Conto por Alexandre Piccolo
5 de setembro de 2005

Essa era mesmo um tipo raro, um tipo fatal, pronta a atacar! Das vinte vezes que a vi, em nenhuma ela deixou de passar as mãos provocantes pelos quadris, modelados sempre por um vestido justíssimo, pronta.
Ela era promoter de festa naquela época. Pouco dinheiro, muita ralação e diversão ao mesmo tempo, parecia o trabalho certo para seu perfil.
Como era mesmo o nome dela? Um nome simples, curto, difícil de esquecer, algo como Má ou Ká… Sim, deve ser isso, Ká. Além disso, o nome não muda as coisas. Nascida em Floripa, não bem na ilha de Florianópolis, mas na região, veio pra cá há alguns anos.
Que tipo essa Ká!
Um sábado, estávamos no apartamento (ainda morava perto da avenida Brasil), no final da tarde, e Ká pergunta como quem não quer nada: “que a gente vai fazer hoje à noite?”, ao que respondi: “o que você quiser, Ká”.
Combinamos então uma balada pelas redondezas, pra explorar a região. Ká, de folga.
Descemos ao bar de frente ao prédio, “O Insólito”, e propus começarmos de leve. Mal entramos e Ká bateu a mão no balcão, cheia de si:
- Duas tequilas e duas margueritas.
Um velho mal-humorado trouxe tudo num silêncio carrancudo. Em copos não muito limpos, propusemos um brinde à noitada que viria.
Na verdade não era Ká apenas que ela se chamava, era algo mais comprido, mais longo, algo como Ká…Camila. Sim, vá por Camila!
Virada a dose, Camila me diz ao ouvido: “Hoje você terá a noite dos seus sonhos…”
Foi a flechada. Suei frio. Virei rapidinho aquela marguerita sem gelo (devia ser o horário, éramos os primeiros clientes) para tentar apressar a noite. Depois dum repeteco, começando a ficar alegre, paguei as bebidas e voltamos ao apê. Os preparativos só estavam começando.
- Vai tomar banho enquanto ligo pr’umas amigas… disse Camila correndo ao telefone.
Consenti, fácil. Noite perfeita. Uma boa ducha, um bom perfume, vesti-me e fui esperar Camila no pufe da sala, vendo-a zanzar só de calcinha e telefone ao ouvido, descompromissada, pelas curvas do quarto ao banheiro. Quando saiu, de cabelo molhado e no vestido justíssimo, perguntei ansioso:
- Pra onde vamos? Pra quem você ligou, Camila?
Camila, ou melhor, Carolina, agora sim eu me lembro, era Carolina; Carolina, dizia eu, respondeu com um sorriso manhoso, cheio de segredos e segundas intenções. E com o dedo indicador em riste na frente dos lábios, ordenou “nem mais um piu!”, enfiou carteira, cigarros, camisinha e o celular na bolsa. Descemos, como se corrêssemos para não perder a hora. Guardou, insinuante, a chave de casa entre os seios, puxou-me pela mão e chamou um taxi que passava pela rua:
- Pra its!
Não precisávamos na verdade de um taxi, eram só cinco quarteirões até a boate, mas preferi entrar no clima e satisfiz-me em satisfazê-la. Havia trânsito, mas em clima de sábado à noite, noite fresca, maravilhosa. Na curta corrida, suas mãos quentes roçavam minhas pernas. Sinal vermelho, paguei e descemos.
À porta, uma fila enorme aguardava entrada. Carolina foi direto ao segurança, o famoso negão-guarda-roupa, sempre presente nestas festividades, e abraçou-lhe carinhosamente o pescoço nas alturas, o que lhe causou apenas um leve movimento na sobrancelha esquerda, quase imperceptível. Ao final do abraço, ela puxou-me pela mão enquanto o brutamontes engravatado nos abria passagem: premiados fura-filas! Muitos degraus abaixo, sentíamos o estabelecimento subterrâneo tremer ao som forte da balada. Uma multidão dançante pulava como sardinha à nossa frente.
- Uhuuu!, rebolou toda animada Carolina!
- Vamos nessa! acho que foi a única coisa que consegui responder.
No meio galera, Carolina logo achou suas três amigas, divas estonteantes e, enquanto se cumprimentavam, fui ao balcão do bar me reanimar. Quando enfim chegou uma tão demorada dose de Jack Daniels (vocês já repararam como são caras e disputadas as bebidas nessas situações? - alguma medida deveria ser tomada para…), percebi agarrarem minha bunda e, ao me virar, senti Carolina roçar-se toda em mim, ofegando, sensual, de baixo para cima, provocante. Tomou-me o copo, deu uma talagada e sussurrou-me:
- A noite dos sonhos, querido, seremos todas suas escravas na noite de hoje!
Não podia crer na sorte daquela noite. A balada bombava, muita música, luzes coloridas, espelhos. Enquanto mulheres deslumbrantes e insaciáveis eram disputadas por infinitos homens, eu, ali, invejado por todos ao redor, sendo cortejado por quatro deusas enviadas pela própria Afrodite. As duas morenas de olhos verdes, gêmeas, beijavam-se debaixo do meu nariz, convidando-me à farra da lascívia. A loura de cachos dourados roçava seu nada discreto decote em meu peito enquanto agarrava Caroline (sim, agora me lembro bem que era Caroline, com "e" ao final) que dançava bem juntinho atrás de mim, beliscando de leve a bunda. "Sanduíche melhor impossível", ouvi alguém dizer.
Muito suamos e nos relamos, música após música, num desejo crescente e insano. Por fim, quando as gêmeas voltaram do banheiro Caroline se despediu das garotas, que apenas acenaram mais provocações. “Elas vão só abrir o caminho”, me disse Caroline ao ouvido e pediu mais um uísque. Quando não mais nos aguentávamos, pagamos a conta e descemos a rua, correndo, já incontroláveis.
Chegamos ao prédio. Quase quebramos a chave às gargalhadas na entrada da portaria e subimos as escadas cambaleantes, entre agarrões, risos e arranhões.
Caroline empurrou a porta e vi, à luz apenas do abajur, as três deusas semi-nuas se beijando no sofá-cama, aberto no meio da sala, entre travesseiros e edredon. Entramos aos chamados manhosos dos dedinhos das três. Uma delas, sapeca, jogou uma almofada verde entre nós, ao que Caroline se enfureceu. Mandou que calassem, empurrou-me para o meio daquele harém, rasgando-me a camisa, pegou o chicote sobre a mesa e spláft:
- Ah! meu querido, é hoje! É hoje que você vai ter uma noite de sultão, é hoje que você vai realizar todos os seus sonhos, ou eu não me chamo Priscila Medeiros de Albuquerque…!
Ah!, agora eu me lembro, é Priscila que ela se chamava, seu pai era um alfaiate que veio com toda a família do Rio Grande do Sul, Priscila, sim, é isso mesmo…
Grande Priscila! Que tipo! Que figura!
Titulo: As Safadas
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 5 de setembro de 2005
Resumo: É preciso ler para crer.
não entendo pq acabou? queria mais, será que é esse o objetivo? DIVERTIDO!!! porém obvio!
Ótimo! Melhor conto dos últimos tempos!
Porra Alê, liga pros irmão porra! Duvido que você dê conta!
Alexandre, o texto é bem interessante especialmente em sua atualidade! O toque dos nomes ficou mto bom!
Era Soraia. Soraia! Você não lembra?
Salve Piccolo!
Excelente meu retorno ao site (ou seria retorno do site?)!! Pra variar, outro excelente texto, com uma personagem daquele tipo, mas desta vez, nao exatamente ela
… Nota 10!
Um abraco, e espero te ver na BioArte hj!
Figura é você para escrever este texto (rs)!
rsrsrsrs, faltou dizer o que aconteceu no fim da estoria
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Puxa, adorei!!! Achei interessante,envolvente e divertido. O lance do nome foi bárbaro… ficou faltando o fim da história, mas isso vai pra imaginaçao de cada um!!