Às 11 e 46 da noite

Conto por Fabiana Tonin
20 de junho de 2005

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O sono da razão produz monstros…

Machado disse que se morre bem às 6 ou 7 da noite, mas a esse horário… Arrasto a cadeira, meço os pulsos, que já não são tão finos quanto em criança e lembro que quase, há pouco, tivera a certeza de me matar. E fui, milagrosamente salva, lindamente salva pelo gato que ousou cruzar a janela e abafar a luz. Que fazer, se só há o computador, teclas que tilintam, sons que medram lá fora, entre flores, entre nuvens, entre pingos de chuva? Que fazer se há a sede de noite, a sede do que não se bebe, a certeza do não se ser?

Não, não se morre bem às onze e tanto da noite. Não se morre bem porque a vida faz barulho em cada detalhe: a cadeira range, a luz pisca, as mãos gelam, os olhos se maravilham. Penso em tudo, ainda quero a solução. Cortar, rasgar, tomar meia centena de pílulas? Não, tudo tão indolor que não me basta. Se, ao menos, quando range a cadeira, quando o encosto oscila, tudo caísse, tudo se arruinasse e não houvesse saída…Mas há…Ju se casa amanhã, Dani vai ter um filho, Cacau está longe. Flávio já tem outra namorada, perdi as letras de Antônio, penso em Carlos quando ouço aquela música, queimei a lingerie daquela primeira vez. Tudo me perturba, o imenso mosaico que é minha vida grita em cada cor, berra em cada detalhe e me perturba, me cutuca. Pior morte? Deixar viver, viver com gosto, com o caldo do querer mais, do enganar-se na angústia de que o amanhã será melhor. Penso no buquê da Ju, no cheiro de bebê na casa do Dani, nas flores secas, restos do Carlos, nos enganos doces de Flávio. Cada taco, um rompante; cada tecla, um desespero. E retomo a idéia de me romper toda, mas minhas mãos fracas, que, quando muito, acariciam, e lembro que não sou tão viva que possa me dar ao luxo de sangrar…

Onze e tanto, onze e muito. O tempo pára, cadencia sua letra, percorre sua música. O bebê de Dani chora, o vestido de Ju está na cadeira e há dois corpos e um outro na cama. Na minha, só a sombra do que não fui, dos homens que amei e que se foram. Junto, levaram a mim. Perdida, nem me basta o chá forte, frio, verde. Só, nem toda poesia pode com sua força despencar minha cabeça e fazer-me cair em mim. Num instante, há o tique-taque do relógio, gritante, horrível. Olho ao lado e há a outra: a noiva que não fui, a mãe que secou, o buquê insosso, cores que não usei. No final, a mesma nesga de sempre querendo ser sombra na noite que pulsa. Na minha neurose tão lúcida, os olhos do gato que grita, suave, a hora dessa noite, ditando o meu desejo, ditando como eu queria ser para meus dedos e olhos, às 11 e 46, nem um minuto a mais, nem a menos…


Titulo: Às 11 e 46 da noite

Autor: Fabiana Tonin

Gênero: Conto

Data de publicação: 20 de junho de 2005

Resumo:

Deprê, procurava a lâmina, mas só achou a noite e sua terrível misantropia…

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1 Comentário

  1. Hermann Hesse disse:

    Toda individualização exacerbada se volta contra o eu e tende a sua destruição.

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Quem é Fabiana Tonin?

estudante de Letras, leitora quase assídua de tudo.

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