tapa na careca dele…

- Duvida?

- Duvido…

- Quanto você paga? - retrucou Joseílton, tão grogue quanto seu companheiro.

- R$ 100. No ato.

- Olha que eu vou… não conheço uma nota de 100.

- Tá apostado.

Em um só gole, Joseíton esvaziou o copo de whisky que tinha acabado de encher e, mesmo com os solavancos do trem, conseguiu se levantar sem a ajuda do amigo. "Tô inteiro", resmungou. Ajeitou as calças, fungou o nariz, aprumou o corpo e foi.

Atravessou todo o bar, chegou na sala de estar e lá estava o brutamontes, sentado na terceira fileira, ocupando totalmente uma cadeira de dois lugares. Parecia estar tranqüilo e concentrado na novela quando…

*PLAFT!*

Sentiu um tapa ardido em sua careca, daqueles que ficam a marca dos cinco dedos. Era Joseílton:

- Fala Antenor! Você por aqui, meu chapa! Quem diria, hein? Depois de tantos anos, desde o time de futebol de Juruaia, a gente se encontra justo aqui… você continua o mesmo…

Meio atordoado pelo tapa e pela estória absurda daquele desconhecido, o careca ficou sem reação. Acreditou que fosse mesmo um mal-entendido e até que foi educado.

- Você está louco, rapaz? Que história é esta? Eu não sou o Antenor, você deve estar me confundindo com alguém. Por favor, retire-se da minha frente, antes que eu chame o segurança…

Joseíton se afastou com mil desculpas, meio cambaleando, dizendo que ele era muito parecido com um amigo de juventude, etc. Ainda ouviu o carecão resmungar para a velhinha (a mesma da novela), enquanto alisava a careca: "cada um que aparece…".

Com um sorriso triunfante e um pouco mais lúcido devido a adrenalina, Joseíton volta para o balcão. Aníbal, embasbacado com a cena que viu, paga os R$ 100 e já dobra o desafio:

- Te dou mais 100 se você der outro tapa.

- Olha…

- Dou mesmo.

Mal tinha enchido o copo de whisky, tomou novamente em um só gole. Levantou-se e foi de novo para o ambiente de estar. Encostou na parede, olhou para o companheiro que podia ver tudo do bar, suspirou… E lá foi ele:

*PLAFT!* - desferiu mais um tapa daqueles!

- Antenor, minha nêga, que que há com você? O quê você está escondendo deste seu velho camarada?

Esta foi demais. O careca se levantou, pegou Joseíton pelo colarinho e armou um murro, com a velhinha no fundo dizendo: "vai, meu filho, dá um soco nele, vai".

- O q-que é i-isto, Antenor? N-n-não conhece mais o seu amigo brincalhão?

Rosnando e babando de raiva, o careca desarma o muro e - olhando bem nos fundos dos olhos bêbados de Joseíton - fala firme e pausadamente, sem antes pressioná-lo com a devida força contra parede:

- Meu amigo. Vou repetir. Eu não sou o Anternor, ou quem quer que você pense que eu seja. Nunca te vi mais gordo. Se você me der mais um tapa, eu te mato, está ouvindo? Vê se larga do meu pé…

- Então quer dizer que você não é o Antenor? - Joseíton pergunta, quase sem fôlego, balançando as perninhas.

- Não. Ouviu? Está claro para você?

- Sim… - murmurou.

O careca soltou Joseíton, que caiu no canto do vagão, sem acreditar que estava inteiro. Fulo da vida, o grandalhão disse para a velhinha que ia descançar ou ler alguma coisa em outro vagão, pois naquele ambiente tinha muito bêbado. A velhinha gostou da idéia e foi com ele.

Enquanto isto, Joseíton voltou para o balcão onde Aníbal, resignado, já tinha sacado a outra nota de R$ 100 para pagar a aposta. Duzentos reais mais pobre e com o sincero desejo de ver o amigo quebrar a cara, propôs o "full monthy".

- Completo em R$ 500 a quantia que você já tem, se você der mais um tapa no cara.

Joseílton quase engasgou com a dose do Drurys que estava bebendo. A garrafa já estava no final.

- Quinhentinho?

- É. R$ 500 no total. Você já tem 200, eu te dou mais 300. Simples assim.

- Eu vou, hein?

- É, dá até pra pagar o plano de saúde.

Joseílton nem ouviu este último comentário maldoso. Secou a garrafa de whisky e já estava pronto pra outra.

- Vamos ter que procurá-lo, não sei para qual vagão ele foi.

Aníbal também se levantou e, como era a sua primeira tentativa, deu uma bela cambaleada. Assim foi a dupla atrás do careca. Entraram em um vagão e nada, apenas pasageiros comuns. Passaram pelo restaurante, berçário, pela ala das cabines. Justo na classe econômica, Aníbal escorregou e quase levou junto Joseílton: um vexame, para diversão dos menos favorecidos.

Chegaram na sala de leitura. Suspenderam a respiração. Estava ali o grandalhão sentado na frente deles - e o melhor - de costas para eles. Situação perfeita. A vítima estava em uma suave compenetração entre as páginas de uma revista, a paisagem pueril e as trocas de palavras gentis com a velhinha. De repente:

****PLAFT!****

- Antenooooor! Não é que tinha um cara igualzinho a você no outro vagão?!?!?


Titulo: A viagem de Antenor

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Conto

Data de publicação: 27 de abril de 2003

Resumo:

Um careca fortão e dois bêbados folgados no mesmo trem. Estava na cara que a viagem ia terminar em confusão…

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9 Comentários

  1. Herbie disse:

    HAHAHHAHAHHAHAHHAHHAHAHHAEXCELENTE!!!!!!Não vai a hora do cara dar os tapas!!!! Parabéns PH! Estamos nos devendo umas cervejas hein!

  2. tiago disse:

    Hahahahahahahahahahahahahahahahahahahaahahahahaha!!!! Desculpem a falta de imaginação, mas hahahahahahahahahahahahahahahahahaha!!!!!

  3. Raphaela de Goes disse:

    Bom, gostei pra caramba desse conto, sempre q der manda mais tá Roni!Esse cara é bom!

  4. Márcia Heuser disse:

    Bem criativo! Drurys, hen? Um beijo!

  5. Alexandre Piccolo disse:

    Piada legal!

  6. Antenor Freitas da Silva disse:

    Bonito o nome do fortão….rs…

  7. Luiz Felipe Ennes Amaro da Silva disse:

    Muito bom esse texto!!!!!!!!!

  8. Priscilla Leme disse:

    Muito bom o texto… Ele nos mostra a ganância das pessoas pelo dinheiro, ignorando até mesmo o perigo e a vergonha…Parabéns!

  9. Ronaldo Magalhães Lima disse:

    Muito engraçado… eu que não queria estar na pele do Aníbal… vai ter que gastar R$500 mangos… o cara lembrou muito meu primo que tem desculpa para tudo, é o famoso jeitinho brasileiro… risos. Animou o dia… que está pra lá de corrido. Valeu!

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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