ABZD

Conto por Tiago Russel
28 de abril de 2003

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Ilustração: Vinicius Andrade

Eu não suporto mais vocês. 26 inúteis e dispensáveis sem a minha presença. Destas, 3 realmente inúteis e dispensáveis não importa a presença. Todos fazem o que querem com elas, prostitutas de uma máquina, meretrizes da mão livre. Organizam-se para assumir o poder ou acabar com ele. Podem impressionar corações ou acabar relacionamentos. São inconstantes, indecisas e fúteis. Agora estão aqui, na minha frente. E eu posso e vou fazer o que quiser com cada uma destas nojentas.

Eu cuspo em vocês. Não, escarro vocês. Coloco na ordem que melhor me convier. Crio um vocabulário, um idioma, um dicionário imaginário. Estupro seu significado. ABC o caralho! Invento significados mudando o de vocês. L é R, B é S, C é V. Quem consegue entender o que escrevo agora só percebe uma das suas facetas, entre tantas pulsações possíveis. Foi educado para isso, não tem culpa. A única falta é destas vagabundas em sua ditadura. Mate o Ivo que viu a uva agora!

Letras mundanas formando o infinito. Quantas precisamos para descrever a saudade? Experimente encontrar apenas uma palavra formada por elas que faça o mesmo em inglês. As odeio por isso. Quem pensam que são para se fazer falar por mim? Vomito em suas serifas. Bato, transformo, piso, jogo todas violentamente na parede. Elas se agrupam e debocham: "nos chame de lagartixa".

Baratas nojentas. Nos dois sentidos. São insetos, e ao mesmo tempo não possuem mais valia. Qualquer um as usa. Poucos tem o manual de instruções. A maioria prefere fazer como eu. Rasgar e jogar fora. "A desobediência é uma virtude necessária à criatividade", já dizia o Raulzito.

Escrevo errado no idioma que eu escolhi. Mas escrevo. Junto estas malditas em orações que mais parecem rezas. Troco significantes e significados como bem entendo. Formo outras línguas, numa lingüística exclusiva. Nada é universal neste universo limitado. Não busco os caminhos do convencionamento. Todas as convenções baseiam-se na mediocridade dos signos. Se o que você lê agora não faz sentido, esqueça. Outro idioma manipula estas linhas. Ninguém o entende. Nem mesmo eu.


Titulo: ABZD

Autor: Tiago Russel

Gênero: Conto

Data de publicação: 28 de abril de 2003

Resumo:

Você tem certeza de que sabe o que está lendo?

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3 Comentários

  1. PH disse:

    Rebelde e desafiador mesmo. Quase sempre (ou sempre) que estudamos linguística, dá vontade de mandar Sausserre, Lacan e cia, pra’quele lugar, ao invés de complicar aquilo que é simples. E este textos externou toda a indegnação com os signos que eles criaram e só eles entendem. Mandou bem. Também destaco o período “todas as convenções baseiam-se na mediocridade dos signos”. Serve como desabafo geral.

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Legal, provocante seu texto, Tiago. Sua afirmação “todas as convenções baseiam-se na mediocridade dos signos” instiga um descaso (valioso) à teoria lingüística de Sausserre, cuja idéia se rebela em “troco significantes e significados como bem entendo”. O tema é vastíssimo e seu enfoque é rebelde e desafiador. Bem bacana.

  3. Mário disse:

    Legal Tiago! Uma ótima sacada a sua… Elas, essas, enfim… algumas vezes malditas… Mas também benditas. Sem elas… ah, sem elas…

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Quem é Tiago Russel?

Escrevo como válvula de escape. Antes que a vida me escape.

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