Conto por Claudia Lins
5 de junho de 2004
Acordou sobressaltada. A visão da bunda nua refletida no espelho de teto encerrava o mistério sobre onde estava. Na boca um gosto amargo revelando que a insensata mistura de vodca com outros drinks era a causa daquele mal estar.
Tinha que parar de misturar bebida. Já era a segunda vez em menos de 15 dias que tomava um porre daqueles. Decididamente estava indo longe demais. As noitadas, os encontros, os convites para festas, viagens, e a amnésia sempre depois das orgias…
Era hora de desacelerar.
Tentou cobrir-se sem muito sucesso. A calcinha abandonada do outro lado do quarto impedindo o resgate discreto. Puxou o lençol sobre o corpo, mas não pode deixar de notar o riso debochado do outro, que acabara de acordar em meio aquela situação de saia-justa.
Esperou que ele se levantasse para em seguida tentar arriscar uma saída a francesa. Foi surpreendida por mãos fortes e determinadas. Nem mesmo tentou resistir. Na verdade, não queria.
Voltou-se para ele e pela primeira vez fez questão de olhar em seu rosto a procura de algum sinal da noite anterior. Por um instante teve a sensação de reconhecê-lo entre tantos outros da boate.
O reconhecimento durou pouco tempo. O ritual que se seguiu depois do beijo de bom dia não deixou pairar dúvidas. Tinha gostado dele desde que se encostaram no balcão do bar a caminho do banheiro.
Não recordava como tinham ido parar naquele motel, mas isso agora era o que menos importava.
Diante da certeza de tê-lo reconhecido, permitiu que sua boca percorresse os mesmos caminhos de toda madrugada. Com urgência, estreitou os quadris contra o corpo dele num ritmo apressado e com uma fúria que há muito tempo não experimentava de modo tão espontâneo.
Ficaram ali, colados como dois animais. Magnetizados. Sem doçura, beijos ou promessas. Apenas sexo. Voraz e instintivo. Sem elogios ou carícias.
Em silêncio gozaram juntos, quase na mesma sincronia. Sem proteção. Insensatos, quanta loucura. Tinha que parar de cometer tantas.
No banheiro, enquanto se aprontava para partir, ainda o surpreendeu olhando-a com desejo. E como não pretendesse oferecer resistência, entregou-se novamente. Desta vez com mais vontade, sem pudores, que aliás nunca os teve.
Ao final, um beijo leve, quase lento, selou o desatar de corpos exaustos. No espelho viu a maquiagem borrada e as marcas de vinho barato deixadas sob a blusa branca. O sonoro palavrão servindo para justificar o fio puxado na meia nova. A terceira perdida em menos de um mês. Experiente, escondeu o furo ajustando a parte desfiada sob a micro-saia de couro. A peça fina, tecido cru, tinha sido comprada numa loja chique do shopping com a grana do alemão que a contratara por uma semana.
Do interfone pediu um táxi. Terminou de vestir-se com pressa, nem deu tempo ao outro para despedidas. Também não conferiu o pagamento. Dobrou as notas escondendo-as no forro falso da bolsa. Tinha se divertido tanto quanto ele e era justo que até concedesse um certo desconto.
Do lado de fora, bateu a porta com força, desceu as escadas da garagem correndo. O táxi de sempre já estava na portaria, a sua espera.
No elevador do prédio tratou de ajeitar o cabelo. O chiclete de hortelã, uma borracha, já sem gosto, mal disfarçando o hálito de ressaca.
Antes de sair do elevador parou para atender o celular. O zíper emperrado da bolsa impedindo a manobra a tempo. Na secretária eletrônica o alemão avisava que estaria de volta na noite seguinte, para uma temporada de seis dias. Vinha com uns amigos, a encontraria com as outras no aeroporto e de lá voariam direto para Angra.
Calculou o faturamento extra e até sorriu animada ao cumprimentar o antipático síndico que a espreitava no corredor. Entrou pela porta dos fundos, quase encontrando o pai, que segundos antes cruzara a sala, a caminho do trabalho.
- O carro quebrou. Tive que dormir na casa de uma amiga.
Como de costume, a desculpa dita como se verdade fosse acalmou os ânimos de uma mãe que de ingênua nada tinha.
Antes de voltar para o quarto e dormir o sono reparador dos justos, deixou o dinheiro do aluguel no criado mudo ao lado da imagem de Nossa Senhora da Conceição. A mãe lhe abençoou com um beijo na testa. Fez recomendações para que se alimentasse, estava de saída para visitar uma amiga, mas deixara o almoço na geladeira.
Agradeceu a preocupação pedindo em troca muito silêncio. À noite viajaria para São Paulo, escalada pela agência para atuar como recepcionista numa feira de moda. Precisava dormir, estava exausta.
Titulo: Apenas sexo
Autor: Claudia Lins
Gênero: Conto
Data de publicação: 5 de junho de 2004
Resumo: A visão da bunda nua refletida no espelho de teto encerrava o mistério sobre onde estava.
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Gostei muito. Texto rápido, fluido e provocante. Curiosos como os pequenos símbolos e objetos do texto constróem uma imagem dela e da família — uma imagem, diga-se de passagem, que deixa apenas entrever o que é a vida delas.